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O lendário cemitério de baixo ou de brancos 28 Abril 2022

O CEMITÉRIO DE BAIXO ou dos brancos, como ficou conhecido no tempo colonial, é um património com elevado valor histórico e turístico da cidade de São Filipe. Está situado na parte baixa da cidade dos sobrados, do lado sul da Ribeira de Boqueirão, que delimita o centro histórico da urbe de São Filipe, que este ano assinala os 100 anos da sua elevação à categoria de cidade.

O lendário cemitério de baixo ou de brancos

Conforme fontes históricas, este cemitério foi construído depois de 1845, provavelmente no ano de 1853, pela Família Sacramento Monteiro, a mando do último Morgado da ilha do Fogo, Francisco José Sacramento Monteiro, conhecido por Nhô Francisquinho. O Cemitério de Baixo, também denominado por “cemitério de brancos”, transformou-se, fruto de inúmeras ligações havidas entre as grandes famílias da ilha, no campo de descanso de toda a elite que ajudou a construir a vila/cidade de São Filipe.

Alguns escritos referem que, antes da sua edificação, os defuntos eram sepultados dentro e/ou nos átrios das igrejas, mas em 1845 esta prática religiosa foi proibida, razão pela qual Francisco José Sacramento Monteiro, mandou construir um pequeno cerco sobranceiro ao mar para enterrar os mortos da família, que seria assim o único cemitério privado de toda a Costa Ocidental Africana.

O seu interesse histórico é notável, porque, explica o professor e ativista cultural Fausto do Rosário, “guarda, praticamente, todo um trauma de relações sobre as quais, por mais que se diga, se erigiu São Filipe, mas também, esse mesmo trauma contempla a classe mestiça e igualmente a classe escrava”.

Neste cemitério estão enterrados os Monteiros e os Gomes de Pina, que são mestiços, os Macedos que são negros, e por isso chega-se à conclusão que “o campo Santo de Bila Baixo, não é tão branco, nem tão discriminatório, como se diz, talvez mais niveladora daquilo que as pessoas pensam”, destacou.

Só isso, no dizer de Fausto Rosário, seria motivo de grande interesse histórico e turístico, uma vez que o que pode ser visto na parte baixa da cidade é complementado e referenciado pelo cemitério.

Ironizando, Rosário salienta que o atrativo menor que existe neste cemitério é precisamente a campa que está fora do seu limite e sobre a qual tem-se falado muito, mas que, do seu ponto de vista, não merece metade das linhas que se tem escrito sobre ela.

Há várias versões, muita fantasia quando, afinal, se trata de um facto pueril, histórico de forma alguma e turístico também não. Será ‘sui generis’ por estar fora do limite do campo santo”, destacou.

Desde a década de 40 do século XX a família Sacramento Monteiro transferiu o cemitério para o município de S. Filipe. De lá para cá a cidade sem que se tenha salvaguardado as acessibilidades ao local.

Felizmente, ainda é possível compor um acesso digno para o lugar, que merece, porque, segundo Fausto do Rosário “estão lá enterrados Aníbal Henriques, o homem que praticamente refundou a Bandeira de São Filipe, e outras personalidades e figuras que, de facto, fundaram a cidade, como o pai de Abílio Macedo, gente que marcou esta cidade e que nestes 100 anos deviam ter sido melhor lembrados, independentemente da cor”.

“Hoje 100 anos depois da elevação de São Filipe a cidade e 150 anos depois da abolição da escravatura, de facto, já é tempo de superarmos alguns fantasmas e os exorcizarmos de vez”, afirma Fausto do Rosário.

Enigmas por esclarecer sobre as campas

A campa que fica do lado de fora do cemitério dos brancos é a de Leonarda Barboza Monteiro, falecida aos 68 anos de idade, casada com Tadeu José do Sacramento Monteiro, que, segundo os dados existentes, terá falecido a 07 de março de 1893.

Conforme a fonte deste jornal, a sepultura mais antiga do Cemitério de Baixo data de 1853, o que nos leva a crer que o cemitério foi concluído em 1849. No livro de óbitos pode-se ler que a 14 de setembro de 1850, o bispo de Cabo Verde declarou que nos registos de óbitos fosse dito “sepultado no cemitério público desta cidade”.

Ainda hoje o Cemitério de Baixo é conhecido como cemitério dos brancos, talvez por causa das pedras de mármore - um quarto do cemitério era mármore branco-, ou porque era das pessoas com mais posse embora nascidas em Cabo Verde.

Outro enigma relacionado com o Cemitério de Baixo é que as campas estão viradas para a porta de entrada, exceto duas, que estão direcionadas para a igreja, a de Monteiro de Macedo e a do Padre Ambrósio Fonseca, que faleceu em 1923.

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