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Reportagem/São Vicente: “Manú”, o artesão que vê o contexto pandémico como momento para inovar e transformar as peças de barro em algo utilitário, apesar de obstáculos 26 Junho 2021

Para além de dar continuidade ao legado do pai, Emanuel Soares “Manu” soube enxergar o momento ideal para criar, transformar, inovar e trazer peças que sejam feitas para serem utilizadas, apostando numa textura que seja capaz de puxar o interesse que quem passa pelo seu Ateliê, no Centro Social da Ribeira Bote, em São Vicente. Desde sempre o gosto em tocar no barro manteve-se através da dedicação e da criatividade. Manu não vê a pandemia como algo que iria ser capaz de deitar por terra tudo aquilo que o pai (Jorge Soares ,“Mestre Djoy Soares”, falecido há três anos) construiu. Os tempos atribulados de muita produção já se foram, mas tem havido tempo para repensar a forma como o jovem quer fazer as coisas e torná-las mais interessantes e bonitas.

Por: Arménia Chantre/Redação

Reportagem/São Vicente: “Manú”, o artesão que vê o contexto pandémico como momento para inovar e transformar as peças de barro em algo utilitário, apesar de obstáculos

Residente no Mindelo, este jovem de 35 anos, que desde muito cedo aprendeu a manusear o barro com a ajuda do pai, diz que houve tempos que os pedidos não paravam de chegar e que não havia tempo para descansar.

A arte de dar forma ao barro sempre fez parte da sua família, através do pai “Djoy”, que era muito conhecido nesta atividade que se prolonga desde 1994 com a abertura do seu ateliê de cerâmica.

Este trabalho que inicialmente era considerado um hobbie para Manu, passou a ser uma atividade que dá prazer em fazer e continuar o legado do pai Djoy.

Manu aponta que, devido a situação de pandemia, as vendas já não são como dantes. “As vendas diminuíram. Antes da pandemia, as encomendas eram durante o ano e estávamos a produzir mais e os pedidos eram muitos”, explica o jovem que, no entanto, não deixa de ver o lado positivo desta doença, quando se fala em ter mais tempo para “exploração e criação de novas técnicas”. Técnicas essas como a Bubbles Glaze, que consiste em criar uma textura parecida com borbulhas.

Qualidade e custo das obras

Segundo ele, a continuada comparação de preços entre o trabalho feito manualmente e os produtos das lojas chinesas é um problema. “É um produto feito artesanalmente, mas que as pessoas acham os preços muito altos. Infelizmente, as pessoas não conhecem o processo que está por detrás de um trabalho bem feito. Muitas vezes tentam comparar os preços das lojas chinesas, que são mais baixos, com os nossos preços”, lamenta a mesma fonte.

Explica que todo o processo de produção é um turbilhão de gastos, principalmente quando se refere ao único forno elétrico que o Atelie dispõe e que para atingir a dureza necessária da peça de barro são necessárias altas temperaturas (930 graus), no mínimo 17 horas e máximo 20 horas, sem contar que de seguida é aplicado o vidrado na peça, o que implica mais cerca de 10 horas no forno.

Para a fonte, é necessário um preço que justifique todos os gastos, o esforço, e o tempo necessário para se chegar a um produto de qualidade.

O mesmo explica que, a matéria-prima, neste caso o barro, é extraída nas zonas de Pico da Cruz em Santo Antão e de Quilometro 6 em São Vicente. De França, através de um familiar, vem o Vidrado branco e transparente, que anteriormente era pedido 100 a 150kg, mas que agora houve uma redução de 10 a 15 kg.

Diante de vários obstáculos, este artesão diz que é sempre uma “enorme satisfação ver nosso produto final, depois de passar por vários processos que não são nada fáceis”.

Neste momento, este jovem faz todo o trabalho juntamente com um outro colega, para dar resposta às encomendas.

Marcas da cultura e legado do mestre Djaoy Soares

As tradicionais peças, que representam a marca da cultura cabo-verdiana, são os bonecos de barro, reconstituindo figuras típicas do país, como os tamboreiros, vendedores, músicos, tartarugas, o arquipélago, entre outros, mas que também se está a produzir outras peças parecidas com louça.

No entanto, garante que as novas peças estão a ter uma boa aceitação e que tem havido pedidos.

No futuro, a ideia é, segundo Emanuel, criar um serviço de mesa composta por várias peças, já que neste momento produzem conjuntos de pratos, e enveredar também pela produção de vasos de tamanhos diversos, e almeja também adquirir um outro forno para dar vazão aos pedidos.

Recorde-se que, Jorge Soares “Mestre Djoy Soares”, falecido há três anos, foi instrutor de formações em São Vicente no próprio Atelier Mar, M_EIA, IUE, Cruz Vermelha e em Santiago, Centro de Artes e Ofícios, em Traz Di Munti. Já participou em varias feiras nacionais e representou Cabo Verde em algumas feiras internacionais (Portugal, Luxemburgo, Macau, etc).
AC/Redação

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