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Rúben Semedo revolta-se com alegada associação de cabo-verdianos a "gentalha", feita por advogada da TVI a comentar caso Luís Giovani 10 Janeiro 2020

Rúben Semedo começa por perguntar à advogada se «consegue explicar porque caracteriza os cabo verdianos de ‘gentalha’». O futebolista internacional a jogar agora pelo Olympiacos, utilizou o Instagram para criticar as declarações de Suzana Garcia no programa da TVI ’Você na TV’ e pedir respeito pelo "luto de quem perdeu um ente querido".

Rúben Semedo revolta-se com alegada associação de cabo-verdianos a

No Twitter de Rúben Semedo, lê-se: “@suzana_garcia consegue me explicar porque caracteriza os cabo verdianos de ‘gentalha’?? Uma pessoa com as suas faculdades literárias deveria ter um pouco mais de ética e RESPEITO, mas também não a recrimino porque é do meu entendimento que a palavra RESPEITO não existe no seu dicionário!! Aguarda a sua resposta e ‘tente’ pelo menos RESPEITAR o luto de quem perdeu um ente querido”, escreveu o jogador.

Rúben Semedo, com mais ou menos exatidão vocabular, reagia assim ao comentário que a advogada portuguesa fez na rubrica Crónica Criminal, do programa da TVI "Você na TV".

Durante o programa, Suzana Garcia disse: "Se eu exijo que os cidadãos que têm origens noutros países tenham os mesmos direitos e os mesmos deveres que os portugueses têm, eu não posso depois exigir um tratamento muito especialzinho para quando um deles sofre um crime hediondo como este”, começou por dizer.

Ao discordar da alegação de que não foi um caso "muito falado na comunicação social", a advogada disse: "Primeiro, falou-se. Não se falou foi histericamente como esta gentalha queria que se falasse. Segundo, as festividades estavam a acontecer quando tivemos notícia do facto".

O termo gentalha tornou-se o centro da questão! Pela primeira vez escrita há quase três séculos — andaria desde tempos sem registo na boca dos portugueses, até que o dicionário monumental, que um brasileiro compilou durante décadas, registou em forma perene o substantivo derivado de "gente" mas ao qual o sufixo -alha dá o valor pejorativo, a significar "pessoas sem carácter moral e ou social".

A advogada prosseguiu: "Quando um branco foi morto pelos pretos não suscitámos aqui nenhum incidente racista, não dissemos nada. Da mesma forma, nada tínhamos que dizer só porque a vítima foi um preto".

Em Portugal, acrescentou, o povo não é racista: "Nós temos incidentes racistas em Portugal como o mundo inteiro tem, mas não somos um povo racista", rematou.

’Será mesmo que ela se referia aos cabo-verdianos?’ — Pergunta-se em Cabo Verde

O comentário da advogada em pauta não difere do tratamento que ela dá aos temas. Não só a tecnicidade mas também a verdade são sacrificadas ao imediatismo do show televisivo.

Isso tem levado a que o programa Você na TV! seja apontado, segundo uma boa parte da sociedade portuguesa, por abrir espaço em antena para um discurso que consideram populista e xenófobo.

A intervenção na segunda-feira, 6, enquadra-se na crítica ao dirigente do SOS Racismo, Mamadou Ba, que em entrevista ao Noticias ao Minuto, tinha afirmado: "O silêncio sobre a morte de Luís é revelador do racismo que existe em Portugal (…) Imaginemos que tinha sido um jovem branco a ser espancado por 15 jovens negros e que essas agressões resultassem numa morte. Teríamos o país inteiro mobilizado, indignado, a exigir Justiça e o apuramento das responsabilidades".

Suzana Garcia contradiz a ideia de que não houve mediatização, de que não foi um caso "muito falado na comunicação social": — "Primeiro, falou-se. Não se falou foi histericamente como esta gentalha queria que se falasse.

Continuou: "Não tenho paciência para parasitas da sociedade que vivem estigmatizando questões que, na realidade, não existem (…) O senhor Mamadou Ba não tem nenhuma utilidade social para Portugal, pelo contrário, tem uma existência perniciosa para todos nós portugueses e ainda não vi qual é a autoridade dele".

A advogada comentadora habitual no programa tem os seus seguidores e detractores, afirma-se aqui. O apresentador Luís Goucha, que trata todos os temas do mesmo modo, como um show – e a mais não é obrigado, dada a guerra de audiências, idem.

O espectáculo do mundo é sempre complexo, mas duma complexidade que pode ser distorcida para se tornar incompreensível quando só se mostra uma perspetiva. E é isso que a população ávida de espectáculo, no seu pior sentido, consome.

Consome porque está disponível e está disponível porque há muita procura, pelo consumidor — olhemo-nos no espelho.

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