OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Promessas de Abril — a cumprir 26 Abril 2018

A solenidade das comemorações deste "25 de Abril", na Assembleia da República Portuguesa. Destaca-se a ausência de vinte deputados — sem compasso no tom próprio da solenidade, esses ter-se-ão esquivado a ser a voz dissonante. Entre nós, os nossos jovens na colónia libertada saberão tanto deste dia como os jovens da antiga metrópole também libertada?
Por: Andreia Fortes

Por: Andreia Fortes

A Revolução dos Cravos aconteceu em Lisboa mas a sua repercussão foi grande no até aí império colonial português. Sob cujo signo nascemos, nós que formamos praí os três-quartos dos hoje vivos em Cabo Verde nascidos pós-74-75.

A Revolução dos Cravos teve consequências editoriais: um aumento exponencial das publicações. Já não seria possível o processo das três marias. ”Três Marias” que o tribunal ilibou de toda a culpa no pós-Revolução. A liberdade de expressão a campear. Uns pró-Revolução. Outros contra (Cravos Roxos" foto 2). Escrevia-se sobre tudo, em liberdade e libertinagem, dizia a D. L., "nascida em Santo Antão, criada em São Vicente", autoexilada em Lisboa com o marido funcionário colonial porque a maltrataram "como se fosse mandronga!".

Dizem-me as crónicas familiares que os refugiados então chamados retornados começariam a chegar a Lisboa pouco depois. Muitos refizeram as vidas.

Outros perderam-se: a comadre I. A., vinda de Angola, "cabrita", como a classificavam nos censos coloniais de Angola, abandonou marido e filhos, a família que trocou por uma garrafa após outra. Alguns desabafaram no papel as suas mágoas que arroxearam os cravos (foto 2).

Abril por cumprir

Aos 40 anos da revolução, Portugal vivia a sua hora minguada. E agora quatro anos depois? A solenidade conta todos os parlamentares (de 230, descontemos as 20 cadeiras vazias). A minoria apenas discorda de que em 2018 a esperança é maior do que em 2014.

O tom próprio das comemorações foi aliás facilitado pela (talvez significativa) ausência de vinte deputados do PSD (ou seja, 0.8 em 4 deputados deste partido da oposição). Lê-se ou translê-se: esses não queriam ser a voz dissonante.

Comemorações num Portugal diasporizado

As comemorações do 25 de Abril na diápora portuguesa incluem um mês inteiro de atividades em Paris, com fados, palestras, desfile. Soube-o primeiro através de conterrâneos nossos na cidade-luz. Acho que é significativo, ou, melhor, vou pensar nisso.

Entre nós, na primeira cidade, canta a luso-caboverdiana Sara Tavares. Em Mindelo, o destaque vai para a tertúlia em que participa o músico José Mário Branco, vindo do Porto, Portugal, para animar um total de três palestras. José Mário Branco, pai do João do teatro do Mindelo, falou na véspera sobre a sua música de intervenção também na Praia e Assomada.

Uma conquista …quem sabe

Os jovens em Portugal, na sua maioria, não sabem que as notícias eram selecionadas pela mesa censória. Como o lápis azul era temido pelos que faziam as notícias, incertos se estas chegariam ao público.

Os jovens não sabem que as mulheres não podiam votar – com a implantação da República em 1910, uma mulher por ser viúva driblou a proibição usando a lei vigente que permitia votar os chefes de família. Mas os deputados foram a correr votar nova lei que explicitava a interdição às mulheres, ponto final.

Os jovens não sabem que os meninos ouviam falar da PIDE, a polícia política, como de uma temível ameaça, maior que a do gongon, pois este só vinha de noite.

Os pides eram mais temíveis que bejons, gongons, e outros que tais, aterradoras criaturas noturnas. Os pides podiam estar em qualquer lado, a qualquer hora. E poucos eram os que se vestiam distintamente de branco, como a ’ketxada de pòsse brònke’/a colónia de pássaros brancos, segundo Sérgio Frusoni.

E hoje, o que tememos? Um apagão a apagar o texto digitado, na folga do almoço? Meia hora quase que quase me fazia perder o texto. Mas eu sou dos que não prescindem de escrever primeiro no papel!

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