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REPORTAGEM/São Vicente: Frequentadores de outrora da Praça Nova relembram “tempos áureos” e lamentam “desinteresse” da nova geração 28 Novembro 2022

Mindelenses frequentadores da Praça Nova de outrora dizem-se saudosos dos tempos áureos do espaço, que antes representava o “coração” da cidade do Mindelo, mas, hoje, “um tanto ou quanto esquecida” pela nova geração.

REPORTAGEM/São Vicente: Frequentadores de outrora da Praça Nova relembram “tempos áureos” e lamentam “desinteresse” da nova geração

Zeca Fortes, 57 anos, emigrante, sentado num dos bancos da Praça Amílcar Cabral, Praça Nova para o povo, é um desses amantes do lugar e que, à Inforpress, disse tratar-se de um dos seus sítios predilectos no Mindelo e onde “gasta” muito do seu tempo quando goza férias na ilha.

Numa viagem às memórias do passado, Fortes foi buscar a adolescência e inícios da sua vida amorosa, quando todos os dias vinha com amigos da sua zona, Fonte Filipe, para “namoriscar” com “menininhas de praça”.

“Todas as vezes que venho de férias, tenho o prazer de vir aqui sentar-me e lembrar-me os bons momentos que vivi na praça”, contou este “mussim d´ soncent” (mocinho de São Vicente, em português), que há 30 anos vive nos Estados Unidos da América.

Zeca Fortes lembra-se de que aos 15-16 anos a Praça Nova servia de ponto de encontro com as “txutxas” (namoradas, em português) e que depois seguiam para a próxima paragem, a poucos metros dali, Praça Doutora Maria Francisca, conhecida popularmente por Praça dos Namorados.

“Então, ficaram-me na memória esses momentos marcantes, especialmente, as das idades de atrevimento e de namoro”, relembrou, a praça a abarrotar pelas costuras, continuou, principalmente aos domingos, e a banda municipal a tocar, qual trilha sonora para as conquistas.

Hoje, cerca de 40 anos depois, disse encontrar um ambiente “muito diferente”, já que os meninos de agora estão ocupados com outras coisas, como utilizar as novas tecnologias, e não se interessam por aproveitar a praça.

Ferramentas que, segundo o emigrante, as gerações de antigamente não tinham e que os fazia querer “viver os momentos ao vivo, sentindo e desfrutando de emoções reais”.

O mesmo sentimento que diz ter José Delgado, 50 anos, que frequenta a Praça Nova desde criança, tempo em que considerava o espaço “coração do Mindelo”, com um coreto por onde desfilava músicas cabo-verdianas e do mundo.

“Era outra convivência e havia a banda municipal, então era a banda a tocar, crianças a brincar e fazer roda e as pessoas a circular, a fazer ‘grogue’ até altas horas”, sublinhou, lembrando o nome dado às voltas que as pessoas faziam à praça e que se assemelhavam à rotina dos bois à volta do trapiche para produzir o destilado grogue.

“Ultimamente, posso até dizer que Praça Nova morreu, já não tem o movimento e agora, praticamente, só se encontram pessoas de dia, porque à noite é bem difícil”, considerou este marítimo, que agora só vai à praça de dia para se refrescar, um hábito alimentado todas as vezes que regressa à terra, após trabalhar uns tempos em alto mar.

José Delgado ainda coloca na lista dos “descasos” o comportamento das autoridades que, a seu ver, também têm “contribuído para a perda de certas memórias da Praça Nova” e apontou como exemplo a fonte de água que foi desactivada nos anos 90, devido a um surto de cólera no País, e nunca mais foi reabilitada.

Tempos que Otília Silva, 69 anos, residente desde sempre na cidade do Mindelo, também viveu.

Igualmente frequentadora assídua do lugar, faz um recuo maior no tempo e traz à tona os anos coloniais, em que só podiam andar na praça as pessoas com sapato, já que às restantes era reservado um passeio mais abaixo.

“Nós, ‘menininhas da Morada’ [centro da cidade], quando víamos várias pessoas na praça, já sabíamos que eram das chamadas `fraldas´ [arredores], porque vinham com os seus paninhos para limpar a terra dos sapatos para passear na praça”, descreveu, referindo-se à importância que a estrutura recebia na época, obrigando as pessoas até a “inventar” sapatos para caminhar sobre os passeios.

Para já, como lembra a bancária aposentada, havia um “movimento fora de série”, com todas as zonas a vir desembocar na praça, porque também não havia muitos mais meios de diversão, criando um “ambiente aconchegante” mesmo no meio de toda a algazarra das crianças, e com rapazes, “por insulto e provocação”, a desfazer os laços dos vestidos das meninas.

Hoje, só resta, diz Otília Silva, algum movimento diurno, que termina por volta das 21:00 quando as cadeiras se tornam vazias.

Mesmo, assim, tal como o seu conterrâneo Zeca Fortes, aceita a evolução e aproveita para desfrutar de um outro tempo da praça, com o “frescor durante o dia”, sentar-se nos bancos, agora em maior número, e sentir o cheiro das flores “muito bem cuidadas”.

“A época passada traz alguma nostalgia, mas agora pode ter evoluído para uma época melhor, a evolução de vida tem de ser”, realçou Otília, em respeito ao percurso da Praça Nova, que foi construída em 1895, para substituir a antiga Praça Dom Luís, que por decreto-lei de 1891 foi cedida para a construção dos depósitos de carvão.

Em compensação, segundo relatos históricos, surgiu a então chamada Praça Serpa Pinto, cuja construção foi muito controversa por o povo achar que ficava “muito longe”.

Por esse motivo, não era muito usada e passou a ser chamada de Praça Nova popularmente, já que veio substituir a velha.

Mudou-se-lhe o nome depois da Independência, em 1975, para Praça Amílcar Cabral, mas o povo continua a chamar-lhe Praça Nova.

Desde a sua construção, o espaço tem sofrido várias modificações, a começar pela década de 1920 do século passado, em que o coreto foi reconstruído e ao mesmo tempo foram feitos trabalhos de jardinagem dotando-a de maiores e melhores jardins.

Hoje ainda guarda alguma centralidade, e prova disso é a Feira de Artesanato e Design (Urdi) que tem ali o seu palco anualmente e por estes dias já começa a ganhar corpo com a montagem da estrutura, que funcionará a partir de dia 30 até 04 de Dezembro.

A Semana com Inforpress

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