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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Polémica com anúncio de passagem do ex-centro de São Jorginho para Igreja: Agricultores e famílias que ocupam instalações e terras abandonadas lançam SOS, pedindo que o estado deve proteger os seus interesses 30 Janeiro 2022

Mais de 12 agricultores e criadores de gado e 10 famílias que ocuparam, há cerca de seis anos, algumas parcelas de terra e instalações do antigo centro de formação profissional de São Jorginho, em Santiago, abandonadas desde 2001 pelo Estado, procuraram o Asemanaonline para manifestarem a sua inquietação face ao anúncio do governo de querer ceder aquele sítio à igreja Católica para ali montar uma ala para ajudar mulheres usuárias de drogas e álcool, no âmbito do projeto Fazenda da Esperança. Por isso, lançam um SOS, pedindo uma clarificação urgente da situação, por considerarem que fizerem alguns investimentos no local e tiram das terras rendimentos para o sustenta da família, driblando assim o desemprego e a pobreza extrema. «Daqui não vamos sair», avisam os ouvidos por este primeiro diário cabo-verdiano em linha.

Polémica com anúncio de passagem do ex-centro de São Jorginho para Igreja: Agricultores e famílias que ocupam instalações e terras abandonadas lançam SOS, pedindo que o estado deve proteger os seus interesses

Conforme apurou a reportagem deste jornal no terreno, o complexo de São Jorginho foi abandonado, desde 2001 pelo estado – um destacamento das Forças Armadas foi a última instituição que há cerca de seis anos esteve no local. Como consequência, os espaços foram assaltados por vândalos, que roubaram portas, janelas e outros equipamentos, deixando a maioria das instalações totalmente danificadas.

Conhecendo as potencialidades desse vale, pelo menos 10 familiares fixaram, há cerca de seis anos, residência nas instalações abandonadas e mais de 12 agricultores iniciaram o cultivo das terras. Realizaram alguns investimentos, nomeadamente na limpeza da galeria que estava entupida para extrair água e na remoção e no cultivo das parcelas, duplicando neste momento a área irrigada.

Conforme cada época do ano, produzem (ver fotos nesta peça) de tudo um pouco: couve, repolho, tomate, cebola, pimentão, pepino, batata, mandioca, abóbora, entre outros legumes e hortaliças. Isto sem contar com a cana sacarina e introdução e rega de fruteiras, nomeadamente mangueira, papapeira e coqueiro, bem como a criação de animais – vaca, porco, cabra, galinhas, etc.

A fazer fé nas informações recolhidas, durante a preparação do campo de cultivo, a sementeira e colheita dos produtos, os agricultores referidos garantem vários postos de trabalho, além de algumas pessoas que laboram em regime permanente. Os produtos são comercializados sobretudo na Praia, garantido rendimento para o sustento das famílias.

José Manuel explora, em parceria com Luís e Tuna, umas parcelas que ficam logo à entrada do desativado centro de São Jorginho. «Sentimos um pouco ameaçados se o governo nos retirar essas parcelas que cultivamos, para entregar a Igreja Católica, nas quais conseguimos rendimentos para sustentar as nossas famílias. O Estado tem de cautelar os nossos interesses enquanto cidadãos deste país», desabafa José Manuel.

Ocupantes recusam abandonar os espaços

Luís Varela Mendes, que também cultiva algumas parcelas em associação com mais um colega, disse que há mais de cinco anos que ocuparam essas terras que estavam abandonadas. «Sentimos ameaçados com este anúncio do governo, que não nos informou de nada e só tem mandado alguns técnicos do património para o local. Não vamos abrir mãos disso», avisa.

Mais ao alto, na cima de São Jorginho, encontramos a Lita, que foi a primeira mulher que fixou, numa das instalações abandonas, a residência com a família. «Depois que fixamos aqui, não deixamos os vândalos a destruir as poucas instalações que restam. Não vamos sair daqui. Se, numa situação extrema, o estado vier exigir o pagamento de uma renda, pagaremos», vai advertindo a nossa entrevistada.

Corrobora o mesmo ponto de vista a outra vizinha, Celeste, que questiona porque as 10 famílias e os mais de 12 agricultores têm de entregar os espaços ocupados à Igreja Católica, estando todos lá há vários anos. «A igreja não precisa dessas casas e terras. Mas nós precisamos delas para o sustento das nossas famílias», defende.

A afinar pelo mesmo diapasão está o agricultor Mário, que explora, com alguns trabalhadores, uma parcela produtiva junto de algumas mangueiras e coqueiros, que fica mais ao fundo, no São Jorginho de cima, no interior do mesmo vale. «Se não estivéssemos cá, tudo já estava destruído pelos vândalos», observa, exigindo que o estado deve protegar os interesses de todas as 10 famílias residentes e os mais de 12 agricultores que ocupam as parcelas agrícolas de São Jorginho, abandonadas, há mais de 10 anos, pelo governo de Cabo Verde.

Fazenda Esperança: Igreja espera pelo aval do Estado

Entretanto, a Igreja Católica está à espera que o Governo conceda o espaço situado em São Jorginho para avançar com o centro feminino no âmbito do projecto Esperança para ajudar mulheres usuárias de drogas e álcool, revelou, no dia 6 de Janeiro último, o Cardeal Dom Arlindo Furtado.

No encontro, que manteve com o Presidente da República, José Maria Neves, para apresentar o cumprimento de ano novo, Dom Arlindo Furtado, que é também Bispo da Diocese de Santiago, disse, segundo a Inforpress, que, neste momento, é necessário ter uma ala feminina para acolher essas mulheres, sendo que há casos e situações “alarmantes”.

Explicou que neste momento uma comunidade religiosa no Brasil, que tem uma vasta experiência nesta área, mostrou-se disponível para colaborar e dar o seu contributo aqui em Cabo Verde.

Conforme ele, a ideia deste projecto é apoiar mulheres e meninas que têm problemas com álcool e drogas na recuperação com acompanhamento na sua sociedade, sua família e inserção social, fazendo com que a igreja possa dar o seu contributo nesse sentido.

“O primeiro-ministro tinha prometido em São Jorginho a abertura de um centro feminino, mas só que as coisas estão em banho-maria e não avançam. A sociedade precisa e estamos a aguardar para que as nossas mulheres tenham a oportunidade de se libertarem, de retomarem a vida, crescerem e darem um contributo para a paz social e o bem-estar das famílias e para o equilíbrio de toda uma sociedade que se pretende cada vez mais humana fraterna e feliz”, apontou.

Segundo ainda a Inforpress, avançou que essa comunidade brasileira já esteve no arquipélago e ficaram muito felizes com o anúncio do chefe do Governo que prometeu disponibilizar o espaço em São Jorginho.

“Se o Governo, que tem aquele espaço ali fechado onde já se fez muito investimento no passado e agora não tem utilidade nenhuma e está lá a degradar-se, disponibilizar esse espaço para acolher o Grupo feminino para recuperação da sua integridade, saúde, dignidade e retoma da sua vida, a Igreja mobiliza recursos de outra forma para preparar melhor o ambiente e acolher os primeiros grupos como está a acontecer com os homens na Fazenda Esperança”, referiu.

Dom Arlindo Furtado disse ainda que recebeu uma abertura da parte do Chefe de Estado que se mostrou “interessado” e que está ciente da necessidade e avanço desse projecto para as mulheres no país.

Criação e fins da Fazenda Esperança

Fundada no Brasil em 1983, a Comunidade Terapêutica iniciou, prossegue a Inforpress, as suas actividades em Cabo Verde a 28 de Janeiro de 2018, realizando o acolhimento, em regime residencial, de pessoas usuárias de subsistência psicoativas, nomeadamente o álcool e outras drogas, na sua unidade durante um período de 12 meses.

A Fazenda da Esperança Cabo Verde já recebeu mais de 120 jovens e oferece o serviço de recuperação de dependência química com a finalidade de resgatar a dignidade e valores dos usuários de substâncias psicoativas, objectivando a manutenção da sobriedade, bem como o retorno e inclusão ao meio social dos mesmos, conclui a fonte deste jornal.

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