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Para quê poesia em tempos de calamidade 28 Abril 2020

Pode ser um intolerável privilégio escrever poesia por estes dias, mas nunca será mais intolerável que a dominação dos dias comuns e sua hábil, opressiva funcionalização, sua torpe mercantilização da vida. Mesmo em tempos de pânico, uma espécie de justificativa para a cessação de um pensamento de rebelião face aos dogmas instalados pela doxa comunicacional e civilizacional — poesia sempre.

Por: José Luiz Tavaras*

Para quê poesia em tempos de calamidade

Nada nos aparece, mormente a criação artística (logo, objecto não natural), a não ser sobre o fundo de algum mundo, sendo que mundo aqui deve ser entendido como uma vasta rede de elementos totalizados e retotalizados pela prática humana.
Tudo é contingente (para sermos leibnitzianos), o que nos leva à sua famosa pergunta: porque deveria existir algo e não simplesmente nada? Não é espantoso que, se nada tem realmente necessidade de existir, afinal existam tantas coisas?
Conviria dar uma nova mirada a «A Origem da Obra de Arte», de Heidegger, onde ele concebe aletheia (desocultação, desvelamento) como momento primordial da verdade (não instrumental), e que se dá em exclusivo na obra de arte (a fenomenologia dufrenniana diria objecto estético, em vez de obra de arte, formulação com a qual estou mais de acordo), pois é no seu desvelar-se que ela provoca essa abertura que possibilita a sua própria existência, a sua condição de possibilidade de ser.

O outro momento da verdade é já de segunda instância, adequação do pensamento à coisa que a obra de arte desvelou e trouxe ao esplendor do visível. Essa forma de pré-entendimento é que torna primacialmente subversivo o facto estético, pois, como diz Kant «para que alguma coisa seja bela devemos deixar o que vem ao nosso encontro da forma como é em si mesmo, vir a nós com a sua própria estrutura e valor, deixar ser o que vem ao nosso encontro, gratuitamente, no seu próprio modo de ser».

Isto apenas para rechaçar esse terrível, mortal verbo (vírus) «servir» [a pergunta a mim colocada era «Para que serve a poesia em tempos de calamidade?», mimando a célebre interrogação de holderlin «para quê poetas em tempos de indigência»] que destrói a possibilidade de qualquer diálogo satisfatório sem antes destruir (à martelada, diria Nietzsche) a pergunta. Isto para ficarmos apenas no campo metodológico, sem entrar em considerações de ordem epistemológicas, para as quais não tenho competência nem tempo. (Já o Rui Guilherme, autor da mais consistente tese sobre a poesia cabo-verdiana, tinha notado este calvário nas minhas entrevistas: ter que desconstruir as perguntas, ainda antes de ensaiar as respostas.)
[…]
Chamando Adorno à colação, diria que ele tem no seu próprio estilo uma espécie de solução processual para este dilema. A resposta de Adorno a este problema é uma série de ataques «guerrilheiros» sobre o inarticulável, pois o pensamento ou o discurso nunca coincidem com a manifestação ou o fenómeno, e esse é quase um abismo intransponível, mas que nele é superado (?) com uma espécie de regresso do pensamento ao corpo, emprestando-lhe um pouco da sensibilidade ou plenitude do corpo, pois o que o corpo assinala em primeiro lugar, para Adorno, não é o prazer, mas o sofrimento: «sob a sombra de Auschwitz, é na pura desgraça física de formas humanas no limiar das suas forças que o corpo uma vez mais se impõe ao mundo.»

Hoje, face a aquilo que se denominou chamar pandemia (não negando o facto emergente, ele é exponenciado sobretudo pela histeria comunicacional), retornamos àquilo que Adorno chama «momento somático da cognição», àquela dimensão irredutível que acompanha todos os nossos actos de consciência, mas que nunca é esgotado por eles.

Dando um salto para o domínio da estética adorniana, onde vou buscar a sustentação para a minha tentativa de resposta, diz-nos ele que é no pacto com o fracasso que se inicia a autenticidade de toda a arte (donde, ela nunca poderia «servir»), embora toda a obra de arte contenha um momento utópico, testemunhando a possibilidade do não-existente, colocando em suspenso uma existência empírica, e assim expressando um desejo inconsciente de mudar o mundo. É, assim, o único veículo de verdade (de consolo, diria eu) num tempo de pânico e incertezas incomensuráveis.

Donde, qualquer tentativa de nos fazer regressar a um princípio de unidade ou identidade que negue a (não ilusória) ilusão artística como suprema verdade (Nietzsche) é em si mesma terrorista.

Pode ser um intolerável privilégio escrever poesia por estes dias, mas nunca será mais intolerável que a dominação dos dias comuns e sua hábil, opressiva funcionalização, sua torpe mercantilização da vida. Mesmo em tempos de pânico, uma espécie de justificativa para a cessação de um pensamento de rebelião face aos dogmas instalados pela doxa comunicacional e civilizacional — poesia sempre.

Março 2020

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* Poeta e escritor

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