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REPORTAGEM: Cabo-verdianas começam a conquistar lugar no mundo do fisiculturismo 29 Setembro 2022

O mundo do fisiculturismo está a ganhar espaço entre as cabo-verdianas, que já passaram a dividir o palco de competições, antes dominado por homens, conciliando as carreiras com as jornadas de treinos pesados.

REPORTAGEM: Cabo-verdianas começam a conquistar lugar no mundo do fisiculturismo

Elisângela Fortes, 27 anos, técnica farmacêutica na cidade do Mindelo, iniciou em 2019 os treinos de musculação, por questões de saúde, e nesse mesmo ano chegaria a vice-campeã regional da ilha de São Vicente. O título deu-lhe mais ânimo e este ano sagrou-se campeã da modalidade, em ’wellness’, no concurso realizado em São Vicente.
Um percurso que afirma ter sido de muita dedicação, ultrapassando preconceitos, bem como a mudar mentalidades de pessoas que acreditam que a musculação deixa a mulher menos feminina: "Comecei a usar suplementos de forma tardia porque tinha muito tabu em relação a isso, porque pensava que me deixaria com aspeto masculino e hoje vejo que creatina e proteínas, por exemplo, são suplementos que qualquer pessoa pode tomar".

Além de ser um trabalho diário, com várias horas de treinos intensivos e localizados, recorda que envolve custos elevados, principalmente com a subida dos preços de suplementos, custos amortizados pelos patrocínios que começam a acreditar e a apostar na preparação física de atletas femininas nacionais.

"Tive apoio de lojas de suplementos e do ginásio que frequento, onde o próprio dono, Marlon Mota, cedeu-me alguns suplementos, nos ajudou nos treinos, sempre em cima de nós. Mas na alimentação gastei muito, porque é uma alimentação restrita, há alguns produtos que são acessíveis e outros que os preços excedem um tanto. Infelizmente, ’fast food’ no nosso país é mais barato do que alimentos saudáveis", explica a atual campeã nacional em ’wellness’.

Nove mulheres participaram no último fim de semana, em São Vicente, na terceira edição da Taça de Cabo Verde de Culturismo e Fitness, nas diferentes categorias.

Ilsevânea Alves, vice-campeã nacional em ’wellness’, também participou pela segunda vez em competições desta natureza, tendo sido a primeira na regional de São Vicente, onde ficou em terceiro lugar, em 2019 e este ano conseguiu a segunda posição no nacional.

"A primeira vez não foi algo tão sério como foi o nacional, porque desta vez senti que a responsabilidade aumentou, mais critérios a serem seguidos", explicou.

Esta jovem de 35 anos, natural da ilha do Maio e residente em São Vicente, mãe de três filhos, treina há sete anos e divide a paixão com a carreira de treinadora num ginásio. Uma tarefa difícil, já que para competir no nacional teve uma preparação intensiva de quatro meses: "Passo o dia inteiro a trabalhar e tinha de me preparar. No final do dia o corpo já está cansado, a minha alimentação não é feita na hora e de forma regrada, como deveria".

Ilsevânia Alves prefere abrir mão de suplementos e apostar essencialmente na alimentação saudável, para ter o físico exigido nesta modalidade.

A saúde tem sido um dos impulsionadores da prática de desporto em Cabo Verde, mas também a procura por um físico harmonioso também incentiva esta adesão. O preparador físico Marlon Mota afirma que no último ano disparou o número de frequentadores de ginásios.

"Depois da pandemia houve mais procura por ginásios, mesmo tendo aumentado o número de ginásios em Cabo Verde. Estimo que houve um aumento em cerca de 30% e a camada mais jovem começou a frequentar os ginásios mais cedo do que antigamente", afirmou.

Alguns destes atletas acabam por entrar nas competições.

"Um atleta que pretende fazer uma boa preparação gasta mais de 50 mil escudos [455 euros], porque envolve suplementos, alimentação, precisam comer de forma mais limpa, à base de peito de frango e peixe, e fica dispendioso", garantiu.

Giélia Reis, da ilha de Santo Antão, desceu das passarelas para os palcos de competições nacionais e internacionais. A musculação tem sido diária e solitária, sem patrocínios e com barreiras pessoais e na saúde que teve de ultrapassar para, em 10 meses, estar na forma física que pretendia.

"Treino há muitos anos, fui vice-campeã de ’miss Olímpia’ em Angola, em 2015. A musculação é um desporto bastante caro, não há patrocínios em Cabo Verde, sou uma atleta natural, sem uso de hormonas e para chegar a um patamar de uma atleta internacional não é fácil", disse, recordando que apostou numa restrição gradual na alimentação e que para competir em prova, há dias, em São Vicente, teve de perder 15 quilos.

Conta ter recebido convite para participar numa competição em Portugal, no entanto pondera não participar devido aos custos inerentes à sua preparação. Mesmo para participar em provas nacionais, quando não há patrocínios, são os atletas que suportam todas as despesas, incluindo os transportes, alojamento e alimentação.

Dóris Correia, 24 anos e que em 2021 não pôde participar no campeonato nacional na cidade da Praia, na categoria de ’bikini fitness’, por estar com covid-19, conseguiu esta semana subir ao palco da competição em São Vicente. Na primeira vez arrebatou o primeiro lugar.

"Recebi o resultado positivo antes de viajar, mas não desanimei e comecei logo a preparar-me para competir este ano", assegurou a jovem, licenciada em marketing.

A Federação Cabo-verdiana de Halterofilismos encara a adesão das mulheres às competições regionais e nacionais com otimismo, apesar de acreditar que o número poderia ser maior.

"Temos mulheres em Cabo Verde com físico excelente, que poderiam muito bem competir, mas o engajamento ainda é baixo. É preciso vencer o medo de estar no palco e acredito que temos muito potencial no fisiculturismo, no powerlifting [levantamento de peso] e halterofilismo", disse à Lusa o presidente da federação, Bino Santos.

Pretendem agora cativar atletas de outras modalidades para o ginásio e que poderão competir com o tempo: "Há pessoas que desde criança fazem um percurso na ginástica ou na dança e que poderiam se adaptar diretamente no fisiculturismo".

A Semana com Lusa

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