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Reino Unido: Norte-coreana "fugitiva à ’Grande Fome’, traficada na China, deportada para campo de trabalho e torturada" é candidata a autarca do partido de Boris Johnson 29 Mar�o 2021

Candidata nas Autárquicas de maio pelo Partido Conservador, é a primeira norte-coreana a participar numa eleição no Reino Unido, onde obteve em 2008 o estatuto de refugiada. Aos 52 anos, Jihyun Park é não só uma sobrevivente da ’Grande Fome’ "jamais noticiada" que entre 1994-98 matou vários membros da sua família mas também do tráfico humano na China. Repatriada para a Coreia do Norte, foi internada num campo de trabalho de onde só saiu quando foi dada por moribunda.

Reino Unido: Norte-coreana

As Autárquicas de maio na região de Holyrood em Bury, na área metropolitana de Manchester, têm entre os concorrentes dos três partidos — Trabalhista, Liberal e Conservador — a professora Jihyun Park que desde que se fixou na região em 2008 tem ajudado à integração de imigrantes.

É sob a sigla do Partido Conservador que Jihyun Park disputa o poder local, em nome da defesa dos direitos dos imigrantes, em especial dos seus conterrâneos "muitos deles refugiados do regime dos Kim" da Coreia do Norte.

A opção por um partido minoritário num círculo eleitoral dominado pelos liberais, Park justifica-a assim: "Fugi à brutalidade do socialismo comunista, logo só podia filiar-me nos ’Tories’.

Aos 52 anos, a Jihyun é uma multi-sobrevivente. Primeiro, da "oculta e não-noticiada" fome de 1994-98, a ’Grande Fome’, que matou vários membros da sua família. No país de 22 milhões, a fome dizimou até à morte um número calculado entre um milhão e 3,5 milhões dos de norte-coreanos.

Entre as causas da tragédia — calcula-se que mais de 10 por cento da população norte-coreana entre 1994 e 1998 morreu de fome — são apontados fatores como a má gestão económica sob a ditadura dinástica do 2º Kim, ou a paralisação da exportação chinesa para o país vizinho, sobretudo em 1997.

Mas o principal fator dessa tragédia da fome está sobretudo na paralisação da ajuda soviética para o país ideologicamente próximo, após o desmembramento das repúblicas da URSS a partir dos anos de 1990.

Traficada a fugir da fome

Em 2015 Jihyun Park começou a falar em público sobre a sua terrível saga. Relatou que à beira da morte em 1998, o pai pediu-lhe que fugisse e levasse o irmão, mais novo, desertor do exército. Assim fez, integrada numa leva de fugitivos que conseguiu atravessar a fronteira contígua com a China.

Mas à chegada à China foi separada do irmão — de quem "até hoje" nunca mais soube, confessou. Ela foi entregue para o tráfico humano na China, onde estatísticas dão conta que mais de 88 por cento das norte-coreanas fugitivas são "vendidas como escrava" a um chinês. Dada "a política demográfica do filho único, a proporção entre mulheres e homens é de 2 para 3, o que obriga muitos homens a recorrer ao mercado negro para ter uma mulher".

O mesmo aconteceu à Jihyun Park fugitiva da fome. Separada do irmão, foi "tratada como escrava durante anos" pelo chinês, um camponês "alcoólico e viciado no jogo", que pagou o equivalente a 65 mil escudos ao traficante.

Deportação e trabalho forçado

Em vão tentou obter o estatuto de refugiada na China, país aliado do regime dos Kim da Coreia do Norte. em 2004, e já mãe dum menino, foi deportada para a Coreia do Norte. Para trás ficou o filho.

Condenada a trabalhos forçados, sofreu "todo o tipo de torturas", a tal ponto que em 2004 "f[o]i dada como moribunda após contrair uma gangrena". Foi então retirada do campo de concentração para poder morrer no exterior e não ser mais um número nas estatísticas dos óbitos do sistema penal norte-coreano.

Um estrangeiro bom

Teve mais uma chance de sobreviver quando ajudada por um "estrangeiro bondoso" — com quem veio a casar anos depois — recuperou da gangrena e conseguiu voltar à China em busca do filho.

Com a ajuda das Nações Unidas na capital chinesa, "a família conseguiu emigrar para o Reino Unido".

Fontes: BBC/DW/Manchester Evening News. Foto: A multi-sobrevivente Jihyun Park fugitiva da fome, traficada, deportada, torturada, deixada para morrer, mas também agraciada com "um lugar no paraíso", diz, e agora com a missão de ajudar os imigrantes norte-coreanos no Reino Unido.

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