OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

POESIA - NA VARANDA DE UM ESPAÇO FINITO 29 Mar�o 2009

"A varanda de um espaço finito" é o lugar ideal que escolheu o poeta Pedro Duarte para observar o percurso duma vida, marcada pela emigraçao na Guiné e Angola, onde escreveu a maior parte da sua obra literaria. Quando conheci o poeta Pedro Duarte ele ja’ ia entrar na década de 80 anos. Em certa medida fragilizado e a fazer dialise três vezes por semana. Por: Luiz Silva

POESIA   -  NA VARANDA DE UM ESPAÇO FINITO

Diria fragilizado mas com um discurso de pensamento do homem que viveu com intensidade a vida. Esta colectânea foi toda escrita na década de 90 e define todo o solilóquio, na intimidade das utopias vividas na juventude em Cabo Verde (25 anos), na Guiné-Bissau dos anos 50 a 70, e no Sul de Angola de 70 a 75. Na Varanda de um Espaço Finito compreende um conjunto de poemas que tentam vislumbrar o mundo eleito e transformado pela mediunidade de Amílcar Cabral e a universalidade da sua postura face ao drama do nosso tempo. Como escrevi no prefacio « a poética de Pedro Duarte não traduz só a vivencia de Cabo Verde e uma passagem pela Guiné como parturiente de burocracias do tempo, mas sim de alguém que penetrou a fundo nos silêncios e ausências que deram lugar à Luta consentida pelo sofrimento dos homens e pela violenta revolução ecológica. Foi com enorme prazer que aceitei o convite para prefaciar este livro de poesia onde os conhecimentos da historia africana, das correntes literárias do Mundo Negro e da sociologia de emigração , se revelam necessários.
Me socorri primeiramente duma citação do filosofo grego Horace para afirmar a relação entre o emigrante caboverdiano e a sua Terra-Mae : «O homem pode percorrer todos os mares, somente o céu muda, nunca a sua alma ». Na feliz expressão de Manuel Lopes, que de olhos fixos nesta baia, sonhou mundos que ninguém viu, ele é mais um escritor da diáspora que, fisicamente emigra, mas sem nunca se separar do chao das ilhas e dos seus problemas. No seu pensamento da sua aventura humana, atravessa toda a historia de Cabo Verde e a importância da emigração se revela fundamental para uma outra leitura da histórica politica, económica e cultural de Cabo Verde.

Também me socorri duma citação do grande poeta martiniquês e antilhano Aimé Césaire, um dos fundadores da Negritude ,em Paris no ano de 1935 , associado a Leopold Senghor et Léon Damas, autor do livro de poemas «Le Cahier d’un retour», que nos faz lembrar o primeiro livro de poemas de Jorge Barbosa, »Caderno dum Ilhéu», editado em Cabo Verde em 1935. Aimé Cesaire, também ilhéu das Antilhas, originário duma ilha também marcada pela escravatura e a mestiçagem, infuenciou muitos ensaístas africanos e em especial os caboverdianos Amilcar Cabral, Gabriel Mariano e tantos patrícios da minha geração. Mas enquanto que Aimé Césaire encontrava a liberdade de escrever e publicar as suas obras em França, no espaço colonial português, a censura funcionava com toda a sua violência e não dava espaços de liberdade aos seus escritores de irem ao fundo dos dramas dos respectivos países. A leitura das obras de Aimé Césaire continuam actuais e necessárias para a compreensão histórica dos fenómenos da libertação cultural do mundo africano, seja negro ou mestiço. Mas se o movimento da Negritude nascia em Paris em 1935, não era em Lisboa mas sim em São Vicente de Cabo Verde, com os limites impostos pela censura fascista, que nascia a revista Claridade, constituído por jovens conscientes da sua mestiçagem, que a defendiam orgulhosamente e com colaboração em revistas pan-africanistas nos anos vinte em Portugal onde faziam os estudos universitários, liderados por Baltasar Lopes da Silva, considerado o grito de Ipiranga da Independência cultural de Cabo Verde.

Pedro Duarte, nascido na cidade da Praia em 1924, foi contemporâneo no Liceu Gil Eanes do Mindelo, de Amílcar Cabral, Arnaldo França, Nuno de Miranda, Orlanda Amarilis e Teixeira de Sousa e fez parte da geração da revista Certeza, que mais tarde passou a integrar a revista Claridade, sob a influência dos mestres, Baltasar Lopes, António Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa e Félix Monteiro. O prédio do Liceu Gil Eanes, que estaria destinado a receber a primeira Universidade de Cabo Verde, onde se formou a élite cultural e politica caboverdiana, encontra-se num estado degradante como se através dele se pretendesse humilhar todas as figuras históricas de Cabo Verde e em especial do Mindelo, que por ali passaram.

Pedro Duarte começa a afirmar-se na literatura cabo-verdiana ao ganhar o primeiro prémio do concurso o Melhor Contista de 1952, organizado pela Imprensa Nacional de Cabo Verde. Foi também membro fundador, na Cidade da Praia, do grupo cultural e politico « O Semeador », inspirados no drama de Jean Barois de Roger Martin du Gard, do qual fizeram parte José Euclides Menezes, (Cakito), José Joaquim Martins da Fonseca, Filinto Martins, Antero Osorio, Franklim Lisboa Santos, Raul Barbosa, Edmundo Figueiredo, Alberto Almeida (Bétis) e outros mais. A seu respeito, Baltasar Lopes, um dos seus mestres, disse: « é um dos mais bissextos escritores caboverdianos que, todos poderiam aproveitar o adjectivo aprendiz de Carlos Drumond de Andrade, grande poeta da língua portuguesa, para exprimiremo peso da pedra tumular da vida de todos os dias, que vai carregando com uma grande paciência». A sua fidelidade à estética claridosa, tanto ao nível do estilo literário como na analise dos problemas culturais caboverdianos fazem dele um dos grandes continuadores da geração Claridosa.

Em 1996 publicou o romance Manduna de João Tienne, a saga duma família caboverdiana, que se dispersa pelas ilhas e o Mundo, conservando os laços familiares, com Cabo Verde como o ponto do universo, na linha dos grandes escritores da Claridade. Uma edição muito reduzida do Instituto Caboverdiano do Livro e mal distribuída, fez com que o livro ficasse pouco conhecido e em especial na emigração , pelo que se torna necessária a sua reedição . Se o mercado do livro em Cabo Verde é muito magro por varias razoes que não são totalmente de origem económica o facto se deve a ausência de esforços no sentido duma maior explicação da nossa literatura nas escolas, liceus, universidades, nos jornais, rádios e televisão. Deve-se reconhecer também ao facto de não existir da parte dos Municípios, uma politica cultural de promoção da literatura e dos escritores, uma maior rede de bibliotecas especialmente nas periferias da cidade, da ausência de um programa de apoio a criação de livrarias, que têm uma função importante na promoção da literatura e duma politica cultural destinada à emigração através das Associações e Embaixadas que deveriam ser verdadeiras vitrinas culturais de Cabo Verde. Vejamos qual seria a dimensão do Mercado livreiro caboverdiano se soubéssemos estender a sua distribuição nos países da emigração através das Embaixadas, de centros culturais, das agencias de viagens, das escolas, etc. O mal maior é que o Ministério de Cultura de Cabo Verde infelizmente ainda pensa que os emigrantes não têm direito à cultura. Mas sem cultura corremos o perigo de desaparecermos como caboverdianos no Mundo. Temos exigido dos Governo sucessivos, a criação de um projecto cultural para a emigração , com a abertura de Centros Culturais nos países de emigração , fazendo das Embaixadas verdadeiras vitrinas de Cabo Verde, com bibliotecas, postos de vendas de livros e jornais, etc.

Para os mais jovens urge acelerar os intercâmbios escolares, formação de animadores culturais para a emigração, simposiums, ciclos de conferencias anuais abordando tanto a económica como a cultura, e mais que possa continuar a afirmar a Nação Caboverdiana nas colónias da diáspora. A cultura é a pedra angular que liga Cabo Verde à sua diáspora em África, na Europa, no Brasil ou nos Estados Unidos. A edição de livros e discos não vem de hoje na emigração. Citemos a criação do jornal Alvorada no ano de 1901 por Eugénio Tavares, a criação da casa discos Morabeza na Holanda e a Voz de Cabo Verde em 1966, a criação do jornal Nôs Vida em Roterdão (1968-1975), a reedição do Folclore Caboverdiano de Pedro Monteiro Cardoso em Paris em 1983 e também o sucesso da Cesária Evora e outros artistas que fazem de Cabo Verde um pais conhecido em todo o Mundo. E’ de assinalar que foi anunciado a organização este ano de um simposium sobre a emigração e a cultura do qual esperamos um grande sucesso pois pela primeira vez os autores da emigração virão debater com os autores residentes em Cabo Verde.

Mas o poeta, que viveu exilado na Guiné e Angola, continua exilado por questões de saúde mas preso a Cabo Verde. Mas continua aprendendo e com ajuda do sofrimento a repensar Cabo Verde através da sua literatura. A terceira idade ou melhor idade para alguns, seria uma grande riqueza para Cabo Verde se fossemos capazes de ter um pensamento moderno sobre a terceira idade. Poderia constituir um sector importante no plano económico e cultural . Com uma politica global de terceira idade, os emigrantes reformados poderiam vir reforçar a nossa economia com as suas pensões de reforma mas também trazer a sua experiencia, o seu saber e a dignidade reconquistada nos anos de luta na emigração». A região de Bolonha, na Itália, vive exclusivamente das pensões da Suíça. O Governo e em especial os Municipios poderiam pensar este sector económico que pode ser importante para Cabo Verde.

O filósofo maliano Hampaté Ba dizia que «cada velho que morre é uma biblioteca que se queima». E pelo facto de sermos Mindelense e ser São Vicente uma das ilhas que melhor conhecemos, neste momento em que a crise financeira se impôe em todos os lados e que as promessas de enriquecimento pelo turismo trouxe simplesmente a corrupção na nossa sociedade nunca é demais fazer um apelo aos intelectuais, à sociedade civil de repensar a contribuição dos emigrantes não só na construção desta ilha como também na vida económica, social e cultural. Nunca é demais pensar numa politica municipal da emigração com pelouros para a emigração que se ocupam de melhor canalizar as economias dos emigrantes mas também com programas sociais e culturais destinados à sua emigração, apoiando-se num movimento associativo emigrante forte em Mindelo e com ramificações na diáspora.

Precisamos duma Casa de Emigrantes em São Vicente, onde todos os países da diáspora serão representados para promover o intercambio desportivo e cultural, organizar conferencias e debates, desenvolver as geminações , defender os direitos dos emigrantes, etc. Os mindelenses, que estão na base do movimento associativo na Europa, em África e nas Américas, os tais fundadores das comunidades que merecem ser reconhecidos pela Nação Caboverdiana, continuam a afirmar a sua caboverdianidade de braços abertos à todas as ilhas em vez deste regionalismo impregnado dum certo bairrismo nestas ilhas. Embora o papel importante da emigração ao nível económico e em especial da cultura o que faz de Cabo Verde uma referencia no Mundo, os problemas da emigração estão sendo ignorados na sociedade civil caboverdiana e em especial na sociedade mindelense, como se a emigração fosse qualquer coisa inventada lá fora. O mal nasceu nestas ilhas e vem dos primórdios do nascimento de Cabo Verde. Não se pode fazer da exclusão dos irmãos uma solução permanente resolver o problema demográfico de Cabo Verde se estamos todos prontos a receber a contribuição económica , social e cultural da emigração. Por isso nunca é demais fazer apelo a uma renovação do pensamento associativo capaz de ir ao fundo de todos os problemas caboverdianos dentro e fora do Arquipélago. Existe uma crise teórica sobre a evolução dos problemas da nossa emigração tanto a nível económico, social e cultural a ponto de em vez de Cabo Verde pensar a sua economia apoiando-se na sua emigração se deixa embalar pelas sereias do turismo que nunca fizeram sair da miséria nenhum pais do terceiro Mundo.

Os principais teóricos da emigração caboverdiana, Eugénio Tavares, Baltasar Lopes, Teixeira de Sousa, Amílcar Cabral, Gabriel Mariano, não encontraram seguidores capazes de faze trazer novas perspectivas à politica de emigração. Ha’ necessidade de formação de quadros associativos para as comunidades emigradas, com projectos pontuais , de forma a manter sempre viva a memoria desta cidade do Porto Grande que teve grandes figuras na literatura, na musica, no desporto, na aventura trágica e marítima, na emigração e na luta de libertação nacional na Historia de Cabo Verde. A revista Latitudes, editado em Paris e com a colaboração de varias figuras da diáspora lusófona, entre os quais Alfredo Margarido de cujo prefacio ao Folclore Caboverdiano de Pedro Monteiro Cardoso constitui uma referencia obrigatória no que concerne a histórica politica e cultural de Cabo Verde nos primeiros anos do século XX, com alguns números dedicados à Cabo Verde e a figuras como Baltasar Lopes, Jorge Barbosa, Felix Monteiro, Gabriel Mariano, Amilcar Cabral, publicou o seu n° 32 dedicado à emigração caboverdiana na Europa e também a Amilcar Cabral - braço armado da emigração caboverdiana, onde se pretende distinguir a importância da emigração na luta de libertação e a poesia de Pedro Duarte, com ilustrações de Tchalé Figueira. O livro está dividido em duas partes: o ciclo anterior onde evoca os vários aspectos históricos e culturais que conduziram Cabo Verde à Independência graças a uma visão mediúnica de Amílcar Cabral e termina com um poema actual sobre o futuro de Cabo Verde. Este tempo de ausência vai para a sua situação de bloqueio em Portugal, onde três vezes por semana é submetido à uma diálise mas que gostaria que num contraponto, símbolo da democracia, nasça uma grande solidariedade com voz de sonho//num tempo que já foi dentro de nós.

O poeta, sentado na varanda de um espaço finito, viaja pela sua vida marcada de grandes acontecimentos como o nascimento da revista Claridade, do Congresso de Bandung que reconhece a auto-determinação dos povos colonizados, a luta pela Independência de Cabo Verde e Guiné, a revolução do 25 de Abril que põe fim a ditadura e a guerra colonial, a Independência de Cabo Verde e Guiné e a sua evolução quem nem sempre foi do seu agrado: no poema « Discurso a modos de Nacia Gomes em meados do século dito do povo ele diz : “esta historia velha e recente Que fulgurou como astro Tem seu cunho épico No mar alto passado… Uma historia que cada um de no’s Em sua sensibilidade de ilhéu Pode vezes testemunhar No marulhar das ondas Das nossas praias nuas… O poeta começa assim por viajar pela nossa aventura trágica e marítima, primeiro exercício de libertação do homem caboverdiano, enfrentando os oceanos numa luta por Cabo Verde e que cada um de no’s teve um pai ou um irmão ou um amigo muito próximo que foi por Cabo Verde e não voltou. É uma historia velha de mais de duzentos anos que começou pelas Américas, onde o caboverdiano não trouxe somente dólares mas também valores morais e uma cultura da dignidade que lhe seria impossível conquistar nestas ilhas ou nas colónias sob o domínio colonial.

«Transportando até ânsias maiores

Que vivem

Em transcendências »

Essas ansias maiores que vão para além da cachupa faz da emigração um projecto que não se limita a ganhar dinheiro mas também a formar-se, a enobrecer-se e a regressar como um herói que foi enviado em missão ou melhor num combate para Cabo Verde pondo termo a ideia do paraíso na Terra Longe.. Essas ânsias maiores foi também o sonho de libertação do colonialismo e foi na emigração que nasceram todos os movimentos de libertação de Cabo Verde. A ideia da Nação nasceu certamente no exílio na América donde se estendeu a todas as colónias de emigração , como o Senegal e mais tarde na Europa o que faz de Cabo Verde uma nação pluricontinental. Esta pode ser a divida maior à emigração e aquém devia-se de há muito prestar este reconhecimento.
No poema “Na primeira varanda no espaço” diz : Dobram em mim os sinos De toda a grandeza vivida. E disse. Calo-me sonhando com o próprio sonho O centro das atenções e os núcleos varia : Um complexo fenómeno do ser é a mestiçagem Quando penetra E o espírito das coisas.

O poeta sente-se orgulhoso da sua encarnação. Triunfou no seu combate pela sua evolução espiritual e a independência da Guiné e Cabo Verde. E interroga essa visão complexa da mestiçagem, suas contradições , muitas vezes odiada e incompreendida tanto por brancos como por negros. Portanto, o espírito não tem cor e nem raça como afirma os racionalistas cristãos caboverdianos, que através dos sindicatos, das associações , foram os primeiros a denunciar o colonialismo. A visão da evolução do homem, em contradição ao marxismo, foi em casa do professor e racionalista cristão João Miranda, na Rua de Côco em São Vicente,através das leituras das obras de Luiz de Sousa que Amilcar Cabral enriqueceu a sua postura que o levou a proteger sempre os seus adversários e em especial os presos portugueses na guerra colonial. Amilcar Cabral é presidente astral da Casa Racionalista Cristã na Avenida da Holanda em São Vicente, onde deixa comunicações importantes, que deveriam ser publicadas como acontece em Paris com as edições kardecistas em paris em relação as comunicações dos grandes poetas como Victor Hugo e Louis Aragon. Na batalha de sangues surgem verdades exactas: Todos nós somos aquilo que somos E queremos ser ! … Eis a tentação da caboverdianidade !
A caboverdianidade não está no sangue, na cor ou na raça : é um comportamento, uma maneira simples e modesta de estar no mundo, num combate permanente para a criação dum homem novo, numa procura constante da universalidade. Esta caboverdianidade que é antes de tudo uma postura politica releva e cultural releva da evolução da nossa espiritualidade onde o tempo e as idades não contam. Em todas as idades o homem pode evoluir e participar nas lutas cívicas. No discurso de vozes longínquas no Reino de Atlante ele reafirma, vinte e oito anos depois do golpe de Estado de Nino Vieira, relembra os 25 anos na Guiné Bissau e vem reafirmar a sua adesão ao ideário da unidade Guiné-Cabo Verde, que começou por custar a vida a Amilcar Cabral: “A unidade Guiné/Cabo Verde É a cauda de um cometa Que vem do passado”.

E mesmo quando discordamos quando afirma que “Cabo Verde antes de ser o que é // Foi Guiné agarrado a rochas nuas » compreendemos o a sua paixão pela unidade Cabo Verde //Guiné somente concebível nas escolhas livres dos dois povos. A violência da morte de Nino Vieira foi a morte final do pensamento de Amilcar Cabral na Guiné Bissau, onde como caboverdiano nasceu e sonhou como os seus pais unir Cabo Verde à Guiné. A questão da unidade Guiné-Cabo Verde não pode ser interpretada em bases raciais ou culturais. A vontade dos caboverdianos em fazer a unidade com a Guiné é uma estratégia económica que desde o século XVII se preocupou os caboverdianos para se libertar das grandes secas e das mortandades. Em 1878 a Guiné foi separada de Cabo Verde e em vários momentos os caboverdianos contestaram essa separação. O historiador caboverdiano João Nobre de Oliveira no seu monumental livro, A Imprensa Caboverdiana, cita um artigo de Apolinário Mendes Varela no ano de 1914 no jornal “O futuro de Cabo Verde” defendendo o estreitamento das relações entre Cabo Verde , já que dela podia resultar “uma corrente migratória vantajosa para Cabo Verde”. O artigo vinha a propósito do incremento da emigração então registado. “Fugindo a uma possível crise alimentícia, houve aumento das saídas para a América do Norte, Brasil, Argentina, Moçamedes (Angola), Senegal e até, voluntariamente, para S.Tomé e Príncipe! Tudo servia desde que se escapasse da fome ». O jornal lamenta estas saídas em que “até as mulheres emigram” mas compreende-as, dado que a província não dava nada e a alternativa era a morte. E’ neste contexto que aparece a proposta de Apolinário Varela que afirma que o caboverdiano podia realizar-se na agricultura na colónia e diz mesmo que “o caboverdiano é o colono ideal para a Guiné”.

Esta tese foi também defendida por Juvenal Cabral, pai de Amilcar Cabral e ainda pelos caboverdianos da Guiné Bissau em 1934 na Exposição Colonial realizada no Porto. As relações entre portugueses e caboverdianos na Guiné, onde os caboverdianos tinham assumido posições de destaque no comércio, na agricultura e na administração publica, nunca foram as melhores a não ser quando as tribos da Guiné se levantavam contra a colonização portuguesa e que eram obrigados de associar para combater os nacionalistas guineenses. O mérito de Amilcar Cabral, formado nas escolas do Mindelo, inclusivé du Eden Park, foi de inverter essas alianças entre caboverdianos e portugueses e associar-se com os guineenses na luta libertação. Mas o poeta, não deixa de dizer que a unidade é complexa e mais complexa a desunidade. No poema Discurso Sentindo fundo a quentura do Sahara ele explica que o « grito inicial foi o da africanidade oceânica» que levou o mestiço «numa aventura séria // rebuscando autenticidade ». É nessa rebusca de identidade, face a negação dos seus direitos pela potencia colonial, que os mestiços se optam também em buscar as suas origens africanas e abandonar todas as ideias de adjacência advogadas por Adriano Duarte Silva e outros patrícios. Ele pensa a África sem fronteiras coloniais, liberta do Acordo de Berlim de 1885 que partilha a África e de cujas fronteiras coloniais ainda são responsáveis da divisão dos africanos. Ele quer reescrever a historia da África como já fizera N’krumah e também Cheik Anta Diop com o seu monumental Nations Nègres et Culture. E diz que é preciso que « se ama e vive África de facto e sentiras a unidade » Diz ainda no poema: O grito inicial foi o da africanidade oceanica que forjou uma grande mestiçagem. Esta busca da África pelos mestiços, essa inversão da historia por Amilcar Cabral, foi fundamental para a luta de libertação e a Independência de Cabo Verde. Mas diz que “a negritude quedou-se apos a Independência” e foi aos poucos gerando e determinou o fim da unidade “outras formas de alienação ”.

A morte das ideologias, ou melhor, a crise da ideologia da unidade africana sustentada por Nkrumah seria o responsável do insucesso de vários projectos de unidade africana e de vários golpes de Estado na África ocidental. A morte de Nino Vieira na Guiné Bissau, executado de forma selvagem, pelos seus correligionários, devia merecer uma grande reflexão para se tirar as lições necessárias para não apagar o sacrifício das lutas de libertação . No discurso de Atlante Pisando a Fimbria de Areias Movediças então refere-se aos grandes sonhos de outrora falhados devido a ambição dos políticos. Então diz: “Perdeu-se a consciência cabralina das coisas, Da grande utopia e o sentido da nossa mais funda interioridade. Chegou-se mesmo a adulterar a expressão cabralina dos maiores filhos da terra quando este se referia aos combatentes pela Independência de Cabo Verde. Esta expressão dos melhores filhos da terra não poderia ser aplicada somente àqueles que estiveram nas matas da Guiné Bissau. A injustiça desta expressão está no facto de não ser aplicada aos emigrantes, os grandes heróis na expressão de Baltasar Lopes, pelo sacrifício e o sofrimento por Cabo Verde e o seu povo.

No poema Carta aberta à « Praga do Continente » critica as novas gerações formadas em países onde a ideologia foi ignorada : diz que « É que as mesmas ambições / Assumem hoje Novas formas / Que enlouquecem consciências / Já na fase de desespero”.

E continua afirmando a sua desilusão face a apatia dos jovens pela politica, pela falta dum nacionalismo comprometido com as esperanças do povo. Mas será que os jovens sejam os principais responsáveis do seu desinteresse pela politica ? Quais foram os esforços ao nível do ensino para consciencializar os alunos, quais foram as obras postas à disposição das bibliotecas, qual foi a politica cultural através das rádios e televisão nacional ( um falhanço total) para informar e formar a consciência dos nossos jovens ? Se a juventude está alheia aos problemas de Cabo Verde, a culpa é dos governos sucessivos que têm dirigido a Nação e não os jovens que não se contentam com o populismo e o enriquecimento acelerado dos políticos graças às privatizações e a venda dos terrenos aos estrangeiros : São gerações passivas Que trocam a liberdade Por uma côdea de desespero Que antegozam o mel como se presente Sem contar com o fel do futuro.

Mas é no poema discurso enquanto sopram recentes ventos da historia que ele responsabiliza a mundialização dessa alienação da juventude e suas praticas em sentido único. Denuncia o liberalismo responsável pela ganância, aos lucros fáceis e a sede do poder. Mas se a mundialização se funciona em sentido único, se não sabemos também exigir a igualdade nos acordos económicos, culturais e políticos, a culpa é dos nossos políticos e não dos jovens: Esta praga ruim dos próximos tempos Tem passos de lava E no’s Que nada temos para « globalizar », E bom sabê-lo, Vamos globalizar consciências Pardas E semear desesperos Pois nunca veremos nem saberemos O que é aldeia global.

E como se viesse anunciar a crise financeira, a mais grave do capitalismo moderno, de cujos efeitos se reflecte na nossa economia nacional e também na vida dos nossos emigrantes ele interroga : « Será, porventura , que estamos marchando Por caminhos que levam Ao caos total ? E ainda afirma que : «novas formas de domínio surgem E as mais subtis se engendram E quase que voltamos à fase inicial Da divisão de terras e donos ».

O neo-colonialismo expressão politica do após Independência desapareceu para dar largas às teorias da mundialização . Uma nova dependência, que faz de muitos países africanos, cair da dependência total das ajudas das antigas potencias coloniais. Fala-se de países viáveis e não viáveis mas mais vale a miséria na dignidade do que a opulência na indignidade. A mundialização se processa no sentido único porque chegam a dominar a economia, as rádios e jornais e também a televisão dos países do terceiro mundo, quando pelo contrario não facilitam a comunicação no sentido inverso, expulsam como animais os trabalhadores clandestinos e existe uma grande falta de civismo no acolhimento dos emigrantes.. As televisões estrangeiras, circulando livremente, sem qualquer controlo, substituem os missionários, impõem os seus valores morais e culturais e transmitem uma imagem falsa da realidade dos paises de emigração o que convida os nacionais africanos a procurar esse eldorado, morrendo nos mares da Europa e da África, no deserto de Sahara e aqueles que conseguem atingir a Europa se descobrem nas suas cadeias antes de serem expulsos em piores condições de que partiram. E o poeta pergunta : «Sera’ que não temos outra escolha ? « Globalizar » África Significa desventrar-nos com subtilezas Indo às nossas profundezas O que, mais tarde Só permitira’ retornos dificeis»

No « Espontâneo exame de consciência perante Atlante confessa que : « em tudo o que dissemos Não existe sombra de recalcamento : Somos tao somente Contra a exploração disfarçada Do homem e da terra.
Somos pela sã solidariedade E pela dignidade De um povo » . Na evocação da consciência de consciências atormentadas diz que depois de tanto sangue derramado, vivendo o sonho da Liberdade com o andar dos tempos //essa liberdade//tornou-se incompleta. Na Segunda varanda no espaço um dos últimos poemas aconselha a meditar sobre o pais e diz que Nunca houve erupções De fora para dentro,
O que quer dizer que a nossa emigração somente tem servido o pais. Que nunca esteve em lutas fratricidas em prejuízo de Cabo Verde. O mal da crise é interna devido aos conflitos pessoais e partidários. Todos se calam por interesses obscuros porque o silencio agora tem um grande preço. Gritam de revolta os nossos irmãos da emigração, humilhados por ver os ideais das independência frustrados pela ganância de meia dúzia de indivíduos capazes de trair o pensamento de Amílcar Cabral :

É hora de silêncios eloquentes

De meditações e de alertas vários

Que nem todos os diabos estão ainda à sol.

Uma solidariedade Despida de vestes politicas E de chavões

Com Estado q.b. e muita cultura Navegando no « hardware » de todas as culturas

E afagando carinhosamente os “softwares”

De todas as minorias e povos sem chão.

Da sua varanda de um espaço finito, com 84 anos, reflexão filosófica, tentou vislumbrar o mundo eleito e transformado pela mediunidade de Amílcar Cabral e da Universalidade da sua postura humana face ao drama do nosso tempo. Mindelo, 26 de Fevereiro de 2009

Autor : Pedro Duarte

Ediçao : Latitudes – Paris 2008

Silva.luiz@wanadoo.fr

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Abonnement

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project