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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Patone Lobo Sal: "Neste momento nós temos um turismo de baixo poder aquisitivo" 09 Mar�o 2021

O dono do Hotel Odjo d’Água, Patone Lobo, defende que Cabo Verde possui um turismo de baixo poder aquisitivo e que se deve aproveitar este momento para pensar em resolver os problemas sociais do país. Em entrevista ao Asemanaonline, o empresário afirma que para melhorar a qualidade do turismo em Cabo Verde e trair os turistas com alto poder de compra, é preciso investir e criar condições para tal. “Em primeiro lugar, precisamos de um posto de saúde que tenha médico para atender as pessoas. É preciso, por outro lado, reforçar a segurança. Em terceiro lugar, as ruas têm que estar bem iluminadas, devem estar limpas e as estradas têm que estar em condições”, enumurou. Acompanhe a entrevista, que se segue, com este empresário cabo-verdiano e dono do emblemático Hotel Odjo d’Água em Santa Maria, na ilha do Sal.

Entrevista conduzida por Luciana da Cruz/ Redação

Patone Lobo Sal:

Asemana: Como o Hotel Odjo d’Água está a lidar com a crise provocada pela pandemia de Covid-19?

Patone Lobo Com a falta de clientes a situação está difícil. Na maioria dos países emissores de turistas os números de infetados voltaram a aumentar. Por isso, não deixam ninguém sair e entrar. Há alguns voos que veem para o Sal, mas isto não resolve o problema. Antes tínhamos cinco voos por dia e agora só uma por semana, portanto isso não justifica. O Governo criou condições que nos permitiu sobreviver até agora, mas, mesmo assim a situação está cada vez mais complicada, porque nós não temos rendimento e temos que pagar 25% do salário todos os meses dos funcionários. Neste momento, gastamos uma média mensal de 5 mil contos para pagar salários, energia, água, sem haver lucro.

Quanto tempo acredita que o Hotel Odjo d’Água pode aguentar se esta crise continuar?

- O Hotel Odjo d’Água consegue aguentar-se sem ir à falência até o mês de outubro, se até lá, as coisas não tiverem normalizadas não terá nada para ninguém. Agora, se o Governo resolver pagar 100% do salário das pessoas que estão em regime lay-off as coisas serão diferentes. Acredito que o Governo deve fazer o máximo que pode para que as empresas não decretem falência, porque senão todos os empregados vão ficar na miséria. Tenho 120 empregados e esses podem ficar sem emprego e a passar fome.

Sem Lay-off pode acontecer falência de empresas e despedimento em massa

Acredita que as coisas possam piorar depois do regime lay-off terminar, poderá haver despedimento coletivo de trabalhadores?

- Acredito que sim! Se o regime lay-off terminar muitas pessoas vão ficar sem emprego porque sem rendimento não há dinheiro para pagar os funcionários. Não devemos esquecer que as empresas ligadas ao turismo já estão há muito tempo sem lucro.

No seu ponto de vista o que o Governo deve fazer para que o despedimento coletivo não aconteça?

- Têm que arranjar uma solução! O Governo pode emprestar dinheiro, por exemplo, para cobrir estas despesas. O que não podem fazer é deixar a economia do país se afundar porque senão as pessoas vão passar fome e a criminalidade pode até aumentar.

Acredita que o turismo interno poderia ser uma solução?

- Não, porque somos um país pequeno, com cerca de 500 mil habitantes e desses habitantes são poucas as pessoas que costumam viajar. Sem contar que o rendimento é baixo e o custo das passagens de avião são muito elevados. Às vezes podemos encontrar passagens de avião percurso Lisboa-Sal com um custo muito mais baixo do que Praia-Sal, por exemplo, e via marítima nós temos barcos que não servem para nada.

Além de Sal e Boa Vista, as outras ilhas têm potencialidades para o turismo?

- Todas as ilhas têm potencialidades, porém é preciso investir e criar condições para que os empresários desejem criar um negócio na ilha. Repare, se o Governo não fazer nada para melhorar a qualidade de vida no país ninguém vai querer investir, por exemplo, em Santo Antão, porque as pessoas não querem arriscar em criar hotéis num lugar que não sabem se os turistas querem ir. Em Santo Antão não há estradas em condições, não tem um posto de saúde em condições e nem tem um aeroporto, um problema que é encontrado em quase todas as ilhas de Cabo Verde. A ilha do Maio tem praias belíssimas, mas é preciso investir nela.

Como avalia o turismo em Cabo Verde?

- Acredito que neste momento nós temos um turismo de baixo poder aquisitivo. Os turistas que nós recebemos na ilha do Sal não são os turistas que têm um grande poder de compra. Sendo assim, o Governo deveria investir mais na ilha para que tenhamos condições para receber os turistas "milionários", porque eles gastam mais. Quem tem dinheiro sempre procura um lugar de alta qualidade.

Mais infraestuturas para turismo de qualidade e retoma das atividades

O que é preciso melhorar na ilha do Sal para que haja um turismo de qualidade?

- Em primeiro lugar, precisamos de um posto de saúde que tenha médico para atender as pessoas. É verdade que nós temos um belíssimo centro de saúde que foi inaugurado à pouco tempo em Santa Maria, mas não tem médico. Nós não precisamos de algo só por ser bonito, mas que funciona e que tenha qualidade para que os nossos turistas, que são normalmente da terceira idade, se sentem confiantes e seguros. Ainda é preciso reforçar a segurança; As ruas têm que estar bem iluminadas, devem estar limpas; As estradas têm que estar em condições; Temos que ter uma população com educação;É preciso criar pontos de interesse turístico e ter uma maior organização com os cães que fazem necessidades nas ruas e nas praias. A estrada que liga Espargos-Santa Maria é horrível. Para Buracona também. Lembro que a câmara Municipal anunciou a assinatura de um contrato entre as Estradas de Cabo Verde e o Serviço de Manutenção Corrente de Estradas (SEMAC), o qual garantia a manutenção contínua das estradas nacionais do Sal durante dois anos, mas ainda nada.

O que Cabo Verde deve começar a fazer para a retoma, de uma forma segura, de um sector fulcral para a economia cabo-verdiana, o turismo?

- A primeira e a mais importante medida é garantir a segurança sanitária e a vacinação da população, principalmente para aqueles que trabalham em áreas ligadas ao turismo porque senão nenhum turista sairá do seu país, em que todos já foram vacinados, para se aventurar num lugar que não é seguro. Se isso não se fizer a economia continuará a sofrer. Lembro que o Governo dissera no parlamento que nós seriamos o primeiro país de África a receber as vacinas, mas há muitos países que já receberam e nós ainda estamos à espera.

Em relação aos projetos, tem algum em mente em tempos de covid-19?

- O Governo Americano abriu um concurso com um prémio de 20 mil dólares e eu pretendo concorrer. Se vencer tenciono, com o prémio, melhorar a capacidade de energias renováveis do hotel, criar uma sala de exercícios e outra para reuniões.

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