ACTUALIDADE

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

REPORTAGEM/São Vicente: Voluntários protegem tartarugas da apanha ilegal e outras ameaças 24 Agosto 2022

Caminham quilómetros por noite, estão atentos aos predadores e ajudam as tartarugas a desovar: são elementos da Associação Jovens Voluntários Terra a Terra do Mindelo, que desde o início de Agosto montaram acampamento na praia do Lazareto.

REPORTAGEM/São Vicente: Voluntários protegem tartarugas da apanha ilegal e outras ameaças

Diariamente, assim que o sol se põe, pelos lados do Monte Cara, e a praia do Lazareto é tomada pela escuridão, a equipa de voluntários, em número que varia de quatro a seis, monta duas pequenas tendas e inicia a patrulha da praia.

Trazem água e o jantar, e a missão é proteger as tartarugas marinhas fêmeas caretta-caretta que, entre Agosto e Outubro, vêm à praia desovar, embora o movimento dos animais em direcção à terra comece muito antes, em Maio.

“A partir do mês de Maio as tartarugas começam a fazer o reconhecimento das praias, mas a desova ocorre no mês de Agosto, que considero o pico”, diz à Inforpress o vice-presidente da Associação Jovens Voluntários Terra a Terra do Mindelo, Paulo Nobre, que nessa noite chefia a equipa de quatro elementos.

Paulo, Ricardo, Júnior e Adir, preparam-se para iniciar a patrulha, em turnos de dois elementos, munidos de luz vermelha, balde e telemóvel.

O trabalho pode passar por ajudar uma tartaruga amputada de um membro, por exemplo, a camuflar o ninho após a desova, o que já ocorreu, atenção redobrada aos predadores e colocação de um sinal para identificar o ninho.

“O recorde de ovos que já contei num único ninho na praia do Lazareto foi de 108 ovos”, indicou Paulo Nobre.

A praia do Lazareto tem pouco mais de dois quilómetros de extensão, que a equipa palmilha diversas vezes ao longo da noite/madrugada, contudo, o dia de trabalho não termina no Lazareto, pois, de manhã, a equipa é recolhida por uma viatura do Instituto do Mar e dirige-se a outras praias da ilha para prospecção de ninhos.

Ou seja, a jornada de trabalho começa pouco depois das 18:00 e vai até as 11:00 do dia seguinte.

“Foi nesta praia do Lazareto que iniciamos este trabalho em 2007/2008, ao lado das biólogas Sónia Merino e Sandra Correia, do antigo Instituto Nacional do Desenvolvimento da Pesca (INDP), actual Instituto do Mar (Imar)”, conta Paulo Nobre, altura em que ainda fazia parte da Associação Ponta de Pom, de Fonte Inês.

Por motivos que prefere não mencionar, decidiu deixar a Associação Ponta de Pom e fundar, em 2019/2020, a Associação Jovens Voluntários Terra a Terra do Mindelo, pois diz adorar ajudar quem necessita, com base no voluntariado.

Para esta campanha de 2022, iniciada nos primeiros dias do mês de Agosto, o financiamento advém da Direcção Nacional do Ambiente, mas há também apoios de uma universidade da Inglaterra, que recebe amostras de DNA de tartarugas para estudos, e a CV Telecom.

Nestes pouco mais de 20 dias de campanha, o grupo já conta alguns ninhos identificados na praia do Lazareto, contudo, por prudência, prefere não avançar o número para evitar espicaçar e chamar a atenção dos predadores.

O ano passado, aponta Paulo Nobre, a praia “bateu todos os recordes” de desova, pois se nunca tinha chegado a, pelos menos, 20 ninhos, desta vez aproximou-se dos 40.

Paulo assinala que o facto de ainda se registar, este ano, fraca afluência de tartarugas é algo normal, pois, geralmente, depois de ano excelente como o ano passado, costuma suceder um mais moderado.

Mesmo assim, há riscos para os animais que vêm desovar à praia do Lazareto, a começar pela poluição luminosa na estrada marginal, pois há relatos de casos em que tartarugas galgaram a estrada, o que constitui um perigo para as próprias viaturas que ali circulam de noite e que pode resultar num acidente grave.

“Há que arranjar uma saída, uma vala na praia poderia dificultar a subida das tartarugas”, sugere o vice-presidente da Associação Terra a Terra, que dá conta ainda que até as tartaruguinhas, após a eclosão, às vezes, em vez de seguirem para o mar, vão em direcção à estrada, atraídas pela luz.

Mas, há mais, conforme a mesma fonte, o perigo que representam os cães, uns vadios e outros trazidos por banhistas, “um autêntico predador” não só no Lazareto, mas em todas as praias da ilha.

“Também estamos atentos aos predadores humanos, aqui nunca apanhamos, mas na praia Grande, por exemplo, dois indivíduos foram detidos em flagrante delito”, conta Paulo Nobre, numa história que teve, no entanto, “final feliz”, pois os dois predadores foram levados a julgamento e dali saiu um entendimento, e hoje fazem o trabalho de protecção ao lado da equipa de voluntários.

“A sensibilização é a nossa força, não estamos nas praias como estorvadores, mas apostados na empatia e no diálogo com os frequentadores e, sorte nossa, quando menos esperamos já estão a fazer este trabalho connosco”, congratula-se.

A dado momento desta reportagem, uma mulher, que se encontrava com mais três pessoas a banhos na praia do Lazareto e que se apresentou como emigrante na França, aproximou-se de Paulo Nobre, meteu conversa, elogiou o trabalho dos voluntários e prometeu enviar “tendas maiores, que são baratas em França”.

Como sinal de “comprometimento com a causa”, a mulher entregou 50 euros aos voluntários, gesto que agradeceram e que gostavam de ver multiplicado. Certo é que a mulher ficou com os contactos da associação e os voluntários vão aguardar por novas tendas.

A tartaruga caretta-caretta é um animal que volta entre 15 a 20 anos depois à praia onde nasceu para desova, vive até aos 50 anos, pode pesar até 100 quilogramas e a gestação dura entre 50 a 60 dias. Apenas uma em mil crias chega à idade adulta.

A Semana com Inforpress

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project