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O poder das estatísticas oficiais produzidas pelo sistema estatístico nacional para interpretar a realidade de Cabo Verde 19 Setembro 2019

O grande problema encontrado pela aplicação da análise estatística é que embora possa ser utilizada na produção de conhecimento nos mais variados ramos da ciência, o seu grau de previsão varia na mesma medida em que se deixam de lado variáveis (consideradas desprezíveis ou insignificantes) e que no conjunto acabam por afetar a veracidade dos dados e das inferências obtidas. Hoje, mais do que nunca, devido ao uso generalizado das Estatísticas pela economia e pelo conjunto das ciências sociais, uma desconfiança surge: qual a certeza de que as Estatísticas sejam capazes de apreender e interpretar corretamente a realidade?

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

O poder das estatísticas oficiais produzidas pelo sistema estatístico nacional para interpretar a realidade de Cabo Verde

O poder das estatísticas oficiais produzidas pelo sistema estatístico nacional para interpretar a realidade de Cabo Verde

A Estatística pode ser definida como um conjunto de técnicas matemáticas para o tratamento de dados numéricos. O seu caráter é universal, ou seja pode ser aplicada a qualquer ciência já que a sua preocupação está associada à obtenção e ao tratamento de dados. A Estatística dirige-se para o mundo, adequando a diversidade do real a uma série de inferências, com certa dose e previsão de acerto.

As Estatísticas são os resultados da observação. No entanto a observação é um processo de definição apriorístico do objeto, ou seja, o estaticista seleciona da realidade um certo recorte. Assim as Estatísticas apresentam-se como uma medida dos diferentes aspetos da realidade, incluindo a sua prévia seleção.

O grande problema encontrado pela aplicação da análise estatística é que embora possa ser utilizada na produção de conhecimento nos mais variados ramos da ciência, o seu grau de previsão varia na mesma medida em que se deixam de lado variáveis (consideradas desprezíveis ou insignificantes) e que no conjunto acabam por afetar a veracidade dos dados e das inferências obtidas. Hoje, mais do que nunca, devido ao uso generalizado das Estatísticas pela economia e pelo conjunto das ciências sociais, uma desconfiança surge: qual a certeza de que as Estatísticas sejam capazes de apreender e interpretar corretamente a realidade?

Atualmente vive-se um mundo de dados. Somos assaltados por sondagens de opinião pública, de escolhas políticas, de comportamento sexual, hábitos de consumo, indicadores de violência, etc. Cada vez mais o valor das coisas passa a ser quantificado por um pensamento aritmético, natural às Estatísticas. A ciência tornou-se uma grande máquina de produzir dados, tratando a realidade de diferentes formas e servindo-se deles para a tomada de decisões que vão, por sua vez, alterar estes mesmos dados. Desta forma acaba-se por esperar das Estatísticas uma certeza para todos os problemas com, pelo menos, algum grau de incerteza. O que não se percebe é que as Estatísticas podem reflectir uma realidade diferente a cada observador. E, afinal, os dados são os da realidade?

O problema tem início na escolha do tipo de análise e do processo de tratamento dos dados. Para estudar uma mesma realidade é possível que o pesquisador opte por uma análise linear, multilinear ou não linear. A opção feita recortará e organizará os dados da realidade de formas completamente distintas, chegando a conclusões díspares no final do processo. Sendo assim, cabe perguntar se o papel do pesquisador e das suas escolhas não seria suficientemente importante para alterar o quadro da realidade que se pretende descrever. Como resultado não homogéneo (ou seja, a partir do procedimento a conclusão pode ser alterada), cabe a questão: os dados obtidos expressam o que teria ocorrido na realidade?

Uma outra questão é sobre a compreensão destes resultados, nem sempre comum a todos os interlocutores. Isto significa que um mesmo resultado pode ser interpretado de maneiras completamente diferentes, quer o interlocutor seja um matemático, um economista, um sociólogo ou um leigo no assunto.

O importante é ficar claro que ao utilizar as Estatísticas está-se trabalhando com modelos. Define-se modelo como o relacionamento entre variáveis, na maioria das vezes escrito de forma matemática para geração ou análise de alternativas (processo decisório), processadas por métodos sistemáticos de solução (algoritmos).
Na impossibilidade de se utilizar todas as variáveis que compõem a realidade cabe ao estaticista escolher as que representem a realidade com fidelidade. A escolha das variáveis é que determina se o modelo é confiável ou não.

As Estatísticas não podem ser vistas como medidas abstratas, mas como observações reduzidas da realidade na forma de medidas, advindas de um processo de modelização. Um exemplo clássico: dois homens famintos recebem um frango assado. O primeiro come-o sozinho, e o segundo permanece faminto. O modelo matemático da média dirá que cada homem comeu meio frango mutilando a realidade, o que acaba por produzir uma descrença no modelo.

O problema da credibilidade é agravado pelas manipulações, reais ou presumíveis, que sofrem as Estatísticas. Quanto mais apressadamente se conclui uma Estatística, maior o seu grau de ineficácia e imprecisão, e maiores as suas armadilhas. Toda a propaganda e mesmo toda a demonstração consiste em fazer-se o que se quer dos factos. Quando a realidade observada depende da ação administrativa pública mais complicado o resultado, pois é necessário um Governo com forte moralidade para resistir à tentação de "maquilhar" dados, principalmente nos períodos eleitorais.
As descrições estatísticas concernentes aos modelos econométricos e das estruturas sociais dos diversos países podem ser apresentados sob formas de tabelas cruzadas, permitindo compará-las sob diferentes aspetos. Surgem assim os indicadores do Produto Nacional Bruto, do rendimento per capita, das taxas de inflação, das taxas de desemprego, etc. A elaboração dos índices segue as mesmas regras e diferem nos resultados obtidos. Desta forma, dá-se como estabelecido o facto de que os números medem a mesma coisa (realidade) e são passíveis de comparação. Mas, as culturas, as estruturas administrativas e o comportamento da população são específicos a cada país, e estão muito longe de serem idênticos (apesar dos esforços estatísticos para uniformização dos métodos, nomenclaturas e questionários). A harmonização geral destes métodos de registo, de codificação e de classificação, só é realizável parcialmente.

A comparação dos Sistemas Estatísticos modernos mostra duas tendências opostas: a universalização das técnicas e a singularidade dos universos observados. Na técnica de recolha e tratamento matemático dos dados, tem-se a universalidade. Quanto às realidades nacionais homogeneizar as Estatísticas implicaria igualar sistemas tributários, fiscais, critérios salariais, etc. (quando na verdade há um abismo de diferenças nas causas e comportamentos de cada um desses segmentos no tempo e no espaço). A harmonização institucional é praticamente inviável pois significaria ter que unificar completamente todos os aspetos da vida administrativa e social dos diferentes Estados.

Os utilizadores das Estatísticas usam-nas para gerirem o mundo social, para tomarem decisões, para repartir ou ajustar recursos aos fins destinados, etc. Portanto, as Estatísticas são referências, supostamente seguras, para orientar e legitimar as ações nos mais variados graus de decisão do Estado.

Porém, as diferenças entre as estruturas económicas e sociais dos países não impedem totalmente as comparações. Através das convenções de equivalência entre os factos observados nos diversos países pode-se proceder a uma análise estatística comparativa. Deve-se considerar que a comparação será tanto mais própria quanto mais extensa a série histórica dos dados a serem cotejados. Toda a Estatística baseia-se no postulado de uma estreita ligação entre o que é observável e o que se deseja conhecer; entre o indicador económico e a sua representação para o sistema. A operação estatística propriamente dita beneficia de meios técnicos cada vez mais poderosos que aumentam o seu potencial de tratamento e de difusão. A contrapartida é que crescem dificuldades, pois o fluxo do que é observado e a procura de indicadores altamente elaborados produzem fortes tensões no processo de elaboração da informação (o processo expande-se em termos numéricos e qualitativos). As pesquisas tradicionais já não são suficientes. São necessários outros métodos de pesquisa mais sofisticados para atender à exigência de maior complexidade. Por exemplo a formalização de itinerários que se baseia no princípio de equivalência sobre encaminhamentos (situações instáveis com o estabelecimento de um esquema teórico de interpretação). Com isto surgem novos problemas de tratamento dos dados e dependência de novas técnicas para a sua solução. Por exemplo: análise automática de conteúdo. No entanto é impossível que o progresso técnico por si só resolva os problemas de interpretação que afetam as Estatísticas. O problema aqui resvala para o campo teórico. É necessário que se aprofunde a conceptualização e os métodos de pesquisa sobre a relação de determinação entre os dados e a realidade, num quadro complexo em que as teorias oscilam entre cristalização e mudança constante.
As decisões, tanto públicas como privadas, tomadas em função de informações inadequadas geram tantos problemas no sistema de informações que podem levar ao caos (como por exemplo a fuga de dólares das aplicações em bolsas de valores "quebrando" economias emergentes).

É fácil fazer os dados "falarem", porém é difícil a sua validação. Algumas ″armadilhas″ são de natureza técnica quanto à apresentação dos resultados, outras referem-se à análise dos resultados e são resultado do próprio procedimento estatístico, tais como:
- Variações variáveis: não se deve considerar pequenas variações, pois não são significativas já que mesmo supondo uma tendência regular do fenómeno observado, perturbações aleatórias ou acidentais o afetam permanentemente. Uma previsão de taxa de juros para o próximo período que considere um aumento de 1% sobre a atual de 49% nada significa quando de um plano de estabilização ou mesmo uma crise de mercado internacional;
- Dessazonalização: quando se trabalha com dados mensais, nota-se dois tipos de dados: os brutos e os dessazonalizados, isto porque o número de fenómenos económicos sofre flutuações mais ou menos regulares (consumo de energia no inverno e no verão, preços de hortícolas, etc.). Com isto pode-se ter o dado bruto estimado pela técnica matemática, e o dado dessazonalizado, resultado de uma correção. Se são fenómenos socioeconómicos essas correções não podem ser perfeitas, pois este tipo de fenómeno raramente mantém uma periodicidade, e a periodicidade calculada com base em observações passadas pode evoluir para comportamento;
- Os gráficos "uma imagem vale por mil palavras": os gráficos prestam-se a muitas ″astúcias″ de apresentação, desde as mais grosseiras (como unidades dos eixos atenuando/realçando variações) até os mais sofisticados como alteração da escala (substituição dos ícones tradicionais/convencionais por outros não usuais), ou a utilização de programas computacionais que classificam diagramas diferentes para as mesmas aplicações, por exemplo, histogramas como diagramas de barras, o princípio dos primeiros é a equivalência de superfície e os segundos a equivalência de altura.
Várias são as ″armadilhas″, quase sempre eficazes para alterar a tomada de consciência de uma informação elementar que altera indelevelmente a informação; linguagem das variáveis quando se trabalha com muitas variáveis, é fácil produzir resultados com as modernas técnicas computacionais ou mesmo matemáticas, gera-se uma quantidade enorme de representações na forma de tabelas e gráficos.
Por possuírem, no máximo, três dimensões, a quantidade de gráficos capazes de abranger todas as possibilidades tomaria inviável a publicação, o que obriga o estaticista a escolher algumas entre elas (levando em conta ou a pertinência ou procura por variáveis mais procuradas ou comumente utilizadas). O fenómeno estudado é reduzido a um pequeno número de variáveis, deixando pelo caminho outras dimensões possíveis.

Os dados são reduzidos a uma informação básica quando passada por jornalistas, analistas, enfim pelos propagadores de informação. Como este material se destina, em geral, ao público não especializado, procura-se simplificar as tabelas e gráficos, e resumi-los para facilitar a análise. Este processo acaba gerando interpretações normalmente fantasiosas. A correlação e a causalidade são instrumentos teóricos que ajudam os profissionais, mas que utilizados de forma inexperiente produzem resultados distorcidos e perigosos como interpretação da realidade.

Para Adam Smith a principal característica das relações capitalistas é a do mercado auto-regulado, onde o capital procura a melhor rentabilidade, obedecendo à lei inexorável dos preços. Este mecanismo espontâneo é a mola do mercado livre. Neste aspeto, as Estatísticas seriam inúteis ou até mesmo prejudiciais.

Por outro lado, tomando-se o Estado intervencionista Keynesiano, as Estatísticas são um termómetro para a decisão no mercado planeado. O intervencionismo, apoiado nos conceitos estatísticos, gera uma visão de economia com forte tendência ideológica, a visão do planeador que tenta corrigir os rumos da economia.
Dando vida às grandezas estatísticas, dentro de uma realidade económica, gera-se uma pseudo realidade confundindo-se fenómenos reais com combinações teóricas. A estilização da realidade chega a tal grau de simplicidade que deixa de ser realidade e passa a ser um grande modelo, criando-se novos conceitos (procura, investimento, liquidez de uma economia, mercado de futuros, e muitos outros termos do ″economês″).

Suponhamos que um cidadão empreste 1000 Euros a 10% ao ano. A "taxa de juros nominal" é aquela que consta no contrato de empréstimo e que determina o pagamento de 100 Euros ao final de cada ano. Por outro lado, o acréscimo ao montante do empréstimo está associado a uma necessidade, ou seja, o que se pode comprar. Se durante o período do empréstimo os preços aumentam, o poder de compra diminui. Suponhamos que uma gravata de seda custe 50 Euros. Com o juro do empréstimo, o emprestador pode comprar duas gravatas. Após um ano, o preço da gravata de seda passou para 100 Euros, portanto o emprestador só poderá comprar uma gravata, Os juros nominais continuam os mesmos, o que mudou foi o seu poder de compra. Na realidade o empréstimo deixou de dar lucro, pois o poder de compra do montante emprestado só compra a metade do que comprava. Se com o montante sem os juros se compravam 20 gravatas, após 1 ano de empréstimo mais o juro só dará para comprar 11.

Na verdade a introdução do conceito taxa de inflação é uma distorção da realidade, pois essa taxa é estimada por um índice de preços, que é uma média ponderada de um certo número de preços de bens e serviços de consumo corrente. Ou seja, estamos diante de uma Estatística. Claro está que a taxa de inflação pode não ser a mesma que depauperou a capacidade de compra das gravatas, pois uma é uma relação de mercado, outra é uma construção estatística que pode ou não representar a oscilação daquele mercado (de gravatas). Mas é certo que dificilmente na economia moderna as relações de troca seriam possíveis sem o cálculo da inflação, exatamente pelo alto grau de interdependência, dinamismo e complexidade alcançados pelo capitalismo mundial.

O problema volta-se para a construção do modelo que representa a realidade no caso do cálculo da taxa de inflação. O melhor modelo será o que utilize variáveis pertinentes ao problema. No entanto o "problema" é polissémico (tem vários sentidos). Cada segmento da Sociedade observa e qualifica a questão inflacionária segundo as suas próprias necessidades ou interesses: para a dona de casa seriam os preços dos produtos da cesta básica; para o investidor seriam os preços dos títulos da dívida pública, das ações, dos imóveis. Pior quando equipas económicas se propõem determinar medidas de inflação mais eficazes através dos seus efeitos sem levar em conta as suas causas. Um exemplo: quando os bancos centrais emitem moeda e em seguida compram ″âncoras″ cambiais, de forma a ″enxugar″ os balanços. Olhando somente os dados, presume-se uma inflação mundial e uma tendência a aceitar os índices de preços e indicadores monetários. Tomam-se então decisões que, no mínimo, são aleatórias e, na pior hipótese, perniciosas.

Claro que a Política Económica necessita de balizas, ou seja, os indicadores estatísticos para tomar decisões e assumir posições frente ao mercado mas não pode ser esquecida a observação direta ou perigoso jogo do poder. Quando se avalia uma economia apenas pelo seu lado numérico, acaba-se somando bens de valoração qualitativa com outros apenas quantitativos (por ex., força trabalho com disponibilidade de energia elétrica).

O mercado expressa-se pelas reações às variações de índices estatísticos, assumindo um comportamento que ignora os fenómenos reais e dispensa análise mais apurada.
Teoricamente seriam os lugares onde a opinião que cada um tem do valor das diferentes opções se acham confrontadas mutuamente. No entanto, pode-se verificar o surgimento de oscilações quando dos comentários, negativos ou positivos, deste ou daquele burocrata (nacional ou internacional) sobre o mercado, introduzindo artificialismos onde deveria prevalecer um livre jogo de mercado. Keynes chamou ″convenção″ a este comportamento de mercado que nada tem a ver com a realidade ou falsidade da análise, mas a intervenção deliberada do Governo na arena económica. Quanto maior a especulação, mais se aplicam as tendências, e mais viciosa a utilização das Estatísticas.

As verdades da moderna visão científica do mundo, embora possam ser demonstradas em fórmulas matemáticas e comprovadas pela tecnologia, já não se prestam à expressão normal da fala e do raciocínio. A adoção de uma linguagem de símbolos matemáticos que, embora originalmente destinada a abreviar informações enunciadas, contém agora afirmações que de modo algum podem ser reconvertidas em palavras.

Os exemplos da Política Económica e dos mercados financeiros produzem as mesmas conclusões: as Estatísticas aparecem onde e quando se tem necessidade de uma decisão através de variáveis globais, onde o sistema tem que ser dirigido ou colocado ao serviço das tendências. Embora procurem expressar recortes da realidade, a verdade é que a análise estatística pode-se prestar a malabarismos e malversações, impossíveis de serem detetadas pelo público normal que por formação não possui o domínio técnico da linguagem matemática.

As Estatísticas são passíveis de críticas e devem ser analisadas com rigor, mais no plano social, pois neste refletem apenas uma visão das coisas e como tal deverão ser interpretadas sem o ″engessamento″ da opinião pública, resultante complexa de estratégias de comunicação colocadas em prática pelas minorias politicamente ativas, procurando dizer às classes mais numerosas, que são igualmente as menos armadas politicamente, o que lhes convém fazer.

Lisboa, 11 de Setembro de 2019
— -
*Estaticista Oficial Aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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