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"O nome da minha mãe era o da minha irmã": Nobel da Medicina de 2001 descobre a verdade em 2009 25 Setembro 2020

O geneticista Paul Maxime Nurse ganhou o Nobel da Medicina de 2001 por ter descoberto as moléculas proteicas do ciclo celular controladoras da divisão celular, mas a sua verdade genética foi um segredo que só desvendou à beira dos sessenta anos: a sua "irmã" era afinal a sua mãe.

As descobertas no campo da genética, que lhe valeram o Nobel da Medicina aos 42 anos, resultaram de uma vida inteira dedicada ao estudo. Mas a nível pessoal a maior descoberta da sua vida só aconteceu por causa do "chumbo" ao seu pedido de Green Card (autorização de residência) nos Estados Unidos.

Foi esse primeiro "chumbo" que acabou por o levar a fazer a maior descoberta da sua vida, como Nurse contou num programa. O relato foi publicado pelo diário londrino The Guardian, em 2017.

"Cresci em Londres nos anos Sessenta e Setenta. A minha família só tinha dinheiro para o essencial, vivíamos num T2, o meu pai era um operário, a minha mãe trabalhava nas limpezas. Os meus três irmãos deixaram a escola aos 15 anos para começar a trabalhar. Só eu não: passei todos os exames e cheguei à universidade com uma bolsa e obtive o meu doutoramento. Questionava-me: "Porque é que sou diferente de toda a minha família, os meus pais, os meus irmãos, a minha irmã?"

"Não me sentia muito confortável com a falta de respostas, mas não deixava de fazer a minha vida. Consegui ficar a trabalhar na universidade. Casei. Tive duas filhas, a Emily e a Sara. E tudo me corria bem".

Árvore genealógica: perdi o meu avô

"Chegou o dia em que os meus pais se reformaram e foram viver para a província. Íamos visitá-los muitas vezes. Uma dessas vezes a Sarah, de onze anos, tinha de fazer um trabalho da escola sobre a árvore genealógica".

«Eu disse-lhe: "Porque é que tu não perguntas aos avós?". Ela saiu a correr. Cinco minutos depois, vejo chegar a minha mãe, muito pálida. Ela disse-me: "A Sarah foi perguntar-me coisas da minha família, e eu tenho de te contar o que nunca te contei". Eu tinha trinta e poucos anos na altura. Ela disse-me: "Nasci ilegítima"».

"Ela nasceu em 1910, a mãe não era casada. Foi a avó que a criou na sua casa de pobre. A mãe dela casou-se com outro homem, que eu pensava que era o meu avô. Mas não era. O meu avô era um desconhecido. Perdi nesse momento o meu avô".

Mas não era tudo. «A mãe acrescentou: " É a mesma coisa com o teu pai, também", disse ela. E em duas frases perdi os meus dois avôs. É claro que foi um choque. Mas então pensei : "Deve ser daí que me vêm alguns genes exóticos, que depois fizeram uma recombinação e é por isso que sou um bocado diferente».

"Cheguei até a pensar que o meu nome do meio, Maxime, era do meu avô Maxime William John. Ele era um lavrador de Norfolk, mas o seu nome era assim mais tipo aristocrata russo-francês. E eu pus-me a imaginar que talvez tivesse tido um avô exótico, um aristocrata russo-francês, e que foi assim que me tornei o que sou".


Imigração nos Estados Unidos? Rejeitado!

"Tudo me parecia agora em ordem. Tornei-me professor de Oxford, catedrático. Deram-me o título de Sir, depois o prémio Nobel. Em 2003, o meu pai e a minha mãe tinham falecido, decidi ir para Nova Iorque, onde ia ser o presidente da Rockefeller University. Uns anos depois, decidi tentar obter a minha Green Card (autorização de residência). Uma carga de trabalhos com a papelada. Não, antes de saber ninguém tem ideia de como é complicado! Por fim, lá consegui arranjar tudo e entregar. Esperei alguns meses. Veio a resposta: rejeitado".

«Fiquei espantado: "Como pode isto ser? Sou um aristocrata (Sir), sou um prémio Nobel... e sou o presidente da universidade de Rockefeller". Acabei por descobrir que o problema era a documentação, em especial a minha certidão de nascimento. Fui ver e de facto era a versão abreviada sem o nome dos meus pais».

Paul Nurse teve de telefonar para Londres a pedir o certificado "na versão longa". E antes de ir de férias deixou instruções à sua secretária: "Quando chegar manda-o para aqueles parvos patetas da Imigração (Homeland Security)".

No regresso das férias, semanas depois, perguntou à secretária sobre o que lhe tinha incumbido e ela surpreendeu-o com a resposta: "Não. Não o enviei, porque ao olhar o certificado achei que deve haver engano com o nome da sua mãe".

«Eu disse: "É óbvio que eu não ia enganar-me quanto ao nome da minha mãe. Não sejas ridícula". Ela então estendeu-me o certificado, e todos começaram a olhar para mim. Olhei e vi o apelido Nurse, da minha mãe. Estava certo. Olhei de novo, o nome era Miriam Nurse, não o da minha mãe, mas da minha irmã».

«Pensei: Ó Céus, esses burocratas querem lixar-me! Mas olhei de novo e em vez do nome do meu pai estava um traço. Foi a minha mulher que me despertou: "Percebes o que isso significa, Paul?" Eu ainda não tinha percebido. Mas depois fiz as contas: a minha irmã, que também já tinha falecido, era 18 anos e um mês mais velha que eu. Os meus pais eram agora os meus avós».

Todos os que podiam confirmar a história tinham morrido. Paul acabou por decidir seguir a pista do lugar de nascimento registado no documento, a casa da tia-avó em Norwich. A irmã da avó tinha falecido também mas a filha, onze anos mais velha que Paul, ainda habitava a casa.

Paul telefonou-lhe: "Sabes dizer-me quem é afinal a minha mãe?"

A prima sabia tudo: "A tua irmã engravidou aos dezassete anos e mandaram-na sair de Londres para Norwich". A mãe de Miriam assumiu o neto como filho dela e do marido. Miriam voltou para Londres enquanto a mãe dela ficava em Norwich com o bebé. Muitos meses depois, a avó voltou para Londres com o seu "novo filho".

Paul passou a compreender o significado da foto do dia em que a mãe se casou e que "representou entregar o filho" aos pais dela: "A minha verdadeira mãe agarra a mão do marido e a minha. Ela deixava-me com os pais dela. Nunca contou ao marido, tudo ficou no maior segredo".

"Cresci feliz, um bocado mimado. A tragédia afinal era só da minha mãe. Ela teve três filhos e sempre teve quatro fotos de bebés na sua mesinha de cabeceira, o que eu só soube depois. Três eram os seus filhos legítimos e o quarto era eu, o seu filho ilegítimo".

Fontes: The Guardian/BBC/Wikipedia.

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