LUSOFONIA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Portugal: Angolana arguida após ser espancada, sindicato da polícia apaga post a insinuar que ela tem "doenças graves" — Governo quer tudo investigado 25 Janeiro 2020

Caso de racismo ou de violência policial? O caso da agressão a uma cidadã angolana em Portugal no domingo, 19, põe a nu mais um caso de alegada violência policial, acrescida de motivação “racial”, presente também num post do sindicato da polícia. O governo quer tudo investigado.

Portugal: Angolana arguida após ser espancada, sindicato da polícia apaga post a insinuar que ela tem

A angolana Cláudia Simões, de 42 anos, entra no autocarro às nove da noite, mostra o passe e diz ao motorista que a filha esqueceu o seu mas que telefonou e vai estar o filho com o passe dela no destino.

O motorista insiste que ela pague o bilhete. Cláudia recusa, ele manda-as sair. Intervém uma outra passageira a explicar que as crianças até aos doze anos viajam gratuitamente. O motorista começa então a proferir insultos racistas e chama a polícia.

O agente policial chamado pelo motorista aborda Cláudia na paragem da Amadora e de imediato o caso descamba para a violência, que o polícia acusa a cidadã de ter iniciado.

Mas Cláudia diz que o polícia a abordou "agressivamente" e atirou o telemóvel dela para o chão. Atirou-a ao chão e sentou-se sobre ela. "Ele estava a sufocar-me, estava a apertar-me as goelas, tive de o morder porque se não morria. Não estaria aqui para contar a minha história", segundo o depoimento de Cláudia à TVI.

"Ordenou-me que me sentasse no passeio, pedi-lhe para me sentar antes no banco da paragem, respondeu-me que não, que era no chão. Recusei-me a sentar no chão em plena via pública e, perante a minha recusa, o agente deitou-me ao chão. Sentou-se em cima de mim, na zona lombar, pressionando-me contra o chão, imobilizando-me e asfixiando-me", relata num comunicado após constituir advogado.

Um vídeo online mostra a mulher no chão com o polícia sobre ela, a agarrar-lhe os cabelos. Imagens e fotos mostram a mulher com marcas das pancadas no rosto.

Além da violência policial, avulta o crime do funcionário do autocarro, que proferiu insultos de cariz “racista” e quis ademais obrigar a mãe a comprar bilhete para a filha de oito anos, quando segundo a lei ela pode viajar sem pagar.

Sindicato da polícia apaga post que insinuou que agredida tem "doenças graves"

A publicação nas redes sociais, a insinuar que a cidadã angolana tem "doenças graves", é da autoria do polícia Ernesto, filiado no partido "Basta" de André Ventura.

Segundo divulgam os meios de comunicação de Portugal, a publicação do sindicato era composta por fotografias, alegadamente dos ferimentos do agente Carlos Canha — não é possível confirmar nas imagens a identidade -, e pela insinuação de que a sua acusadora tinha "doenças graves": "As melhoras ao colega e espero que as análises sejam todas negativas a doenças graves", podia ler-se até esta quinta-feira.

A direção do sindicato é dirigida por Ernesto Peixoto Rodrigues, agente principal da PSP que em julho deste ano foi alvo de uma pena disciplinar de aposentação compulsiva por parte do Ministério da Administração Interna - consiste na passagem forçada à situação de aposentação, com cessação do vínculo funcional, e são aplicáveis às infrações disciplinares muito graves.

Em causa estava o facto de ter faltado ao serviço sem justificação 83 dias seguidos. Peixoto Rodrigues foi também o número 10 na lista da coligação Basta!, que nas eleições europeias de maio teve como cabeça de lista o líder do Chega, André Ventura.


Governo ordena inquérito

Na terça-feira, Cláudia ficou indiciada do crime de resistência e coação sobre agente da autoridade e o agente envolvido "não foi constituído arguido". Mas na quarta-feira, o ministro da Administração Interna ordenou a abertura de um inquérito sobre a atuação policial no caso da detenção de Cláudia Simões e que resultou numa denúncia contra o polícia de serviço.

Por seu turno, a IGAI-Inspeção-Geral da Administração Interna, como refere o Público, já abriu inquérito ao sindicato. Em causa está um processo administrativo que tem em conta "as notícias de violação grave dos direitos fundamentais de cidadãos por parte dos serviços e seus agentes que cheguem ao conhecimento da IGAI por eventuais violações da legalidade e, em geral, as suspeitas de irregularidades no funcionamento dos serviços, tendo em vista o exercício de controlo indireto ou a instauração de procedimento disciplinar nos casos de maior gravidade".​

Reações no Facebook demonstram intolerância extrema


Tanto entre os que condenam a atuação da polícia como entre os que a defendem a intervenção policial neste caso, há segundo contagem online mais de um milhão de comentários que mostram uma intolerância extrema.

Fontes: TVI/SIC/RTP/JN.pt/

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade





  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project