Segundo o perito forense Duarte Nuno Vieira, "os corpos que mumificam deixam de exalar cheiro, assim que termina o processo de desidratação que pode ser ainda mais rápido se o corpo for magro e houver ar a circular".
Chamados pelos vizinhos incomodados com "um cheiro nauseabundo", os bombeiros do Dafundo, na Grande Lisboa, arrombaram a janela e entraram no apartamento do segundo andar onde a Anabela Barros, na casa dos sessenta anos de idade, sempre viveu com os pais.
"O bombeiro que subiu pela grua apareceu à janela e fez um sinal cá para baixo. Percebemos logo que eram dois corpos", diz a vizinha Isilda Mendes.
Quinze anos depois, esta descoberta espanta os vizinhos: "Afinal não houve enterro!"
Segundo a polícia, por enquanto não há indícios de crime. A mulher foi encontrada na sala e o cadáver do pai estava em um dos quartos. Ao contrário do resto da casa, "o quarto estava limpo e a cama bem arranjada, o pijama parece ter sido trocado recentemente".
Indícios de loucura? A vizinha Isilda relatou que via a mulher com o carrinho de compras onde eram visíveis "garrafões de água mineral". Confirmou-se que a casa deixou de ter água da rede há anos.
Depressão? A cabeleireira da zona disse que "ela vinha aqui cortar as pontas. Era uma pessoa com quem se podia conversar sobre tudo, nunca a tive por uma pessoa deprimida. Só utimamente a vi muito magrinha, só isso".
"Era uma pessoa alegre, com quem se podia conversar. Nunca vi sinais de depressão", afirmou a amiga Luísa (foto ao alto), colega durante várias décadas no trabalho.
"Nada fazia crer, porque a posição dela, a figura dela, a maneira de falar, não havia ali nada que a gente dissesse ‘há aqui um problema grave por trás’. Não, não havia nada!", comentou Luísa Soares.
Motivação? Colega na EDP: "Vão achar o dinheiro todo no banco"
Segundo o perito forense disse à SIC, "houve uns quatro casos em Portugal, pontualmente, e todos tinham a ver com a motivação financeira: receber o dinheiro da pensão do familiar falecido".
Entrevistada pela SIC, Luísa que trabalhou 25 anos com a Anabela na EDP, a empresa pública de eletricidade, está certa de que "ela não precisava do dinheiro da reforma do pai. Vão ver que o encontram todo no banco".
Segundo conta a colega, depois que há 15 anos começou a faltar ao trabalho, após o falecimento do pai, "Anabela foi visitada por uma assistente social" da empresa que "fez um relatório". Pouco depois a funcionária reformou-se.
Luísa nunca lhe conheceu namorado nenhum, família "eram só os pais. A mãe morreu em 2001. Ela pediu e foi autorizada a ausentar-se do trabalho para ir servir o almoço ao pai".
"A Anabela vivia para o pai. Em 2009 perguntei-lhe porque é que nunca vinha ao refeitório e ela disse ’Tenho de ir dar de comer ao Pai’, que agora sabe-se estava morto havia anos".
Ao saber que ela não tinha água em casa — "não porque lhe faltasse o dinheiro, já que a EDP pagava bem. Todos os dias as vizinhas viam-na a ir às compras"—, Luísa perguntou-lhe e ela esquivou-se. Luísa conta que também ficou sem resposta "a comadre, que era a única pessoa com quem Anabela tinha uma relação de proximidade por causa do afilhado e com quem ia de férias para o Algarve".
"Todos os colegas estão de acordo sobre a sua competência no trabalho, a simpatia dela", remata.
Fontes: SIC/JN.pt/