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Portugal: Presidente Marcelo sai cedo de homenagem de Costa a Balsemão que não lhe perdoa "deslealdade" 05 Setembro 2021

O presidente da República Portuguesa marcou presença em São Bento na quinta-feira, 2, mas não ficou para assistir à cerimónia de homenagem a Francisco Pinto Balsemão. O primeiro-ministro António Costa homenageou o patrão do Grupo Impresa (Expresso e SIC) enquanto primeiro-ministro há 40 anos no VII e VIII Governos Constitucionais (janeiro a setembro de 1981, setembro a junho de 1983).

Portugal: Presidente Marcelo sai cedo de homenagem de Costa a Balsemão que não lhe perdoa

Francisco Pinto Balsemão, primeiro-ministro de Portugal entre 1981 e 1983 e militante nº 1 do PSD, escreve nas suas ’Memórias’ — livro que lançou na mesma semana em que cumpriu 84 anos (1-9) e foi homenageado pelo primeiro-ministro António Costa (2-9)— que não pode perdoar "as deslealdades" de Marcelo então presidente do PSD.

Nesta quinta-feira, o presidente Marcelo até marcou presença na residência oficial em São Bento, mas saiu logo. Os analistas ligam isso aos "40 anos de inimizade entre os dois", iniciada durante os dois anos em que Marcelo foi o presidente do partido social-democrata e Balsemão o primeiro-ministro de Portugal.

Mas já em 1994, Pinto Balsemão em entrevista ao extinto Independente (1988-2006) desabafou: "Traiu-me várias vezes desde que, em 1972, o chamei para colaborar comigo no Expresso".

Na sua recém-lançada autobiografia, Balsemão apresenta a complexa relação com Marcelo assim: "Não é fácil estar de bem com Deus e com o Diabo". Na mesma linha, Freitas do Amaral, ministro na coligação AD, relatou, nas suas memórias políticas, que "cada conselho nacional do PSD era uma batalha campal, em que a autoridade do líder era sempre posta em causa". Antagonistas mais intensos: Cavaco, Santana Lopes, Helena Roseta.

Segundo Balsemão, o pior todavia era que alguns dos mais duros ataques ao governo da AD vinham do Expresso dirigido por Marcelo. O jornal que Balsemão fundara em 1973 "andava a matar o pai", escreve.

Para acabar com isso de Marcelo estar no Expresso a "queimar" o seu governo AD (Aliança Democrática do PPD, CDS e PPM), Balsemão chamou-o para perto de si para ver se os danos seriam menores. Marcelo porém manteve-se fiel ao que era: como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e depois como ministro dos Assuntos Parlamentares, rezam as biografias, não deixou de conspirar e, pior que isso, de tornar pública a sua desilusão com tudo o que estava a acontecer.

Nas entrevistas, o ministro dos Assuntos Parlamentares admitia que a AD já tinha cometido "erros graves", apelava em público a uma remodelação e ameaçava bater com a porta. Demitiu-se, mas combinou com o primeiro-ministro guardar segredo até às autárquicas para não lançar a bomba à porta das eleições.

"Apresentou a demissão quatro dias antes das autárquicas, com a promessa de nada revelar até às eleições, mas no próprio dia ou no dia seguinte a notícia estava no Expresso", conta Balsemão, na biografia de Marcelo pelo jornalista político Vítor Matos. "O episódio marca o ponto final numa amizade de dez anos", lê-se no livro Marcelo Rebelo de Sousa, de 2012.

Marcelo acha um exagero a reação do ex-primeiro-ministro. "Ele nunca me explicou objetivamente o que eu fiz. Nunca consegui perceber. Ainda hoje, quando Balsemão fala (sobre as traições), acho que é uma construção que ele fez", diz Marcelo, na biografia.

Marcelo: ’É a prova de que na revisão andam a trabalhar mal’

Entre outras farpas, Marcelo chegou a escrever que "não há vergonha nenhuma que haja quem pense que Balsemão foi uma escolha infeliz ou desastrosa".

Marcelo tinha aliás protagonizado três anos antes um caso caricato, como contou o jornalista José Pedro Castanheira num relato sobre a história do semanário: «na secção ‘Gente’ de 5 de Agosto de 1978" escreveu «a frase desinserida de qualquer contexto: ’O Balsemão é lelé da cuca’».

Balsemão mandou chamá-lo e obteve de Marcelo uma justificação que José António Saraiva, outro diretor do Expresso(1982-2007), viria a transcrever. "Eu tinha a suspeita de que a revisão estava a trabalhar mal e fiz isso para os experimentar. Infelizmente, verifiquei que era verdade", disse o professor Marcelo.

Na sua autobiografia "Confissões de Um Director de jornal", José António Saraiva conta que "uns dias mais tarde, em casa de Balsemão, na Quinta da Marinha, teria lugar um episódio pouco edificante, com Marcelo a pedir desculpa a Balsemão e a dizer-lhe que o via como um pai". Pai? Balsemão é onze anos mais velho que Marcelo (que em dezembro fará 73 anos).

Marcelo salvou-se da demissão. Balsemão, porém, nunca lhe perdoou, como se viu depois. "Uma pessoa tão inteligente não se pode salvar à conta de infantilidade[s]. Penso que para tudo há limites", referiu Balsemão no processo da candidatura presidencial de 2016 quando apoiou Rui Rio para travar Marcelo como candidato do PSD.

Os jornais portugueses destacam trechos da biografia mais recente, como este em que Balsemão diz acintosamente que Marcelo, enquanto seu ministro adjunto, «correspondeu às expectativas no que respeita ao lado "escorpião": "Montou intrigas desnecessárias entre ministros e/ou secretários de Estado. Organizou os seus contactos pessoais com o gabinete do Presidente da República e com o Conselho da Revolução. Conservou e alimentou as suas linhas diretas com dirigentes do PSD que estavam contra mim, como era o caso de Helena Roseta, e com dirigentes do CDS"», destaca o Diário de Notícias desta sexta-feira.

A política no seu melhor, na conceção do vulgo?

Fontes: Publicações referidas no texto. Foto (AR.pt): Presidente Marcelo entre o PM António Costa e o homenageado Pinto Balsemão.

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