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Rosto de Torga 1º ’Prémio Camões’ esculpido em raiz de três toneladas — "Plantem uma árvore nova", pede filha "desolada" 20 Agosto 2020

A escultura encomendada pelo presidente da Junta de São Martinho da Anta para assinalar o 12 de agosto, dia em que nasceu o escritor e médico Adolfo Correia da Rocha, com o pseudónimo literário Miguel Torga, desagradou à filha: "A intervenção na raiz do negrilho é uma profanação duma bela raiz centenária, duma obra da natureza que deveria ser exposta tal como era", lamenta Clara Crabbé Rocha.

Rosto de Torga 1º ’Prémio Camões’ esculpido em raiz de três toneladas —

Miguel Torga destacou-se na poesia e no conto — ’Contos da Montanha’, obra de referência no ensino, com o seu impagável ’Malhadinhas’ —, mas também escreveu romances, peças de teatro e ensaios.

Foi o agraciado da primeira edição do Prémio Camões, em 1989, enquanto um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. A sua obra "traduzida em cerca de 20 línguas" continua a ser lida em Portugal e Países Lusófonos e no estrangeiro.

Entre as suas obras, destaca-se o poema "A um negrilho" —inserido num dos seus diários — que é todo ele um diálogo com a árvore.

Para Torga a árvore negrilho é o primeiro poeta de São Martinho de Anta, é a raiz que alimenta a sua poesia: "Na terra onde nasci há um só poeta. Os meus versos são folhas dos seus ramos. Quando chego de longe e conversamos, É ele que me revela o mundo visitado. Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada, E a luz do sol aceso ou apagado É nos seus olhos que se vê pousada. Esse poeta és tu, mestre da inquietação Serena! Tu, imortal avena Que harmonizas o vento e adormeces o imenso Redil de estrelas ao luar maninho. Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!"

’Momento de glória’ do autarca ’expôs ao ridículo’ a vila natal do poeta

A filha do escritor disse à Lusa, apontando o dedo ao autarca que ela e outras pessoas "tent[aram] demover": "[E]stou desolada com a intervenção que a Junta de São Martinho de Anta decidiu fazer na raiz do negrilho" e que "exp[ôs] São Martinho de Anta ao ridículo", disse Clara Rocha.

A catedrática de literatura portuguesa do século XX na universidade de Coimbra — e como tal, membro do júri que atribuiu o Prémio Camões 2013 a Mia Couto — acrescentou que quem decidiu "homenagear Miguel Torga e assinalar o seu aniversário desta triste forma, não leu a sua obra". "Todos sabemos que a melhor maneira de homenagear um escritor é lê-lo e dá-lo a ler".

Clara Crabbé Rocha afirmou que, "se Miguel Torga fosse vivo, indignado com este atentado ao bom senso e ao bom gosto, pediria que acabassem de vez com esta triste história e que plantassem, no largo, um negrilho novo para as gerações futuras, o que ele próprio tentou fazer em vida".

"Felizmente", na sua opinião, São Martinho de Anta "tem o privilégio de ter um Espaço Miguel Torga, obra da autoria dum Prémio Pritzker de Arquitetura, Souto Moura".

A professora Clara Rocha enalteceu o Espaço MT que tem uma "programação cultural muito dinâmica e sempre variada, graças à dedicação do seu diretor e dos seus colaboradores". Como lembrou, em janeiro, foi ali apresentado, por ocasião dos "25 anos da morte de Miguel Torga e com a presença do Presidente da República, o livro "Cartas para Miguel Torga", que em breve vai ser reeditado.

O presidente da Junta de São Martinho de Anta, José Gonçalves, disse à Lusa que a raiz "estava a entrar em podridão", pelo que "foi preciso agir o mais rápido possível" e optar em torná-la numa escultura do rosto do escritor.

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Fotos: O escultor Óscar Rodrigues trabalhou uma raiz de negrilho — variedade de carvalho predominante na região transmontana —com uso de motosserra e finalização com verniz.

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