LUSOFONIA

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"Que mãe seria essa" da bebé que morreu esquecida no carro — Peso da exaustão 16 Maio 2021

Os pais em estado de choque foram assistidos por psicólogos no Hospital de Santa Maria, onde a sua bebé entrou já cadáver. Uma semana decorrida, a imprensa na quinta-feira, 13, refere "uma fonte próxima da família" sobre o pai que "não perdoa" e acusa a mulher pela morte da filha de dois anos esquecida durante sete horas dentro do carro no centro de Lisboa.

Segundo fontes policiais, a criança esteve trancada no carro durante todo o dia, das nove às quatro da tarde, por esquecimento da mãe. Nessa quinta-feira, 6, a progenitora, de três filhos, todos menores, foi levá-los à escola, como fazia todos os dias. A filha mais nova, de dois anos, ficou no carro. À tarde, pelas 16h15, a mãe percebeu que se tinha esquecido da criança no carro desde manhã.

Este caso, que aconteceu na capital da Lusofonia, tem sido acompanhado com emoção e muitos perguntam "Que mãe é essa?" Uma reação condenatória, precipitada.

Muitos condenam, esquecendo de ver para lá da superfície da situação trágica, veiculada pelos media, de progenitores que deixam um filho no carro, por vezes com desfecho trágico.


Psicologia: exaustão

Psicólogos que têm vindo a escrever sobre estes casos indicam que tais situações --- tornadas notícia frequente quando se dá a tragédia — acontecem a pessoas que foram acumulando o seu stress a tal nível que se tornou em exaustão.

Como mostram não só a literatura consultável em sites especializados mas também testemunhos pessoais, o stress pode decorrer não de situações extremas (morte, ameaça à vida, insegurança financeira) mas também de situações mais banais, quotidianas às quais o indivíduo deixa de poder resistir.

Mudança na lei

A criança no banco de trás do carro — em vez de ficar à frente, onde corre perigo em caso de abertura do airbag— tornou-se lei no último quarto de século, em nome da maior segurança dos que têm menos de doze anos.

Mas as estatísticas mostram que, no caso de bebés, essa lei resultou no aumento de mortes no banco de trás. Nos Estados Unidos morrem em média 37 bebés só no Verão, de hipertermia por terem estado esquecidos horas dentro do carro dum progenitor.

Que tipo de pessoa esquece um bebé

O artigo com este título, publicado no Washington Post em 08 de março de 2009, valeu ao jornalista Gene Weingarten o prémio Pulitzer.

Que tipo de pessoa esquece um bebé? A resposta é a seguinte, segundo Weingarten, em síntese:

"Os ricos, também. Os pobres, a classe média. Progenitores de todas as idades e etnias. Mães e pais. Acontece tanto aos distraídos crónicos como aos metódicos fanáticos, tanto a quem tem um curso superior como ao pouco escolarizado. Nos últimos dez anos, aconteceu a: um dentista; a um funcionário dos correios; a um assistente social ; a um agente da polícia; a um contabilista; a soldado; a um paralegal; a um eletricista; a um sacerdote protestante; a um rabi estagiário; a um enfermeiro; a um construtor civil; a um diretor de liceu; a um psicólogo; a um professor universitário e a um chef (de cozinha); a um pediatra; a um cientista da NASA" ( Kevin Shelton).

Brilhante invento, mas

Em 2000, Chris Edwards, Terry Mack e Edward Modlin, cientistas da NASA colegas do referido acima, que perdeu o filho de nove meses, começaram a trabalhar num produto que, acreditavam, ia pôr termo à tragédia dos bebés esquecidos.

O dispositivo — que apresentaram à autoridade industrial para ser patenteado —consistia em sensores que detetam o peso e uma chave com alarme. Obrigatório por lei, o sensor dispararia sempre que o peso da criança fosse detetado após a ignição ser desligada.

Baseado na tecnologia aeroespacial, o invento de proteção seria de uso fácil, custo acessível e eficaz.

A publicidade gerada em torno do invento dado o prestígio da NASA abria ótimas perspetivas para o sucesso do dispositivo.

Cinco anos depois, os inventores desistiram ao fim de tentativas para encontrar um industrial interessado em investir no produto, já com a sua patente industrial.

O mundo empresarial recuou baseado em estudos de mercado de que o potencial consumidor afinal não estava disposto a gastar dinheiro em tal invento. Por uma simples razão: todos sabiam dessas histórias de bebés que pais deixavam esquecidos a morrer em carros e diziam que isso nunca iria acontecer-lhes.

Fontes: Referidas. Relacionado: Bebé esquecida dentro de carro morreu em Lisboa, 07.mai.021

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