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Presidente de universidade de Paris no banco de réu por "profanação" de corpos doados à ciência 11 Junho 2021

O escândalo dos corpos profanados, após os donos os terem legado em prol do avanço da investigação científica, deflagrou em Paris há dois anos. O ex-presidente da Universidade de Paris-Descartes foi constituído arguido por "profanação de cadáveres", noticia a AFP esta terça-feira.

Presidente de universidade de Paris no banco de réu por

O maior centro anatómico de França, o CDC-’Centro de Doação de Corpos’, está desde 1953 instalado no prestigioso edifício da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris-Descartes, presidida entre 2011 e 2019 (à data da reportagem do L’Express) pelo biólogo Frédéric Dardel (3ª foto de rosto), que o tribunal de Paris neste 4 de junho constituiu arguido por "atentado à integridade física de cadáveres".

Foi em novembro de 2019, que o L’Express revelou o escândalo da "vala comum no coração de Paris". As descrições eram horríficas: corpos amontados, pedaços roídos por ratos, "peças" espalhadas até pelos corredores por onde circulavam estudantes. Em reação, o Ministério do Ensino Superior manda encerrar a parte administrativa do CDC, ainda em 2019, para efeitos de investigação em parceria com a tutela da Saúde.

Segundo a reportagem do L’Express, dos milhares de corpos doados durante anos várias centenas tinham vindo a ser conservados em condições ultrajantes, em câmaras onde ocorriam frequentes apagões. Pedaços mutilados eram deixados até em espaços por onde circulavam estudantes. Despojos eram objeto de incineração de massa. Haveria casos de mercantilização de cadáveres, vendidos contrariando todas as regras da Ética.

Ante essas revelações, o CDC dirigido desde 2018 por Bertrand Ludes (1ª foto ao alto à d.ta) fez em comunicado um pedido de desculpas às famílias dos doadores. Mas entre os que consideraram insuficiente esse pedido e moveram um processo judicial à universidade está a filha do ator Maurice Garrel (2ª foto à d.ta) — que doou o seu corpo à ciência em 2011.

Familiares processam a universidade. Segundo noticia hoje (quarta-feira, 8) o Le Monde, um total de 170 familiares de doadores processaram a universidade. Acusam a entidade de irregularidades ligadas à conservação e utilização dos despojos dos entes queridos doados ao CDC.

Preparadores técnicos acusados, inclusive por roubo de cadáveres. A acusação ao ex-presidente da UP-RN ocorre mais de um ano depois que dois antigos técnicos do CDC foram investigados e constituídos arguidos em janeiro e abril do corrente ano. O primeiro foi Maurice A., em cujo domicílio a investigação encontrou não só ossadas humanas mas também bens, como jóias, que se suspeita terem sido furtadas aos cadáveres. Seguiu-se Jean-Rémy H. Ambos teriam mantido uma "reserva de caça" na gestão dos cadáveres doados ao CDC.

Os factos imputados aos dois técnicos abrangem esta última década, de 2013 a 2019. Entretanto uma reportagem do Paris Match dá conta que as irregularidades terão começado em 1988.

Justificações do diretor

Na entrevista ao L’Express, o Professor Bertrand Ludes, médico legista e diretor do CDC desde setembro de 2018, referiu que o presidente da universidade, Dardel, o incumbira de "rever o funcionamento do centro e de o reorganizar". Entretanto, "o CDC estava a ser renovado desde junho de 2018: limpeza, pintura, procedimentos de conservação no frio e armazenamento dos corpos".

Segundo Ludes então referiu, em finais de 2019, "a renovação do espaço está concluída e estamos atualmente na fase de lançar o concurso para a conceção de projetos", num montante "entre sete e oito milhões de euros", a concluir "não antes de 2024".

Entretanto prosseguia "a deslocalização das câmaras de frio do 5º andar para o rés-do-chão", um trabalho a decorrer em paralelo "com as aulas de dissecção, que tiveram de ser reduzidas". Até quando? "Vai continuar por mais três e quatro anos".

Professores pagam para utilizar os corpos. Esta questão é "fundamental no nosso funcionamento", justifica Ludes perante uma das medidas mais contestadas. "Os custos são custos de conservação. Não há margem de lucro".

Contudo, o diretor científico do CDC contemporizava: quando avançar "a fusão com a [universidade] Paris 7, discutiremos isso de obrigar os professores a pagar pelos corpos disponibilizados", pois em seu entender "devemos fazer que seja a universidade a pagar".

A decisão terá de sair do conselho de administração [cujos membros dão o CNRS, o Município de Paris, a região Ile-de-France, o Inserm]. "Pelo contrário, os parceiros externos devem pagar", sublinhou Ludes.

Em novembro de 2019, cirurgiões queixaram-se de corpos em putrefação. A reportagem do L’Express confrontou o diretor sobre essa contradição informada uma semana antes, em 19 de novembro, por dois cirurgiões que tinham utilizado o CDC. Sobre isso, Ludes foi taxativo: "as câmaras de frio estão a funcionar", "a temperatura está monitorada, tudo está a ser supervisionado. Não existe outra degradação senão aquela ligada à degradação fisiológica própria dum cadáver".

Por isso, Ludes concluiu: "Foi pena os dois não me terem chamado para que eu pudesse ver esses cadáveres".

Confrontado com o tempo que demorou em tomar decisões tão importantes como as questões da logística, a revisão dos contratos com entidades privadas, a revisão das regras de utilização do CDC por forma a reparar a injustiça de obrigar professores a pagar, Ludes replicou: "Discuti muitas ideias com o anterior diretor (de 2007 a 2011), Axel Kahn, "um grande homem, cujas ideias partilho". Mas reconhece atrasos em pôr as ideias em prática porque "demorei a conhecer a casa " e "tudo dependia do presidente", nesse caso Dardel.

"Sem doação a ciência não avança"

É tida nos países mais avançados em medicina como uma etapa importante para o avanço da ciência.

A afirmação deste último entretítulo retoma ...

Fontes referidas. Fotos: O maior centro anatómico de França. Sala de preparação das aulas anatómicas. Pessoas referidas acima: Ludes, ator Maurice Garrel e Frédéric Dardel.

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