OPINIÃO

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O bota-abaixo na Política 05 Junho 2019

Colhe-se hoje o que ontem se semeou e na maioria das vezes foram outros que semearam. Se o que existe hoje é objecto de interesse por estrangeiros, evitemos a parolice (para não dizer crime) de sacralizar o comprador e demonizar o construtor. E não normalizemos a vertigem de pretender o recomeço a cada ciclo, como se o anterior, por norma, valesse pouco ou nada. Isso é política travestida de macacada e não condiz com o nível de desenvolvimento já alcançado.

Por: Mário Paixão*

O bota-abaixo na Política

Em Cabo Verde, parece que o bota-abaixo e a propaganda barata ganharam uma importância vital na luta para a conquista e manutenção do poder. A ética no exercício da democracia, bem como o sentido de história, de continuidade, de alternância e de normalidade na gestão dos assuntos do Estado vão-se tornando bens raros.

Neste capítulo há que ser claro: estamos regredindo. Agora interessa o vale tudo, fazer pouco do trabalho dos outros, distorcer factos, manipular sentimentos e mentir. Há bem poucos dias, no afã de apoucar supostos adversários e apresentar realizações que não existem ou, existindo, não têm tempo para produzir efeito, o Primeiro-Ministro disse no Parlamento que em x anos da governação anterior a ASA apresentou resultados anuais pouco significativos e que a partir de 2017 há uma gestão muito mais eficiente e eficaz.

Investimentos e infraestruturas construídas

No período a que se referiu o PM, a ASA esteve alinhada com as políticas e orientações do Governo e produziu três Planos de Negócios quinquenais (2004-2008, 2009-2013 e 2014-2018) com objectivos muito claros e foco no lema “Investir para Crescer” (Invest for Growth, na versão inglesa, que se apresentou a organismos internacionais). Investir na modernização da rede aeroportuária nacional e do sistema de controlo de tráfego aéreo, para melhorar o nível de serviços e alavancar a economia de Cabo Verde. O Novo Centro de Controlo na FIR Oceânica (2004), a rede de Vigilância Radar de Cabo Verde (2004), os aeroportos internacionais da Boavista (2007) e de S.Vicente (2009), a obtenção da categoria 1 da FAA americana (2003), o alargamento dos acordos aéreos multilaterais, a liberalização das operações charter, a obtenção da certificação internacional em Segurança e Qualidade, a dotação de novos veículos de combate ao incêndio, socorro e salvamento em todos os aeroportos e aeródromos, a instalação de novos sistemas de produção e distribuição de energia de emergência nos aeroportos, a formação de mais de uma dezena de Master em Sistemas Aeroportuários (em Madrid e em Toulouse), foram, de entre outros, os investimentos realizados no período e que obrigaram a um enorme esforço financeiro. Há que acrescentar as obras suplementares para a operacionalização do Novo Aeroporto do Praia (em 2005, cujas obras estavam paralisadas em 2001), a reabilitação das infra-estruturas em todos os aeródromos, a aquisição pela ASA da nova empresa Cabo Verde Handling (2014) e o arranque, em 2015, das obras de ampliação e modernização dos Aeroportos do Sal, da Boavista e da Praia (todas em fase de conclusão), com vista a responder à crescente demanda do tráfego e elevar o nível de serviços aos passageiros. Foram mais de 150 milhões de Euros de investimento, sendo que os aeroportos internacionais da Boavista e de S.Vicente (cercade 40 milhões de Euros) foram objecto de acordos de financiamento com a banca comercial estrangeira, obrigando a compromissos financeiros severos na amortização de capital e juros.

ASA e lucros

A ASA manteve-se sólida e pujante durante esse período, deu lucros ao accionista Estado, apresentou um EBITDA sempre superior a 1,5 milhões de contos, conforme os relatórios de gestão consolidados. Em 2017 a dívida de Boavista e S.Vicente estava já saldada. Os activos cresceram e o capital social passou de 1,5 milhões de contos em 2001 para 5,5 milhões contos em 2013 por força da integração de património construído. Em 2001 o tráfego nos aeroportos era de 1.266.237 passageiros e em 2016 passou para 2.256.355 passageiros, o que pressupõe um aumento de 66% no período (média anual de 5,5%). A essas acções e resultados há que associar o efeito catalisador no movimento turístico, cuja procura cresceu de 162.095 turistas em 2001 para 644.429 em 2016, o que corresponde a um aumento de 297,5% no período (média anual de 19,8%), com impacto fortíssimo na formação do PIB. Os dados do INE que vimos citando (cuja fonte é a Agência da Aviação Civil) apontam um decréscimo de 30,6% no tráfego de passageiros em 2018.

Hub e política travestida de macacada

Haveria aqui lugar para alguma ilação negativa num contexto em que nunca se falou tanto em Hub? Possivelmente não! Esse dado tem uma ou mais causas conjunturais e a tendência dos próximos anos é que interessará, analisando-se os contextos interno e externo e as medidas a montante e a jusante. O tempo dirá, como se costuma dizer, e não será nenhuma propaganda ou contrapropaganda a mudar a realidade das coisas.

Colhe-se hoje o que ontem se semeou e na maioria das vezes foram outros que semearam. Se o que existe hoje é objecto de interesse por estrangeiros, evitemos a parolice (para não dizer crime) de sacralizar o comprador e demonizar o construtor. E não normalizemos a vertigem de pretender o recomeço a cada ciclo, como se o anterior, por norma, valesse pouco ou nada. Isso é política travestida de macacada e não condiz com o nível de desenvolvimento já alcançado. A quem interessará esta deprimente escalada de desvalorizar o trabalho dos outros para se parecer maior num palco qualquer onde o povo ou as circunstâncias nos colocaram?
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* Ex-PCA da ASA (Post publicado na sua página de facebook)

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