OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Postal de Lisboa 30 Julho 2009

Pede-se aos doentes, cegos em consequência de um medicamento injectado no tratamento da visão no Hospital de Santa Maria, “calma e esperança”, mas Maria das Dores Monteiro, 52 anos, que foi com seus pais, menina, de Cabo Verde para Angola, só chora na cama número dez e diz que agora nunca mais pode ver a sua ilha berço, “Fogo”, para onde nunca voltou. Está em profundo sofrimento e esse refúgio na infância é uma espécie de tábua de salvação que procura, num caso inédito que nem o ressarcimento indemnizatório pode sanar. De Otília Leitão

Postal de Lisboa

Na sua cama número dez, no serviço de internamento de oftalmologia do Hospital de Santa Maria, esta mulher que estava a tratar-se a “uma Degenerescência Macular da Idade” tinha a promessa de ficar a ver melhor com o medicamento injectável “Avastin”. Assim tem sucedido a muitos outros doentes que “ficaram a ver bem”. Mas, como disse um outro cidadão, Walter Bom, porventura o caso mais grave, “eu estava à hora errada, no dia errado”. Os seis doentes a quem foram injectados o lote daquele medicamento ficaram cegos (os quatro, porque levaram apenas num olho e ficaram parcelarmente invisuais, os outros dois, totalmente, porque o receberam nos dois olhos).

Eles têm visitas – no caso de Maria das Dores, veio de Luanda a sua filha Maria Albertina Lima, para a acompanhar nesta dor – e vão sabendo pelos telemóveis, o que se vai noticiando e o que se diz é de “irreversibilidade”, de nervosismo perante os jornalistas, de empurra de causas. A Ministra da Saúde, Ana Jorge, deu campo aberto a quem considere que no estrangeiro há melhores locais para se tratarem. Lamentável.

Os doentes apenas sabem que vinte e quatro horas depois, deixaram de ver qualquer luz, qualquer cor. Estão convictos que “houve qualquer coisa, porque os doentes seguintes receberam outro lote e ficaram a ver melhor”.

As instituições de Saúde prometem inúmeros inquéritos. O Hospital de Santa Maria tem sido prestável às informações públicas, mas nada de jornalistas infiltrados nas salas junto dos doentes. São as famílias que se responsabilizam.

Na opinião pública adensa-se o enigma: O estranho é que o medicamento já vem em doses, em agulhas descartáveis. A troca de medicamentos terá sido a origem? Houve uma alerta de uma farmacêutica (Roche)em Fevereiro? Agora até surgiu um telefonema anónimo a soprar a sabotagem e o Ministério Público instaurou um inquérito-crime.

Verdade ou despiste? As exigências de investigação têm de ir até às últimas consequências, porque este grave incidente não pode ficar nem no avolumar de inquéritos inconclusivos nem na impunidade perante os eventuais responsáveis.

É verdade que as vítimas terão direito a uma indemnização pelos danos e consequente incapacidade, de acordo com a responsabilidade civil apurada num sempre longo e penoso processo judicial, contudo um ressarcimento mínimo perante tamanho dano.

Embora inédito no foro da oftalmologia, ficou de má memória o caso dos hemofílicos – 137 – contaminados com o vírus da Sida, em 1992, por causa de um lote do factor VIII sanguíneo, contaminado. Ainda este ano morreu um jovem engenheiro, vitima dessa transfusão depois de, em 2002, o Tribunal Constitucional ter declarado a prescrição de um processo que responsabilizava importantes figuras no caso.

Porque o dano é irreparável e o sofrimento humano imensurável, este caso deve ser seguido com atenção por todas as pessoas de bem, para que o futuro seja melhor.

Otilia.leitao@gmail.com

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