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“Passámos por aquela humilhação de carregar a mãe de novo para uma maca, tirar do caixão” — Notícia insólita da atualidade mediática no Brasil desperta memórias 16 Setembro 2019

A mão de Rosaura, ao ser tocada, suava. Além disso, o seu rosto permanecia corado, mesmo umas sete horas após a morte. Estaria a mãe de facto morta? Como se certifica que alguém morreu? A filha foi buscar um tensionómetro. A medição deu um 12/8 que fez aumentar a desconfiança.

 “Passámos por aquela humilhação de carregar a mãe de novo para uma maca, tirar do caixão” — Notícia insólita da atualidade mediática no Brasil desperta memórias

A notícia, que vem em vários meios de comunicação social do Brasil (Folha, G1, Recorde) , tem como fonte a família que velava o seu ente querido morto, em Bagé, município no estado sulista de Rio Grande (do Sul).

Jesus Alberto Chaves, filho da defunta Rosaura Vaz, contou à Globo que ficou surpreso com a morte da mãe após ter, no final da semana anterior, falado com ela sobre a sua presença no churrasco que ia reunir no sábado seguinte a família.

A idosa de 80 anos estava bem a última vez que falaram com ela no domingo, 18 de agosto, mas na terça veio a notícia de sua morte, que garantiram "apanhou todos de surpresa". Horas depois, a família reuniu-se no velório após o Instituto Médico Legal entregar o corpo.

Velaram o corpo cerca de oito horas, à espera do enterro marcado para as cinco da tarde. Foi então que alguns detalhes começaram a chamar a atenção dos familiares. A mão de Rosaura, ao ser tocada, suava. Além disso, o seu rosto permanecia corado, mesmo umas sete horas, oito horas, após o óbito declarado no IML.

Estaria a mãe de facto morta? A filha foi buscar um aparelho medidor de pulsação e tensão. A medição deu um 12 por 7 que fez aumentar a desconfiança de que ela podia não estar morta.

"Minha irmã trouxe o aparelho da pressão, e deu 12 por sete. Fez de novo a medição". Chamado o médico, "ele demorou 40 minutos para chegar. Olhou as pupilas, e não tinham dilatado. Não disse mais nada. Deu as costas e chamou a ambulância. Depois, levou para dentro do pronto-socorro".

"Passámos por aquela humilhação de carregar a mãe de novo para uma maca, tirar do caixão", lamentou o referido Jesus.

No hospital, a morte foi confirmada e no atestado de óbito entregue à família não se modificou a hora em que ocorreu a morte "em decorrência de uma parada respiratória, devido a um cisto cerebral".

A polícia civil de Bagé, que investiga o caso, aguarda o relatório necrópsico para saber qual foi a hora exata do óbito. Por enquanto no atestado consta a hora da morte às 0h24. O enterro "programado para as dezassete horas aconteceu às vinte e duas horas".

Morte certa, hora incerta

Desculpem, estou a falar de mortes. Ao “morte, que morbidez!”, lembre-se que esta é uma constante da vida.

Vida vivida, no real e no imaginário. Constante na infância da geração dos que adultos relatam, em viva voz ou no papel, episódios marcantes da história coletiva ou da vida individual. A ’morte da mãe’ nas mornas, “Fomi’47”, Vinhas da Ira, ‘Vidas Secas’...

‘Famintos’ – este já eternizado, mas o relato a seguir é memória de o ouvir contar a quem não leu a narrativa do santantonense Luís Romano, radicado no Brasil a maior parte da vida.

Os anos da fome na memória coletiva. No velho mundo e no novo. Neste país-arquipélago ou na ilha celta, in loco ou na diáspora.

A mulherzinha desacordada subiu de padiola a íngreme ladeira chamada Chã de Ilhéu ou Cemitério de São Miguel, esperava-a a cova aberta que era vala comum dos famintos.

Horas depois, os tarrafalenses viram-na a passar com um manoje de lenha que catara na lenta descida. O mais lenta possível para chegar tarde à povoação.

Para dar tempo aos tarefeiros de receber o seu quinhão do dia, pago na câmara municipal. Assim prometera aos padioleiros, no momento em que a iam atirar para a cova aberta.

Eles tinham-na recolhido de manhã cedo, lá onde caíra ’fraca de fraqueza’, atrás da igreja matriz. Um lugar onde estavam os famintos "autorizados a morrer".

Na capital, segundo memória in "Nos Tempos da Minha Infância", de Osvaldo Lopes da Silva era "nos becos que ladeiam, a norte e a sul, o Mercado Municipal", com hora marcada "entre as nove da noite e as seis da manhã", hora a que chegavam os gatos-pingados e os almeidas para limpar o beco.

Idade das certezas

Como se sabe que alguém está morto, como é o estado de quem acabou de morrer?

Até uma criança sabe", diz-se. E esta diz: “Não respira, não tem pulsação", a outra acrescenta: "O corpo esfria". Não têm qualquer dúvida a I. e o A. aos nove e onze anos, durante a peça de teatro em que o Bem vence o Mal. Na ponta da espada encenaram para ciência da prima R, de quatro anos, o que é a morte.

As respostas dos adultos que evitam circunlóquios, de cariz filosófico e ou médico, não diferem muito em conteúdo e até na forma.

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