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Quem ganhou e quem perdeu com a crise entre Irão e Estados Unidos 12 Janeiro 2020

O assassinato do general Qasem Soleimani e o ataque de mísseis do Irão a bases americanas no Iraque em retaliação aumentaram o medo de um conflito com implicações de longo alcance.

Quem ganhou e quem perdeu com a crise entre Irão e Estados Unidos

O cenário de perdedores ou vencedores dessa crise pode mudar rapidamente, dependendo do que os Estados Unidos e o Irão fizerem nos próximos dias.

Então, quem está ganhando ou perdendo?

A pesquisadora Sanam Vakil, da organização Chatham House, de análise política internacional, escreveu para a BBC News sobre as implicações da atual crise entre Irão e Estados Unidos para os dois países e para outros atores da região e da Europa. A seguir, a análise da especialista.

Irão se beneficia no curto prazo

Apesar da perda de uma figura militar tão poderosa, o Irão pode ser um beneficiário no curto prazo do assassinato do seu próprio general Qasem Soleimani.

A morte de Soleimani e as enormes procissões fúnebres que se seguiram permitiram que o regime iraniano desviasse a atenção do público da violenta repressão aos protestos contra o aumento dos preços da gasolina, em novembro.

Esse cenário também permite que o Irã demonstre sua capacidade de se unir em um momento de crise, mesmo que sua elite política seja notoriamente dividida.

O Irão está sob a pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA em 2018 após o presidente americano, Donald Trump, determinar a saída de seu país do acordo nuclear firmado com os iranianos em 2015.

No ano passado, a situação piorou depois que o Irão derrubou um drone militar americano e deteve navios petroleiros na região do Golfo. O país também foi acusado de patrocinar ataques com mísseis, como o caso ocorrido em setembro contra instalações petrolíferas sauditas. O regime iraniano negou participação.

O Irão já reagiu aos Estados Unidos com um ataque de mísseis contra tropas americanas no Iraque, na terça-feira. O país pode se beneficiar se adiar qualquer retaliação e, em vez disso, continuar a demonstrar seu apreço pelo general morto ao mesmo tempo em que fomenta a ansiedade do público em relação ao que pode ocorrer no futuro.

No entanto, se o país tomar outras medidas, poderá não ser mais visto como vencedor.

Dependendo de onde e como o Irão procurar vingar a morte de Soleimani, o país, dono de um poder militar menor, pode se encontrar em um ciclo militar de ação e reação prejudicial.

Já sujeito a fortes sanções e sob pressão para cumprir o acordo nuclear, o Irão poderia ficar cada vez mais isolado com a escalada de violência.

Estados Unidos

O governo Trump pode ter conseguido prejudicar a estrutura militar do Irão. Além disso, a estratégia de ataques pode potencialmente aumentar a chance de reeleição do presidente nas eleições de novembro.

Com o ataque que matou Soleimani, os EUA também enviaram uma mensagem de força e solidariedade a aliados na região, como Israel e Arábia Saudita.

Mas, caso haja uma ação militar de maior intensidade, os preços do petróleo podem aumentar e outra guerra regional de longa duração pode começar, levando à perda de mais vidas.

Esse cenário pode ter ramificações para muitas outras nações no Oriente Médio.

Forças xiitas no Iraque

No curto prazo, as milícias xiitas apoiadas pelo Irão no Iraque poderiam se beneficiar da atual crise.

Nos últimos meses, o governo iraquiano tem sido alvo de muitos protestos contra a influência do Irão no país, além de denúncias de má governança e corrupção.

Essas milícias — e o restante do establishment político do Iraque — estão usando a morte de Soleimani para recuperar a influência perdida e legitimar sua necessidade de permanecer no país.

A promessa de expulsar as tropas americanas do Iraque tem sido um grito de guerra desses grupos e é estimulada por seus líderes.

Esse cenário cria um vácuo de segurança que pode ser ocupado por grupos extremistas como o Estado Islâmico e a Al Qaeda.

Israel

Irão e Israel há muito tempo estão em conflito por seus interesses no Oriente Médio — o regime iraniano demonstra o desejo de remover o Estado judeu da região.

Da perspectiva de Israel, muitas ameaças ainda permanecem ativas. Isso inclui o apoio do Irão aos adversários do país, como o grupo militante Hezbollah, do Líbano, e o presidente sírio, Bashar al-Assad.

No entanto, a morte de Soleimani indica a crescente intenção dos Estados Unidos de conter as ações do Irão.

Em Israel, é provável que a crise seja vista como um passo positivo que beneficiará seus interesses de segurança contra o Irão e os grupos que ele apoia.

"Israel está com os Estados Unidos em sua justa luta por paz, segurança e autodefesa", disse o primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, após o ataque.

Manifestações no Oriente Médio

A ameaça iminente de conflito pode dar a governos do Oriente Médio uma desculpa para reprimir os protestos que vêm ocorrendo em diversos países da região.

Manifestantes no Líbano têm ido às ruas por desigualdade e contra a corrupção
Em particular, as recentes manifestações no Iraque, Líbano e Irã sobre questões como desemprego e corrupção podem ser contidas com a justificativa da segurança nacional.

Os governos poderiam até dar um passo adiante e usar a crise iminente para justificar ações repressivas contra ativistas políticos e travar qualquer tentativa de reforma política.

Arábia Saudita e Emirados Árabes

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes estão em uma posição um pouco mais delicada.

Ambos foram diretamente afetados pelos ataques a navios do Estreito de Ormuz no ano passado e a duas grandes instalações petrolíferas sauditas, em grande parte consideradas obras do Irão ou de forças apoiadas pelo país. O governo iraniano negou qualquer envolvimento.

Em resposta, os Emirados Árabes tentaram aliviar a situação com Teerã, enquanto a Arábia Saudita continuou a apoiar as ações de Washington.

Desde o assassinato de Soleimani, os dois países pediram calma, e o ministro da Defesa saudita viajou a Washington para conversar com integrantes do governo Trump.

Mas sua proximidade geográfica com o Irão e seu histórico de tensões os tornam vulneráveis ​​a possíveis ataques iranianos.

Europa

Já lutando para sustentar o frágil acordo nuclear de 2015, a Europa permanece em um meio termo complicado entre os EUA e o Irão.

O Reino Unido não recebeu um aviso prévio do ataque de drone feito pelos Estados Unidos contra Soleimani, indicando tensões transatlânticas em andamento ou, pelo menos, falha de comunicação.

Ao mesmo tempo, tendo cooperado na luta contra o Estado Islâmico, vários países europeus com tropas no Iraque podem ser atraídos para o fogo cruzado se o Irão escolher uma resposta militar mais ampla.

O assassinato de Soleimani deveria nos lembrar que as questões de governança e estabilidade regional que provocaram os protestos da Primavera Árabe há quase uma década permanecem sem solução. Fonte: BBS News Brasil

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