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Ex-PR cabo-verdiano Pedro Pires recorda José Eduardo dos Santos como "figura central" na África Austral 08 Julho 2022

Em Cabo Verde continua a surgir reações à morte do segundo chefe de Estado angolono. Desta vez é o antigo Presidente cabo-verdiano Pedro Pires a recordar, hoje, José Eduardo dos Santos, que morreu em Barcelona, como uma "figura central" na "grande mudança" na África Austral e relativizou as críticas sobre corrupção, nepotismo ou falta de democracia.

Ex-PR cabo-verdiano Pedro Pires  recorda José Eduardo dos Santos como

"O Presidente José Eduardo dos Santos foi uma figura central no processo que conduziu à mudança do regime sul-africano, à independência da Namíbia, enfim, à grande mudança na África Austral", disse à Lusa o antigo chefe de Estado cabo-verdiano (2001 — 2011), que foi um dos líderes da luta contra o regime colonial português na Guiné-Bissau e Cabo Verde.

José Eduardo dos Santos morreu hoje aos 79 anos numa clínica em Barcelona, Espanha, após semanas de internamento, anunciou a presidência angolana, que decretou cindo dias de luto nacional.

Pedro Pires, de 88 anos, disse que já se esperava a morte, mas considerou que é sempre "chocante" e mexe com os sentidos, sobretudo os sentimentos do passado.

"Entendo que a morte do Presidente José Eduardo dos Santos é uma grande perda para Angola, para a África, e para a África Austral em particular", considerou o também antigo presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV, atualmente na oposição no país).

Para o antigo Presidente cabo-verdiano, José Eduardo dos Santos teve, prossege a fonte deste jornal, o mérito de, numa situação de enorme complexidade, lançar as bases para a construção de um Estado moderno e integrador em Angola e que garantiu a unidade nacional, territorial e da Nação angolana.

"São elementos fundamentais para a construção de um futuro diferente", reforçou Pedro Pires, recordando que conseguiu tudo isso "apesar de todas as ingerências externas e internas" no sentido de "dificultar" esse processo unificador e consolidador da independência de Angola.

"Entendo que desempenhou um papel fundamental. É esse estadista que África acabou de perder, que Angola acabou de perder", prosseguiu, considerando que é importante fazer a análise na perspetiva da libertação e da complexidade do processo e da construção do novo Estado e da nova nação angolana.

"Acho que é importante começar pelo prioritário, que é fundamental, dispor de um Estado soberano, forte, que possa oferecer as condições para que depois se faça todo o resto, desde a construção económica, passando pelas mudanças institucionais que forem necessárias", avaliou.

José Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto como Presidente de Angola em 1979 e deixou o cargo em 2017, cumprindo uma das mais longas presidências no mundo, marcada por acusações de corrupção e nepotismo.

Sobre as muitas acusações e críticas que de era alvo, Pedro Pires questionou onde andavam os democratas e as democracias quando ele, José Eduardo dos Santos e muitos outros andavam a lutar contra o colonialismo.

"Eu relativizo bastante essas críticas, eu não repito o que dizem os outros, eu faço análise da realidade, até porque fui participante nesse processo. Se tinha democracia ou se não tinha democracia, isso aí tem pouca importância, o que nos interessa é que Angola, sob a liderança dele, pôs de pé um Estado com instituições, com todas as condições para construir o futuro", analisou o comandante cabo-verdiano, atualmente presidente da Fundação Amílcar Cabral e de um instituto com o seu nome.

Para o antigo Presidente cabo-verdiano, os grandes debates de hoje sobre a ditadura e sobre a corrupção devem ser vistos de outra forma e "não repetir os argumentos daqueles que gostariam de Angola não fosse independente".

Do ponto de vista pessoal, disse que Eduardo dos Santos era um "amigo, um camarada" com quem, enquanto Presidente da República e antes como primeiro-ministro de Cabo Verde (1975-1990), discutiu "coisas complexas, muito sensíveis", criando condições para que Angola ganhasse na confrontação do regime do Apartheid na África do Sul.

"Sob a liderança de homem simples, que falava pouco, mas que tinha grandes convicções e que conseguiu, do meu ponto de vista, deixar um legado extremamente importante a partir do qual se pode pensar, perspetivar e realizar um futuro diferente, de progresso e de prosperidade, de igualdade para Angola", analisou Pires, que em 2011 foi laureado como Prémio Mo Ibrahim de governação em África.

Em 2017, Eduardo dos Santos renunciou a recandidatar-se e o atual Presidente, João Lourenço, sucedeu-lhe no cargo, tendo sido eleito também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa no país desde a independência de Portugal, em 1975, conclui a Lusa.

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