OPINIÃO

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Reflexões sobre elites cabo-verdianas 03 Outubro 2018

Penso que os comentários críticos que fui ouvindo sobre as Elites Cabo-verdianas radicam no facto de parecer que não conhecem bem o País profundo, e a ser assim qual será a motivação para tal comportamento? Além da sua competência técnica, as Elites Cabo-verdianas, para o estarem verdadeiramente ao serviço do País, têm que cumprir diariamente com deveres que abarcam valores, atitudes e padrões de comportamento, ou seja, trata-se de Ética, e o seu eventual sucesso na vida académica, nas profissões liberais, na área financeira, económica, social e de gestão, tem de ancorar aqui, partir daqui e retornar sempre aqui.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Reflexões sobre elites cabo-verdianas

Os comentários de três leitores ao meu artigo « O Que os Princípios e os Valores Têm a Ver com a Nossa Vida», publicado neste jornal no passado dia 1, que muito agradeço, estimulara-me a escrever este artigo.

Nas minhas já 9 idas a Cabo Verde em missões de assistência técnica ao Instituto Nacional de Estatística, a primeira em 1981e a última em 2012 fui ouvindo alguns comentários críticos sobre as Elites Caboverdianas, enquanto atores determinantes no processo do desenvolvimento de Cabo Verde.

O conceito de Elite Social possui diversas definições tais como grupo situado numa posição hierárquica superior numa dada organização e com o poder de decisão política e económica; grupo localizado numa camada hierárquica superior numa dada estratificação social; ou grupo minoritário que exerce uma dominação política sobre a maioria num sistema de poder democrático.

Mas Elite pode também ser uma referência a grupos posicionados em locais hierárquicos de diferentes instituições públicas, partidos ou organizações de classe, ou seja, pode ser entendida simplesmente como os que têm capacidade de tomar decisões políticas, económicas ou sociais com impacto nacional, podendo ainda designar as pessoas ou grupos capazes de formar e difundir opiniões que servem como referência para os demais membros da Sociedade, e neste caso Elite seria um sinónimo tanto para liderança como para formadores de opinião.

Neste contexto penso que os comentários críticos que fui ouvindo sobre as Elites Caboverdianas radicam no facto de parecer que não conhecem bem o País profundo, e a ser assim qual será a motivação para tal comportamento? Além da sua competência técnica, as Elites Caboverdianas, para o estarem verdadeiramente ao serviço do País, têm que cumprir diariamente com deveres que abarcam valores, atitudes e padrões de comportamento, ou seja, trata-se de Ética, e o seu eventual sucesso na vida académica, nas profissões liberais, na área financeira, económica, social e de gestão, tem de ancorar aqui, partir daqui e retornar sempre aqui.

Penso que o povo não pode deixar de pensar que os seus concidadãos que constituem as Elites Caboverdianas são os únicos que podem ser chamados a desempenhar um "serviço público", um "serviço cívico", como que uma "comissão de serviço", em nome da responsabilidade da cidadania e do sentido de Estado no sentido mais profundo de solidariedade nacional.

Mas para isso as Elites Caboverdianas devem eleger uma causa de conduta verdadeiramente nacional, como por exemplo uma reforma da Administração Pública capaz de transformar uma administração poder numa administração prestadora de serviço, capaz de ser eficaz e útil, porque a Administração Pública deve ser útil e não um peso inútil.

Na verdade, a Administração Pública é em Cabo Verde o setor que apresenta maior oferta de serviços aos cidadãos, e como tal deve dedicar uma atenção particular ao grau de satisfação dos seus utentes, pois estes assumem o duplo papel de contribuintes e beneficiários do serviço público, tendo presente que o cidadão contribuinte paga, através dos seus impostos, o funcionamento da Administração Pública, sendo legítimo que quando necessita dos Serviços Públicos exija qualidade nos serviços que estes lhe prestam.

Acresce que em Cabo Verde é na Administração Pública que se encontra uma parte significativa das Elites Nacionais, mas cujo bom funcionamento dos respetivos Serviços depende em larga medida dos Políticos na governação.

De facto, em todos os países os dirigentes públicos dependem de Políticos, não de acionistas, pelo que os Políticos que afirmam lutar pelo reforço e consolidação da Democracia devem meditar seriamente nas consequências desastrosas que poderiam advir para a Democracia se as seguintes ideias prevalecessem na opinião pública: a) Os Políticos lutam pela conquista do poder para, uma vez alcançado, estarem sempre a explicar que não têm assim tanto poder; b) Há Políticos que só se sentem bem no interior do seu próprio Partido, como um agrupamento de indivíduos para a discussão abstrata de ideias e elevação concreta de alguns dos seus membros.
É, pois, imperioso que as Elites Caboverdianas desempenhem um serviço público de solidariedade nacional, e para lá da causa subjacente impõe-se que assumam verdadeiramente a responsabilidade social da sua existência perante o povo que dizem pretender servir.

Assim, também por isto, a Democracia Multipartidária é um bem supremo do Povo, que assenta na aceitação do pensamento divergente que é um valor fundamental das sociedades democráticas caracterizadas pela capacidade de lidar pacificamente com conflitos, e preocupadas com a procura do rigor e as atividades de reflexão, numa dimensão cultural alargada onde, a par da defesa dos valores de cultura própria, se procura o diálogo entre as expressões políticas, culturais, económicas e sociais diferenciadas, embora o conflito possa ter sentido pejorativo, mas divergir é inerente às sociedades democráticas que respeitam o pensamento divergente, isto é, os vários discursos, sendo o conflito resolvido pelo confronto de opiniões.

Mas porque tanto quanto julgo saber os jovens de Cabo Verde estão a desistir de estudar deixando a Escola talvez por falta de estímulo dos pais ou porque simplesmente não acham as aulas interessantes, o que não propicia a criação de mais Elites que são necessárias para acelerar e consolidar o desenvolvimento do País, apresento algumas reflexões sobre a necessidade estimular os jovens para estudarem.

Com base nos Recenseamentos da População de Cabo Verde realizados em 1980, 1990, 2000 e 2010 abordo alguns aspetos da matriz social de Cabo Verde.

Publicados os dados do Recenseamento de 2010 os órgãos de comunicação social Caboverdianos, de acordo com a respetiva sensibilidade editorial, comentaram os respetivos resultados abordando alguns aspetos positivos e negativos da realidade Caboverdiana neste começo do 3º milénio, mas, tanto quanto pude saber, não deram relevo à Taxa de Analfabetismo e à Taxa de Universitários Diplomados enquanto fatores determinantes do processo de desenvolvimento de Cabo Verde.

A Taxa de Analfabetismo exprime a percentagem da população que não sabe ler nem escrever sobre a população com 15 e mais anos, e a Taxa de Universitários Diplomados exprime a percentagem da população possuidora de um curso superior universitário sobre a população com 25 e mais anos.

A Taxa de Analfabetismo de Cabo Verde tem tido a seguinte evolução: 63% em 1975 [data da Independência], 48,8% em 1980, 37,2% em 1990, 25,2% em 2000, e 17,2% em 2010, sendo notória a sua redução progressiva e, sobretudo, ser já só 3,1% para a população com idades entre os 15 e 24 anos.

Contudo, por probidade intelectual, impõe-se refletir sobre qual seria a Taxa de Analfabetismo se o conceito usado nos Recenseamentos integrasse, além dos indivíduos que não sabem ler e escrever, os que sabendo ler e escrever, não sabem interpretar um texto corrente e efetuar um cálculo mesmo que simples, o que traduz o conceito de Analfabetismo Funcional.

A Taxa de Universitários Diplomados tem tido a seguinte evolução: 1,6% em 1990, 2,4% em 2000, e 7,6% em 2010, indiciando o surgimento progressivo, mas ainda insuficiente, de mais Elites políticas, económicas, sociais e culturais que são fundamentais para acelerar ainda mais o processo do desenvolvimento do País.

Penso ser consensual que o Analfabetismo é um dos fatores que dificulta a capacitação para acelerar o processo de desenvolvimento face às mutações a que o País está sujeito, agora mais que nunca pela mundialização dos problemas e, sobretudo, das respetivas soluções, cuja análise não pode centrar-se sobre aspetos parcelares e sem relevar a diferença dos conceitos de desenvolvimento e crescimento, já de si de extremas algo difusas.

Face ao que precede, impondo-se que os jovens Caboverdianos prossigam os estudos apresento algumas medidas para os estimular e motivar para tal.

Muitos pais enfrentam o dilema de querer que os filhos estudem, pois sabem que é essencial para o seu futuro, mas os jovens oferecem resistência, porque ainda não conseguem ter essa visão. Na verdade, eles estão focados no presente, período em que a diversão tende a falar mais alto. Mas esse cenário leva-nos a pergunta como motivar os jovens a estudar?

Na prática (e na maioria das vezes) essa motivação não surge sozinha, sendo os pais responsáveis por despertar os filhos para a importância e o prazer dos estudos, e neste sentido apresento algumas medidas para que os pais consigam motivar os seus filhos a estudar.

Sendo provável que os filhos estejam passando por uma forte turbulência, o que é normal durante a adolescência, período de transição em que os jovens começam a definir sua própria identidade. Por isso, demonstrar uma atitude negativa não vai ajudar, pelo contrário, aliás, essa postura só acrescenta mais pressão sobre os filhos, podendo piorar o seu desempenho ou até fazer com que desistam dos estudos. O ideal é demonstrar apoio e confiança, encorajando-os e criando o hábito de lhes dizer acreditam na capacidade dos filhos.

Um dos fatores que mais desmotivam os adolescentes em relação aos estudos é a aparente falta de aplicação prática, sendo possível que os pais já tenham escutado: "mas para que eu vou usar isso?" mas esta é uma oportunidade para os pais motivarem os filhos a estudarem, devendo aproveitar para lhes explicar que o estudar é necessário para construir um futuro melhor. Mas co os jovens ainda não pensam muito sobre o futuro, precisam de metas de curto prazo e para isso os pais devem focar a atenção deles em algo mais próximo, como as notas o bimestre. Além disso devem evitar criar metas como estudar toda a tarde, porque isso não é realista, tampouco compatível com o estilo de vida que os jovens realmente desejam ter, mas não cedendo a todos os seus desejos, sendo preciso sim encontrar um equilíbrio.

Os jovens precisam de entender que não existe gratificação material instantânea pelo êxito nos estudos. Os frutos poderão sim ser colhidos, mas só anos depois, deixando claro que muitas vezes a recompensa nem é tangível, palpável, surgindo simplesmente como o benefício de poder realizar seu trabalho com mais qualidade e segurança.

Na realidade, é muito fácil dizer aos filhos adolescentes que não estudam porque são preguiçosos e só querem divertir-se. Mas será que algo mais lhes está acontecendo e os pais nem sabem? Por isso, uma das principais tarefas dos pais é, antes de mais nada, entender o que acontece com os filhos, e para isso perguntem-lhes como está sendo a escola e a relação com os colegas; estreitem a relação com os professores que podem dar informações valiosas; conversem com os pais de colegas adolescentes dos filhos e aprenda com a experiência alheia.

Motivar os estudos dos filhos só é possível se os pais souberem o que está causando a desmotivação dos filhos.

Lisboa, 2 de Outubro de 2018
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*Estaticista Oficial Aposentado – Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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