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Reflexões de Hélio Varela sobre as últimas eleições autárquicas : Há vida para além da política 01 Novembro 2020

Num post publicado na sua página de facebook, Hélio Querido Africano Varela refletiu, num artigo com o título «Há vida para além da política», sobre as eleições autárquicas de 25 de Outubro em Cabo Verde. Concluiu que o processo e os resultados eleitorais têm sido muito reveladores, realçando que « a importância que a política tem em Cabo Verde é avassaladora». Mas alerta que há sinais (conscientização gradual da sociedade com o surgimento de movimentos cívicos) que todos menosprezam e que serão cada vez mais evidentes proximamente. «O que acho que todos menosprezaram é um acontecimento que está a surgir e será cada vez mais evidente. A consciencialização gradual da sociedade de que o mundo não começa e acaba na política e que existe sim um certo e errado que não tem que ser escrito a verde ou amarelo. Espero que pelo menos nas suas reflexões pós eleitorais a classe política saiba interpretar na plenitude os sinais dados. É preciso evoluir na forma de fazer política. O povo está a despertar!». Leia este interessante artigo, que publicamos a seguir.

 Reflexões de Hélio Varela sobre as últimas eleições autárquicas : Há vida para além da política

Há vida para além da política.

Estes últimos dias têm sido para mim pessoalmente muito reveladores. A importância que a política tem em Cabo Verde é avassaladora. Durante o período eleitoral duplicamos o número de mortes por COVID e atingimos valores nunca antes atingidos de novos casos. Apesar de muita gente ter criticado os excessos dos políticos nas aglomerações, a verdade é que a população aderiu a correr riscos para a sua saúde pondo a política à frente. Claro que a falta de sensibilidade para os riscos foi influente, mas o factor "política" foi predominante. Mas não foi essa a única dimensão que me sensibilizou. O factor social e económico também é muito afectado. Os rendimentos imediatos (5.000 pelo teu bilhete de identidade) ou as benesses prometidas ou expectáveis após a vitória mexem imenso com a população, principalmente a mais vulnerável, dando à política uma importância inigualável no nosso País. Uma evidência clara é a forma como divide e coloca em guerra famílias e amigos e a forma como trás ao de cima, o pior de cada um de nós. Seria fácil imputar esta responsabilidade na classe política, mas a verdade é que as teias deste comportamento estão enraizadas em quase toda a sociedade. Há famílias que anseiam pelo período eleitoral para aumentar o seu rendimento. Há famílias que no período eleitoral jogam o seu futuro social e económico. E estas ansiedades são alimentadas pelas armadas políticas.

As regras também estão claras no combate político. Eu que estou no poder digo que fiz tudo bem feito e tu que estás na oposição dizes tudo foi mal feito.....e nós que estamos na política destruímos tudo o que for indícios de bom senso ou busca da verdade. Pode parecer pesado mas no fim da linha é assim mesmo. Os movimentos de cidadania que tentam expor verdades são apoiados contextualmente pelos políticos que acham que vão beneficiar, mas serão atacados por esses mesmos políticos quando a "verdade" estiver no outro lado. Resultado, os movimentos de "não alinhados" são confrontados com agressões de ambos os campos políticos por comportamentos "políticamente incorrectos". Sinceramente este mês foi revelador para mim em relação aos extremos que estamos dispostos a ir para defender este "status quo". Ao assumirmos enquanto sociedade que a política está acima da saúde e da vida, mostramos, a meu ver uma tremenda inversão de valores. Sem que ninguém verbalizasse, foi assumido pela maioria de cabo-verdianos que aceitamos que promover aglomerações para ir a uma praia, ou a um concerto, ou a um jogo de Basket, mesmo com cuidados de distânciamento, não pode ser feito devido à "assustadora pandemia" , no entanto promover um concerto, ou aglomerações, por vezes sem Cuidados de distânciamento, é aceite se a motivação for política. Não há constituição que nos proteja, não há Presidência, nem Governo nem oposição que esteja disponível para realçar o óbvio. Este vírus não ataca somente nos eventos "não políticos". No início achei que a culpa residia na classe politica, mas a verdade é que todos esses atores políticos expressaram o seu entendimento dos valores atuais da nossa sociedade.

O que acho que todos menosprezaram é um acontecimento que está a surgir e será cada vez mais evidente. A consciêncializacão gradual da sociedade de que o mundo não começa e acaba na política e que existe sim um certo e errado que não tem que ser escrito a verde ou amarelo.

Espero que pelo menos nas suas reflexões pós eleitorais a classe política saiba interpretar na plenitude os sinais dados. É preciso evoluir na forma de fazer política. O povo está a despertar!!!

Os movimentos independentes, apesar de resultados diminutos, são um primeiro passo de uma longa caminhada para mudar o "status quo" vigente.
Há vida para além da política.

Hélio Querido Africano Varela*

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* Post publicado na sua página de faceboook

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