OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Pátria soletrada à vista do Harmatão -II 03 Dezembro 2019

Diante de galopantes evidências falam em indícios localizados!? Quantos mortos mais, quantas ofensas mais à vida, para que nos digam que um terrivel veneno empeçonha o nosso devir comunitário, devora os nossos campos, vilas e cidades, atemoriza os seus indefesos e sofridos habitantes? Não é, em comunidade, a segurança de uns o dever de todos, e a ofensa à liberdade de um uma ameaça a todos? Alguém se surpreenderá se um dia desses aparecerem esquadrões de morte, ou outras formas reprováveis de vigilantismo, porque se tornou humanamente insuportável a violência nos cantos e recantos do nosso diminuto país? Que nos livre deus de tal (embora deus nunca olhe para os que estão por baixo, ou pouco lhes acode), mas onde o estado e as instuições legítimas falham…

Por: José Luiz Tavares*

Pátria soletrada à vista do Harmatão -II

PÁTRIA SOLETRADA À VISTA DO HARMATÃO
[MEDITAÇÕES * VIAGENS * RELATOS]

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MEDITAÇÃO NO CORAÇÃO DE LAVA

E nem porque viemos de longe, ou peregrinamos pela solidão mais alta, nos afastamos das coisas desta terra, palpamos então os dias para lermos nas faldas da vertigem os signos do insólito, para sopesarmos com que pedras erguermos a nossa morada, a que sombra nos acolhermos, ou onde acender a resina que afasta o enxame maldito ou nos dá fôlego para a faina do testemunho. E constatamos, sem pasmo, pois há muito víramos os sinais, que aos enxovalhos contra a vida os escritores do meu país respondem com um pesadíssimo silêncio. À dignidade da palavra firme, na ocasião exacta, preferem as sobras da festa, engendrada por sabidos alfaiates, sob as vestes da caduca e esfarrapada morabeza. Não é pelo sonho que vão, atravessando o mar de pedras, repisando os escolhos da existência, carregando os humanos anseios na limpidez irredutível de um verbo que não transige, mas compromete-se com a imersão no mundo da vida, heróico diante das dominações, estóico mesmo quando face à adversidade e a perplexidade imemoriais, que sempre pulsam no profundo coração da alegria.

Não podemos ceder às formas de terror ou de exclusão que nos querem impor. Contra os muros que se erguem e às conspurcações sem rosto – sempre o poder límpido da palavra.

Quando se corroeram os laços solidários que nos sustiam enquanto comunidade? Aqueles que se aplicam a romper ou a atraiçoar esses laços, e perderam o sentido da polis e da civitas, terão que sempre confrontar-se, hoje e no futuro, com a nossa pulsão para a vida, o ímpeto da nossa vivacidade, o nosso desígnio de inteireza.

Vozes há que se levantam e bradam contra um hipotético, mas inexistente (por ora) perigo de populismo em Cabo Verde. O escrutínio sério e ponderado, ainda que cerrado, e, sobretudo, se incisivo, aos negócios e instituições da república não deve nunca ser metido no rol indistinto das erupções populistas. O falhanço das instituições, a desatenção aos sinais, as políticas desastradas e clientelares, marginalizadoras ou excludentes, é que constituem o caldo onde se cozem os populismos e outros nefastos ismos.

Diante de galopantes evidências falam em indícios localizados!? Quantos mortos mais, quantas ofensas mais à vida, para que nos digam que um terrivel veneno empeçonha o nosso devir comunitário, devora os nossos campos, vilas e cidades, atemoriza os seus indefesos e sofridos habitantes? Não é, em comunidade, a segurança de uns o dever de todos, e a ofensa à liberdade de um uma ameaça a todos? Alguém se surpreenderá se um dia desses aparecerem esquadrões de morte, ou outras formas reprováveis de vigilantismo, porque se tornou humanamente insuportável a violência nos cantos e recantos do nosso diminuto país? Que nos livre deus de tal (embora deus nunca olhe para os que estão por baixo, ou pouco lhes acode), mas onde o estado e as instuições legítimas falham…

Torno por estes dias à lembrança da leitura de Leviatã, de Thomas Hobbes, e oiço o meu antigo professor de filosofia política dizer que, em comunidade, o indivíduo cede, em contrato, parte da sua liberdade ao (poder) soberano, mas este deve providenciar a sua segurança para que possa viver a sua liberdade, e onde o soberano falha ou exorbita deve ele, justamente, rebelar-se. Dizer-se que Hobbes fincou os alicerces da monarquia absoluta, pode ser verdade, mas não é menos verdade que embutiu (involuntária ou disfarçadamente?) uma teoria da revolução no coração do seu edifício conceptual.

EU NÃO DANÇO O FANDANGO MORABI
(Declaração de rebelião ou a escrita como ética e inteireza)

É na Chã, no regresso de um périplo com Danilo Fontes, Don Danillon, que me levara a ver o panorama dos novos assentamentos e as casas de hóspedes que nascem como leiras, dentre elas o impressivo kitsch de José Doce, numa artesania inventiva, que tem o seu contraponto na escadaria metálica que nos leva ao terraço de vistas largas, mesmo se também nos atiça o lumbago percuciente, que me deparo com a fajuta e deslustrada Morabeza – festa do livro. Soube-a na Casa Mariza (essa laboriosa Mariza, que encontrámos no aeroporto da Praia, na nossa viagem de ida para o Fogo, cujas perpécias narraremos mais adiante, e que na nossa primeira ida à Chã nos acolhera na antiga casa de Bangaeira, agora soterrada pela lava, e a quem oferecemos também um exemplar de Coração de Lava), em comes e bebes festivaleiros, ainda que ferreamente pastoreados pelos guardiões da companhia, sem a adesão de uma única alma destas chãs, coisa mais sem vida, esgalhada a três pancadas pelos comilões da book company (ex-boktaillors), num mamanço que tem o livro e a literatura como engodo e pretexto, um consentido logro obsceno e desavergonhado, que tem nalguns escritores cabo-verdianos risonhos cúmplices, por via das migalhas promocionais com que lhes untam o ego, a uns, e a outros as obras de má factura e nula consistência.

Já a vira — à festa — ao longe, em S. Filipe (premonitoriamente no dia dos fiéis defuntos, à entrada da Casa das Bandeiras, onde fui depois, desaforada mas descontraidamente, cumprimentar o Henrique Pires), e ao estratega-mor da companhia, enquanto ao mormaço de um fim de tarde de novembro beberricava eu uma fresquíssima cerveja no bar Fundonzinho, ombreando firme com o jardim sobranceiro ao mar, onde saltitavam catraios sob os auspícios da puerilidade (esse vínculo que aumenta a nossa noção e consciência da mortalidade) e donde tentava divisar em meio à bruma que por tais dias se fizera densa cerração, a ilha Brava, terra do meu pai, meu programado e ansiado destino, que os humores de Neptuno, mais uma vez, me impediram de cumprir.

Foi bonito de ver o tal bookman, ao deparar-se-me, fugir em direcção contrária, qual se tivesse visto o próprio demo no lusco-fusco dessa negridão que envolve casas e seres e tudo tapa num anúncio de noite cerrada sobre a terra devastada. Apeteceu-me gritar-lhe «não fujais, sombra; eu só sou perigoso, mortalmente perigoso, com as palavras. Para o resto não tenho engenho nem arte, e muito menos ainda disposição de espírito». Tal fuga a um enfrentamento, ainda que apenas visual, talvez se devesse a um módico de pejo, pois eu sei que eles pensam que talvez eu saiba.

Um houve que se atreveu a um sonoro «boa tarde, José Luiz Tavares», a que apenas a minha boa disposição de momento, propiciada pelos ares altos com seu fulgor de revelação, impediu de ser correspondido com meia dúzia de palavrões do meu especioso arsenal. Ou talvez porque temesse manchar tão soberana e primeva paisagem, que tece a felicidade do que chega carregado de um lastro irrepreensível, que é o paradigma que impomos diante dos que conspurcam a sua oficina com um minério manchado, ou cedem o seu ouvido ao alarido da vaidade que soterra o silencioso devir da intemporalidade.

Não sei como é que gente com altíssimas responsabilidades culturais (sei que sabem o que se passa, porque em privado o comentam comigo) compactua com essa rataria apostada na rapina, esse festim assente num modelo predatório, envolto numa liturgia banal e bacoca, incapaz de trazer mais valias culturais a Cabo Verde, à sua literatura e seus escritores, àqueles poucos que importam. (Aos meninos e meninas ainda sem obra e sem percurso para pisarem certos palcos, percebo-lhes a ânsia e o deslumbramento, mas afianço-lhes que é na clandestinidade do mundo e sua férrea ditadura, no labor extenuado, longe das palmas e aclamações ocas, que melhor uma obra se torna este índice do assombro por que se peregrina uma vida inteira, sem a pressa dos que se querem flor na lapela desses que, calculada e malignamente, investem na asfixia e na morte de toda a arte libertadora, essa que se não quer mero sucedâneo ou sequela amolecida que sequer agita os espantalhos plantados na paisagem).

E porque mesmo no meio da mais negra cizânia há raízes e caules que explodem num labor de vida, em busca da prometida inteireza, sai-me ao caminho a grande poetisa são-tomense, Conceição Lima, que me dá dois calorosos abraços e pergunta-me «tu estás nisto»? Ao que lhe respondo: «isto é uma coisa manhenta, se não mesmo corrupta». E à face da inquebrantável inteireza das chãs, em alta voz, para que todos em redor pudessem escutar, diz-me: «tu não és um grande poeta cabo-verdiano, africano, ou da língua portuguesa. És um enorme poeta em qualquer parte do mundo», e fala-me do interesse duma editora americana em traduzir e publicar a minha poesia.

Não me envaideço com tais manifestações ou interesses, porque tenho bem consciência do valor do meu trabalho. (Talvez demasiada, numa terra onde, manhosamente, todos pregam a sua encenada humildade, do nascer ao fim do mundo, agora e para todo o sempre, amém). Mas dito assim, em fiável testemunho, no meio de tais necrófagas aves, era como um mapa de tesouro que me depositassem nas mãos e me ensinasse que a grandeza não se desprende, maduríssima, lá onde uma ética de vida e de escrita não tem chão, mas faz-se esse rosto que nos acolhe sempre que uma clara inteireza, mesmo arrastando o fedor e a lama do mundo, nos banha como inamovível desígnio, ou se instala tal brasa ou paixão à cabeceira da obra e da vida.

Rinchoa, Novembro de 2019.
— -

*José Luiz Tavares é poeta e tradutor. Publicou treze livros entre 2003 e 2019. Recebeu inúmeros prémios, sendo o escritor mais premiado de sempre do seu país. Os seus poemas estão traduzidos para inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, neerlandês, mandarim, russo, letão, finlandês, letão e catalão.

Pátria Soletrada à Vista do Harmatão é um projecto de viagens a Cabo Verde e que há-de resultar num livro onde serão abordados aspectos paisagístico-patrimoniais, sócio-históricos, culturais, antropológicos e políticos. É um projecto que implica deslocações e permanências nas várias ilhas, e não só, mas também aos locais onde haja comunidades cabo-verdianas relevantes. Fa-lo-emos por etapas, à nossa medida, consoante a nossa disponibilidade financeira e de deslocação. Ou num período seguido de seis meses, se tivermos o apoio ou o patrocínio de entidades com responsabilidades ou interesse na matéria.

Por razões de actualidade, as partes 1,2 e 3 foram deslocadas da sequência natural ou ideal, das partes já escritas, referentes ao nosso amado Tarrafal e alguns lugares da ilha do Fogo.

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