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“Padronização da Língua Cabo-verdiana tem de ser consensual, caso contrário será factor de divisão” – linguista 21 Fevereiro 2022

O linguista e professor universitário João Delgado da Cruz considerou hoje, em entrevista à Inforpress, no Mindelo, que a padronização da língua cabo-verdiana tem de ser consensual para não ser factor de divisão.

“Padronização da Língua Cabo-verdiana tem de ser consensual, caso contrário será factor de divisão” – linguista

João Delgado da Cruz falava a propósito do Dia Internacional da Língua Materna, declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e que se comemora hoje.

Segundo o professor das universidades de Cabo Verde (Uni-CV) e Jean Piaget de Cabo Verde, no Mindelo, é necessário a oficialização da língua cabo-verdiana mas, avançou, o problema é que a oficialização traz a questão da padronização que carece de estudos porque existem nove variantes em Cabo Verde.

“A Língua Cabo-verdiana é muito interessante para o estudo da variação porque são nove variantes, cada uma com a sua particularidade. Há condições que fizeram com que houvesse nove variantes, como o povoamento e questões históricas, o tempo do povoamento, contacto com a língua portuguesa, pessoas que estiveram envolvidos no povoamento de cada ilha, o contacto permanente e a viagem entre as ilhas entre outros”, explicou a mesma fonte, que é mestre em linguística geral e portuguesa pela Universidade do Porto (Portugal).

Conforme o linguista, neste momento, há muitos estudos, mas a maior parte dos que tem visto sobre a língua cabo-verdiana incidem sobre a variante de Santiago. Sustentou, que para que haja “uma oficialização efectiva e aceite pela população” há que se realizar estudos para se “conhecer as variantes e a espinha dorsal da língua cabo-verdiana”.

“Antes pensava-se que tínhamos uma variante do Barlavento e uma do Sotavento, mas são nove. O estudo do Pedro Cardoso, ex-professor meu, mostrou claramente que há mais aproximação da variante de São Nicolau à variante de Santiago do que à de São Vicente. Há também falta de estudos sobre a variante de Santo Antão, que é muito antiga, e a variante de São Vicente”, afirmou.

Por isso, no seu entender, escolher uma variante padrão não é o caminho correcto. Isto porque, lembrou, “a língua faz parte do psíquico e ninguém vai falar uma variante que não quer porque há questões sociolinguísticas e psicolinguísticas à volta disso”.

“Uma pessoa de Santo Antão nunca falará a variante do Maio. Falará se quiser, mas não por imposição”, exemplificou o professor.

Para a mesma fonte, “há mais estudos sobre a variante de Santiago por causa de questões da centralização administrativa e económica”. A título de exemplo, lembrou que São Vicente tem um polo da Uni-CV, que é uma universidade pública, “mas não tem peso e nem autonomia”.

“As pessoas podem dizer que não há estudos em São Vicente porque não querem, mas não é verdade, a maior parte das bolsas são para Santiago. Não é falta de querer, mas falta de oportunidades. Eu sou professor na Uni-CV há 16 anos e nunca tive incentivos para aprofundar os meus estudos”, frisou João Delgado da Cruz.

Além disso, explicou, em Santiago há outras universidades que têm cursos de mestrado em criatividade e “a maior parte das bolsas são para pessoas de Santiago”.

“O problema é a padronização da língua e, como já disse, a maior parte dos estudos estão na variante de Santiago. Qualquer aluno que vai fazer uma tese, os exemplos e os livros que encontra, são na maior parte na variante de Santiago. Isso condiciona muito e cria o mito de que querem nos impor essa variante, mas não é bem isso”.

No entanto, João Delgado da Cruz lembrou que, devido à migração para Santiago, construiu-se, na cidade da Praia, uma espécie de Coiné, que é uma mistura de todas as variantes. Neste sentido, acredita que “o futuro para a resolução do problema passa por aí, mas também faltam estudos concretos.”

Para o linguista, outro “aspecto importante” é um alfabeto para a escrita da língua cabo-verdiana, porque criou-se o Alfabeto Experimental, que é o Alupec, mas “ele também tem as suas insuficiências”.

“E há um problema. Agora, com a implementação da língua cabo-verdiana, a partir do 10º ano, qual alfabeto vamos escolher. O alfabeto etimológico ou o Alupec, que é um alfabeto mais fonológico”, questionou o professor, para quem “o problema maior será no 6º e 7º anos”, lembrando que “a criança será alfabetizada em dois alfabetos e línguas da mesma família, porque a língua cabo-verdiana é uma língua afro-latina com base lexical portuguesa”. A Semana com Inforpress

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