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REPORTAGEM/Praia: Aumenta número de pessoas a viver de e na rua com problemas de saúde mental 20 Agosto 2022

Paulo, Rosa, Joaquim são nomes, na sua maioria jovens, que vieram aumentar as estatísticas de pessoas a viver de e na rua, na capital do País, devido a problemas de saúde mental, provocados, em grande parte, pelo consumo de substâncias psicoativas.

REPORTAGEM/Praia: Aumenta número de pessoas a viver de e na rua com problemas de saúde mental

A esse grupo, juntam-se muitos outros que, devido a problemas sociais e económicos, provocados pelas desigualdades sociais, a falta de acesso aos seus direitos, e a pandemia da covid-19, encontraram na rua a forma de poderem debelar a fome e saciar os vícios.

Nos bairros que circundam a capital do País, uns pedem cigarro, outros querem dinheiro e alguns apenas comida para matar a fome, mas a Maria, que a Inforpress encontrou à porta de uma gelataria, pede, a todos quanto passam por ali, um gelado e a sua reação pode ser tanto de alegria como de fúria, quando não satisfeita, conta um funcionário.

E com esta realidade que tende a aumentar, a repórter da Inforpress dá conta, em conversa com pessoas que, normalmente, os grandes centros são lugares em que a vulnerabilidade social é muito mais visível, já que são nesses espaços em que as pessoas, em situação de rua, sofrem e buscam sobreviver, sem auxílio.

“Morar na rua não acontece de dia para noite. Um conjunto de factores distintos, que passam pela vulnerabilidade das famílias, uso abusivo de substâncias psicoativas e dificuldades ao acesso a direitos fundamentais, contribuem para que as pessoas terminem nessas condições”, disse a psicóloga Sandra Gonzalez, em conversa com a Inforpress.

De acordo com a psicóloga, a união desses elementos tem um grande impacto na vulnerabilidade psicológica dessas pessoas, assim como a falta de apoio inerente à vida delas tende a ser um factor de agravamento dessas circunstâncias, o sentimento de não pertencimento leva o próprio ser a se excluir e as consequências dessa realidade não ajudam a superar a condição.

“A situação de quem está nas ruas é extremamente delicada, até mesmo para os profissionais dispostos a ajudar, isso porque, na rua, estão sempre submetidos a toda espécie de abandono e deterioração pessoal, como a violência, a fome, a ausência de esperança, o constante risco de contrair uma doença, a solidão, a insegurança, entre tantos outros”, explicou.

Para entender melhor a situação, a Inforpress contactou o Coordenador do Programa de Saúde Mental, Aristides da Luz, que começou por explicar que no país existem crianças, adolescentes e idosos com doença mental em situação de e na rua devido a vulnerabilidade social e não por falta de atendimento nos serviços especializados.

“Não vamos ver a pobreza, o abandono e as desigualdades sociais como um problema de saúde mental. É verdade que há pessoas com doença mental na rua, mas estão ali por situações sociais que complicam e não pela mera situação mental”, disse, realçando que os centros de saúde e até o hospital psiquiátrico atendem muitas pessoas nestas condições.

O responsável referiu sobre a existência de vários tipos de doença mental e afirmou que uma em cada quatro pessoas podem padecer de uma doença mental, justificando ainda o aumento das doenças mentais a nível mundial, não só em Cabo Verde, com a pandemia da covid-19.

O tratamento e as consultas, conforme esclareceu, é da responsabilidade dos centros de saúde, hospitais e delegacias de saúde.

“Se as pessoas que estão na rua com problemas de saúde mental não estão a ser acompanhadas no serviço de saúde, isso é uma falha do serviço de saúde local”, assegurou.

Para Aristides da Luz, o problema das pessoas de e na rua, com dilemas de saúde, deve ser equacionado através do apoio social, da família e de uma habitação para viver condignamente e não com “estigma e isolamento”, como vem sendo feito.

Questionado sobre o que fazer para que o serviço de saúde chegue às pessoas que estão na rua, o médico e responsável pelo Programa de Saúde Mental avançou que o sistema de saúde local deve ir ao encontro dos que precisam, afirmando, por outro lado, que deve ser um trabalho de parceria com o serviço social da Câmara Municipal e do Ministério da Família e Inclusão Social.

Já para a diretora-geral de Inclusão Social, Fátima Gonçalves, que concorda que as questões relacionadas com as doenças mentais são transversais, a resolução dos problemas deve ser sistémica.

“Existem um conjunto de factores que propiciam este aumento, factores sociais como stress perante estas crises sociais. Como diz a OMS, a Saúde é um completo do bem-estar físico, psicológico e social. Isto significa que os doentes, quando procuram as estruturas de saúde, não podem ser vistos como um ser fragmentado”, ajuntou.

Conforme Fátima Gonçalves, as estruturas de Saúde não devem servir, somente, para dar respostas a nível de tratamento de doenças em si, mas sim como espaço de cuidados.

Por isso, prosseguiu, é que as estruturas de Saúde devem ter equipas multidisciplinares, nomeadamente, técnicos sociais como Assistentes Sociais e Psicólogos, para complementar as acções médicas/enfermagem e humanizar cada dia mais o sistema.

“Quando as estruturas de saúde, neste caso o Hospital Psiquiátrico, detecta que as pessoas que as procuram necessitam de intervenção social, devem fazer o relatório psicossocial e encaminhar aos serviços da Direção-Geral de Inclusão Social, para que possamos, em parceria, dar respostas eficazes, num primeiro momento pontual e, posteriormente, uma resposta consistente”, ressaltou.

Questionada sobre qual deverá ser a actuação dos serviços da Inclusão Social para melhorar a situação, já que todos têm direito à assistência social e habitação condigna, aquela responsável indicou que a habitação social é da responsabilidade do Ministério da Habitação, apesar de reconhecer que as intervenções devem ser feitas de forma conjunta.

Neste processo, apontou que o MFIDS tem vários projectos integrados no programa de Garantia de Acesso ao Rendimento, à Educação, à Saúde e aos Cuidados que visam dar respostas sociais às pessoas com deficiência e respectivas famílias.

“Neste momento, financiamos 12 associações que trabalham para a promoção do bem-estar deste grupo-alvo e suas famílias, com (cuidados – higiene, refeições quentes, medicamentos, apoio para actividades geradoras de rendimento – família, Rendimentos Social de Inclusão e Pensão Social)”, afirmou.

Para além destes, destacou que através de contratos-programa, o MFIDS financia a Associação A Ponte (Associação da Promoção da Saúde Mental) para executar, nomeadamente actividades de atendimento psicológico, aos doentes e seus familiares na promoção de actividades que garantam a inclusão das pessoas com transtornos e deficiências mentais, participação e promoção das actividades que visam a prevenção dos transtornos mentais nas outras associações/ONG que trabalham com a problemática.

No entanto, para as pessoas nessa situação, que vivem de e na rua, não existe nenhum programa e nem associações que os atendem, até que um dia desaparecem sem que ninguém saiba o que lhes aconteceu. A Semana com Inforpress

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