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REPORTAGEM: Universidade Sénior nasce em Cabo Verde para mostrar que “nunca é tarde para aprender” 17 Outubro 2022

Depois das carreiras profissionais intensas, muitos desempenhando os mais altos cargos, pessoas com mais de 60 anos criaram a Universidade Sénior de Cabo Verde para “dar mais vida à vida” e mostrar que “nunca é tarde para aprender”.

REPORTAGEM: Universidade Sénior nasce em Cabo Verde para mostrar que “nunca é tarde para aprender”

“Nós começámos a refletir sobre como resolver um problema que é mundial, mas que também toca Cabo Verde, que é o envelhecimento das populações”, começou por explicar à agência Lusa Crispina Gomes, presidente da Universidade Sénior de Cabo Verde, que faz parte de um grupo de “pessoas interessadas” que há mais de quatro anos vem trabalhando nessa ideia, e a instituição foi lançada oficialmente em 25 março.

‘Bebendo’ de experiências de outras latitudes, o conceito veio para preencher o tempo das pessoas com 60 anos ou mais, que representam 7,6% da população de Cabo Verde, país em que a esperança média de vida tem vindo a aumentar ao longo dos anos, estando acima dos 70 anos.

“É um espaço, ou espaços, de ocupação dos tempos de forma saudável, de forma digna, de forma prazerosa, de pessoas com mais de 60 anos”, apontou a presidente, que vê esses idosos ainda com muita capacidade para dar à sociedade.

Outro dos fundadores da Universidade Sénior e que agora também frequenta o curso de Informática é o antigo Presidente da República Pedro Pires (2001-2011), para quem se deve aproveitar as competências das pessoas reformadas e ainda com capacidade para trabalhar, mas também, no seu caso, aperfeiçoar o conhecimento nesse mundo novo que são as novas tecnologias de informação e comunicação, que muitos não tiveram acesso enquanto jovens.

“Geralmente todos nós temos algum conhecimento, temos alguma experiência, mas é importante melhorar os conhecimentos que temos”, salientou o também antigo primeiro-ministro cabo-verdiano (1975-1991) e antigo líder partidário, de 88 anos.

“A ideia é estimular os estudos, o conhecimento, mesmo com uma certa idade. Não há uma idade para aprendizagem, pode-se aprender em qualquer idade, esse que é o lado mais importante”, insistiu Pedro Pires, atual presidente da Fundação Amílcar Cabral, onde funciona provisoriamente a sede da Uni-Sénior, na Praia.

Pedro Pires já andou meio mundo e desempenhou os mais altos cargos políticos em Cabo Verde, mas quer continuar a ser um “exemplo” para os mais novos, voltando novamente a um banco da escola, embora em “condições especiais”.

Para o antigo comandante militar, outro lado importante das formações é ocupar o tempo, explicando que há muita tendência para as pessoas se desleixarem depois de reformadas, e embora sem ideia de frequentar outro curso, não põe de lado a hipótese de também ser formador.

Quem também decidiu entrar nesta aventura foi Filomena Ribeiro, jurista, 67 anos, que admitiu à Lusa que tinha “algumas dificuldades ou dúvidas” com as aplicações dos telemóveis e logo que soube do curso não hesitou e faz parte da primeira leva de 10 formandos.

“Está a ser uma boa experiência até agora. (…) também é interessante porque saímos de casa, há muito tempo que não vinha à escola. Agora temos colegas de escola, isso tudo é interessante porque preenche o nosso tempo, dá-nos mais estímulo, mais alegria, é bom, estou a gostar”, afirmou a jurista que trabalhou sempre ligada ao Ministério do Turismo em Cabo Verde.

Para já, o primeiro objetivo é concluir o curso de Informática, mas a sexagenária já está a pensar em frequentar uma formação em Inglês, bem como outras das muitas ofertas da Uni-Sénior, num espaço de troca, de dar e receber e para promover a defesa do bem-estar social, emocional, intelectual e espiritual.

“A gente aprende até morrer. Até é uma luta contra o nosso velho amigo ‘Alzheimer’, para não deixar que ele se instale, agente aprendendo sempre mantém os neurónios em funcionamento e fica mais jovem, com um espírito mais jovem”, disse, sorridente, a formanda, que, tal como os colegas, no final vai receber um certificado de participação nos cursos ou nas oficinas.

As aulas de Informática estão a ser ministradas na WebLab da Escola Secundária Pedro Gomes, na Praia, que são laboratórios tecnológicos instalados em 44 instituições do país, num projeto do Núcleo Operacional da Sociedade de Informação (NOSi).

Além de Informática, a Uni-Sénior arrancou as formações em Escrita da Língua Cabo-verdiana, que também está a ser ministrada numa das salas de aula do mesmo liceu, no centro de Achada de Santo António, o bairro mais populoso da capital cabo-verdiana.

Além da área académica, Crispina Gomes avançou que a Uni-Sénior tem uma vertente lúdica, com oficinas em diversos temas, como culinária, música, teatro, desenho, fotografia, jardinagem, artesanato, e de cidadania e intervenção cívica, com palestras, conferências e encontros e diálogos com as novas gerações.

“É o que muita gente espera de nós, que é nós passarmos os nossos testemunhos aos jovens, à juventude”, indicou a dirigente académica, que tem andado um pouco por todas as ilhas a promover a universidade, estando em preparação abertura em São Vicente e a perspetiva é chegar a todas as ilhas do arquipélago.

A Uni-Sénior começou com esses dois cursos, mas segundo a presidente já estão na forja os de Francês e História de Cabo Verde, em turmas cuja intenção é não ultrapassar os 10 formandos.

Para já, a universidade não tem um espaço físico próprio para as aulas, mas tem contado com parcerias de outras instituições, como o Ministério da Educação, para cedência de salas.

Apesar de uma grande sensibilidade e de um grande interesse, o maior desafio, segundo o vice-presidente e responsável pela área académica, Adriano Monteiro, é tirar as pessoas de casa para voltarem a uma sala de aulas.

“Temos encontrado alguma resistência no sentido de tirar as pessoas de casa. Há um certo ‘comodismo’, que é natural nesta idade, e depois da pandemia ainda as coisas não estão a 100%, mas nós vamos adaptando à realidade, encontrando formas de mobilização para trazer esses seniores a essas formações”, mostrou.

Formado em História e com pós-graduação em Gestão da Educação, Adriano Monteiro deu conta do entusiasmo manifestado pelos formandos, motivado pelo desejo de querer alargar os seus conhecimentos e adquirir novos.

“Porque quem vem à Universidade Sénior está numa dupla posição, de poder dar e receber”, salientou o professor reformado, dizendo que já está a pensar em ser formador de um curso de História de Cabo Verde ou de História geral.

A Semana com Lusa

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