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PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HARMATÃO - V: No dia do seu aniversário, poeta e escritor José Luiz Tavares retoma meditação sobre Txonbon com Txda Boi e Serra Malagueta 10 Junho 2020

O poeta e escritor José Luiz Tavares prossegue, nesta edição, a série sobre « PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HARMATÃO - V» . No dia de hoje, em que celebra mais um aniversário, Tavares retoma a sua meditação sobre «TXONBON», passando pela Txada Boi, chegando até à emblemática Serra da Malagueta em Santiago de Cabo Verde. Confira mais detalhes a seguir.

PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HARMATÃO - V: No dia do seu aniversário, poeta e escritor José Luiz Tavares  retoma meditação sobre Txonbon com Txda Boi e Serra Malagueta

PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HARMATÃO - V

TXONBON

8.

Tu não dormes, mas a noite é dos fantasmas e feiticeiras. Tu não te aquietas, mas os que se movimentam livremente são salteadores e adúlteros, esses que não temem o escuro e as suas emboscadas, porque são lei nesses caminhos que a tua imaginação enche de rijas pelejas de valentes desavindos, mesmo se alguma traição faz das ribeiras a sua tenda, sob a lua minguante diluindo numa paz sangrenta o brilho sinistro das navalhas.

Fascinam-te as pegadas que não sabes a que destinos conduzem, a que porta, ponte ou precipício, pois desde o início foste livre através da imaginação; mas hoje assalta-te a urgência de lembrar porque crês que o que desaparece tem o selo da perenidade, e um só chamamento ouves agora vindo das funduras até aos batentes da noite, e vem de um mar de antigamente, com suas furnas e baixios, suas vagas e remoinhos, levando-te pelos estratos de silente escuridão aos terríficos assombros da pedreira, entre fileiras de virentes purgueiras, que diante de ti se transformam em gigantes a cavalo, mas são apenas caprichos da tua imaginação febril, uma comprida conta crescendo agora nos campos rasos da tua ausência, sob as estrelas que te pedem: volta, volta outra vez a ser menino.

Pára, ó tempo que estiolas a erva e as espinheiras, dá-me da árvore do suplício e do perdão. Dá-me do tempo sem julgamento, porque a distância outorga o estatuto de liberto. Não sintas frio, que o sorriso doce da mãe desce de novo sobre ti, ó meu menino.

Agora corres sob a cortina de chuva que lastra por lén di txada, kobon i ponta rubera, até ao mar do portinhu i dianti kasa, e interrogas-te como pode o infinito da vida caber em tão estreitas meadas, e se a sorte e a bem-aventurança não são apenas a perpetuação dos desejos quando a chuva canta e o coração se enche dessa porção de graça que mitiga o pranto e a vicissitude.

Estás de pé sobre um mês de viços, e és filho apenas, mesmo se a impiedade, com suas pavorosas palavras, te faz hóspede dessa tristeza alta que te não deixa escutar devidamente o prelúdio à maravilha — a água cantando na ribeira ressequida, peregrinando entre as fendas numa aleluia encrespada até à boca da lagoa. O que se perdeu vem então à memória como a tainha à rede de lakakan, como o milho assado na poeira dos valados e na penumbra dos funcos, à sombra das altas casuarinas de que não te despedirás porque estás em harmonia com os seus ramos e raízes, porque dormirão na casa do coração pelos dias todos da tua vida.

Dormem também as casas, dorme o povoado, dormem os teus medos. Mas o sal na boca diz-te que do mar vens. A poeira na pele, que vens do fundo da terra. Mas tu só precisas desse alto silêncio das coisas vivas para saberes quem sempre foste. Para com os cinco sentidos libertos atirares para longe a bengala das metáforas, e só, na estrita nudez da madrugada, escutares o canto das cagarras que se entanguecem na distância do mar.

Cem braços atiram-te à areia num despertar violento. Mas é por dentro do sonho que caminhas ainda, onde a verdade vem pelo viés das alusões, ou em enigmas lançados pelos enfarruscados deuses que te dizem: no princípio está o sonho, e o homem que pergunta pela potência e possibilidade, embora saiba que tudo é sombra de sombra, que o reino e o exílio são fantasmas que se afastam pela mão da tempestade, e nem tens força ou ardil para os segurares no limiar limpo onde entristeces, na abundância dos sinais que te dizem que tudo será derrota até ao fim.

9.

[TXADA BOI]

Subindo por tetu, atravessando kutelinhu, por entre árvores que plantaste no já longínquo ano de 86, ascendes às alturas de txada boi e, à entrada de porton, é fogu di pikena quem te acolhe ao som do velho rádio transístor, ofertando, com um gesto largo de mão, a terra perene à tua fome de peregrino e retornado, e tu nem precisas do engodo do rasto da verdura acometido pela brisa, porquanto crês nos sentidos que varrem as encostas de montona, toru brabu i monti kobada, ganxenba, portal i mutu bentu, e procuram, memória adentro, a longínqua revoada dos corvos, luxuriosos e negros nos consentidos céus da saudade.

Na negrura que te abraça, tudo é claridade para leres o mundo, para evocares os homens e uma terra que a imemorabilidade semeia pelo teu sangue adentro, esse mesmo que te assevera da pátria universal a que pertences, e é suficiente razão para não te fechares «nos armários da nacional vaidade ou pequenez», mas semeares por tantos arquipélagos a raiz que diz que nenhuma palavra morre, se vem de um coração que se apropria do rumor da morte para entender que tudo é claro, e nada do que se ergue ou prospera é alheio ao cuidado, mesmo se a vida é triste ou se deita no seu leito de pedras, entre as recrudescidas vozes que te dizem que morrer é apenas não perseverar.

10.

[SERRA DA MALAGUETA]

É aqui que pousamos para os pasmos e a solidão superveniente. As altas névoas, pela emoção que despertam, clarificam nossa altercação com o tempo, ou o lado mais fino da nossa angústia. Ficámos por momentos a escutar o alastrar da incandescência: tal fogo sobe pelos nossos pés para estimar que espessura a nossa; se nos estribam os esteios da grandeza perto dos precipícios da pequenez. Somos homens, diremos, encostando a cabeça à amplidão nascente, olhando txonbon i mangi estendidos na distância sem obstáculos, montona e monte graciosa pétreos e vigilantes, e nós sopesando se o que nos nutre são os favores duma época maligna com seus arautos perpétuos.

Terra, que a contínua visitação dos contratempos não enegreça o ventre do porvir, mas seja a alta estranheza o vinho que renega a amargura e atiça esse fervor que se domicilia infinitamente lá onde parcos os óbolos e nós tanto esperámos pelos seus sinais, mesmo se aturdidos até ao fim das lágrimas.

(Em verdade não nos colhe a surpresa quando à névoa fria nos ofertaram vagens e espigas, que nos dizem da fecundidade desta ilha onde o assomo dos ímpetos é o melhor auspício para a colheita que se aguarda).

O poeta e escritor

José Luiz Tavares (Balixi, Balitxa, Balixa, Palixi, Balik, Baldik) nasceu a 10 de junho de 1967 em Paraíso Apagado por um Trovão. Perdido entre a filosofia e a literatura, perscrutando a Agreste Matéria Mundo, em modo Desarmonia, cantou Lisbon Blues. Nessa Cabotagem & Ressaca aportou à Cidade do mais Antigo Nome, onde divisou o pétreo Coração de Lava. Dali, faltando-lhe a intrepidez corsária, intentou então simples Contrabando de Cinzas. Na escala seguinte sumariou tanta viagem-vida em Polaróides de Distintos Naufrágios. A Rua Antes do Céu, vendo Arder a Vida Inteira, soube-a Prólogo à Invenção do Dilúvio. Mas Com que Voz/Ku Ki Vos reportar as Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio? Tristezas? Estas: umas Rimas Reguilas que não chegaram a sair da Arca do Banzé, nem À Bolina ao Redor do Natal, para a filha quando infanta imaginando Os Secretos Acrobatas, dizendo Tás-me a Atrofiar ao pai ensaiando uma divertida Ópera do Bacano. Tais As Irrevogáveis Trevas, não sabe quando verão a luz dos escaparates. Afinca-se a atirar mais do que Uma Pedra Contra o Firmamento — arremessos de um rezinga com o dedo meio apontado às fuças do mundo, ainda este ano do senhor. Lá mais para a frente ficareis a saber que não há Nem um Consolo Tombando das Goteiras da Catástrofe, sobre os dias em que as musas discorreram imperturbáveis, mas com premência, sobre o tempo do contágio. Na língua-mãe assegurará que Ku Sinza di bu Nomi ta Skrebedu Iternidadi. Ao lugar di biku tornará nas intermitências do seu labor em estrangeiro chão, mas à Pátria Soletrada à Vista do Harmatão voltará em definitivo, um dia, para diante do mar e das montanhas arder de um outro modo. Entre causa e queda, sob o signo do grão zarolho, atirou-se à vida com quantas ganas lhe vaticinaram os mofinos fados. Sobrevive ao tempo do mundo sem estar conectado a nenhuma rede social, mas a paixão e a amizade são-lhe hardware.

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