OPINIÃO

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Sal: A arte de vender banha de cobra, passar gato por lebre e silenciar consciências 06 Agosto 2020

Até quando Djâ d’ Sal? Para onde voou aquela nossa veia de cidadãos de corpo inteiro que tinha iniciativa, pegava e fazia, não se deixava subjugar e não baixava a cabeça perante poder constituído nenhum, apesar de respeitador das leis e cumpridor dos seus deveres? O momento reclama e clama por uma cidadania mais ativa, consciente, sintonizada com os grandes desafios do momento, assente na capacidade de realizar, colaborar, contribuir, solidarizar, mas também reivindicar, exigir, indignar-se …

Por: Varela Zenno

Sal: A arte de vender banha de cobra, passar gato por lebre e silenciar consciências

Sal: A arte de vender banha de cobra, passar gato por lebre e silenciar consciências

QUE É FEITO DO PROGRAMA ELEITORAL

Nestes tempos de Pandemia, em que as pessoas e as instituições deviam estar mais preocupadas e voltadas para a preservação da saúde, a segurança sanitária, e a salvaguarda dos postos de trabalho, verifica-se, com o aproximar das Eleições Autárquicas, um lançamento desenfreado de primeiras, segundas e terceiras pedras, um inaugurar de ruas, ruelas, pracetas, seguido de ofertas de verguinhas, cimento, sem se preocuparem se cumpriram ou não com o Programa, apresentado e sufragado pelos Eleitores, há sensivelmente quatro anos.
Começamos por questionar:

1-Onde foi parar, o Programa de Erradicação das Barracas em quatro anos, quando elas proliferam todos os dias, com os Bairro de Alto Santa Cruz, Bairro do Alto S. João, Bairro Alto Rocha, Bairro Alto Mondeille, Bairro Algodoeiro, Bairro Norte S. Paulo, Bairro Cabeça de Caftadja, Bairro de Vila Verde, Bairro de Fortim, Bairro de Pedrera de Fátima, todos crescendo a olhos vistos, sem qualquer limite, sem condições de salubridade, de higiene, de condições de vida, servindo apenas para nos tempos de campanha explorar a consciência dos seus habitantes com promessas e mais promessas?

R. Enquanto isso, o Complexo CASA PARA TODOS, continua de portas fechadas e os jovens a viverem sem condições.

2-Onde foi parar, o tão badalado Projecto da Circular do Sal, que ia facilitar o conhecimento dos lugares e a volta à ilha com mais conforto e segurança, um troféu de campanha que não passou de conversa para boi dormir?

R. Enquanto isso, a estrada de Espargos / Santa Maria e a Avenida dos Hotéis estão todas esburacadas, pondo em perigo a segurança das pessoas e bens.

3-Onde foi parar, o tão anunciado Projecto de Construção das Casas no Alto de Fátima, para alojamento dos funcionários dos Hotéis de Santa Maria, um ponto de honra que até já tinha um parceiro identificado, representado no Acto de apresentação pública do Projecto, por ironia do destino, pelo actual Ministro do Turismo e Transportes, na época, também Presidente da Assembleia Municipal e Director Geral da Empresa dita parceira?

R. Enquanto isso, os jovens continuam, sem condições de habitabilidade a morar em circunstâncias difíceis e sem possibilidade de ter casa própria.

4-Onde foi parar, o SUBSÍDIO que seria mensalmente distribuído aos TRABALHADORES DOS HOTEIS, como complemento ao seu baixo salário, uma promessa, ou, como se dizia na altura, compromisso assumido e firmado?

R. Enquanto isso, os trabalhadores dos Hotéis vêm recebendo cartas de despedimento, e a passar por sérias dificuldades na sua vida, sentindo-se obrigados a retornar, em condições nem sempre adequadas e dignas, às ilhas de origem onde contam com o apoio das famílias.

5-Onde foi parar, o Projecto de Requalificação da Pracinha de Quebrod, que foi apresentado em imagens 3D, em todas as redes sociais?

R. Enquanto isso, assistimos a uma desenfreada propaganda, e ao esquecimento total do Programa Eleitoral apresentado.

6-Onde foi parar, o Projecto de requalificação do Campo de Cifrão, apresentado também em 3D, com pompa e circunstância, enganando os jovens da Ribeira Funda, projecto esse sem financiamento?

R. Enquanto isso, muita dessa verba é supostamente desviada para construção da Sede do Partido no Poder e ninguém parece ter questionamento nenhum a fazer, nem mesmo a oposição democrática local.

Covid-19 devasta turismo e poder local em marketing e novelas

7-Onde foi parar, o propalado Projecto de Restauração do Teleférico da Pedra de Lume, que até tinha orçamento e financiamento, no valor de 77 mil contos, e que mereceu um anúncio solene por parte do Senhor Ministro da Cultura?

R. Enquanto isso o Património edificado da Pedra de Lume vai sendo destruído pelo tempo, pela inércia e desinteresse dos poderes públicos e pela ação mercantilista com que Pedra de Lume e o seu Património natural e edificado vai sendo abordado, perdendo a Ilha do Sal e o País uma parte importante da nossa história e cultura.

8-Nestes tempos de Campanha, tira-se da cartola o coelho da salvação de Pedra de Lume, e faz-se aprovar na Assembleia, com pompa e circunstância, uma Autorização para se estabelecer um Protocolo com o chamado Investidor, o pretenso dono, com contornos pouco claros.

9-Sem Protocolo assinado, sem ter o POT de Pedra de Lume homologado pelo Governo, (uma ZDTI), sem PDU elaborado e aprovado pela Assembleia Municipal, sem Projecto elaborado e aprovado, sem FINANCIAMENTO garantido, sem tradução orçamental nem qualquer manifestação de vontade de recorrer aos meios adequados para clarificar a situação jurídica da propriedade nesta importante parcela do território da pequena ilha do Sal, um belo dia acorda o Presidente e envia um SMS ao seu staff, telefona aos já conhecidos cabos de serviço, intima as câmaras de televisão e, toca a marchar para Pedra de Lume, com as mãos a abanar, e os bolsos cheios de promessas ocas.

R. Enquanto isso, a Pandemia toma conta do Sal, e já nem somos escolhidos para receber voos essenciais, em detrimentos das ilhas de S. Vicente e Santiago. Mas isso não parece incomodar ninguém. Ninguém reage, ninguém se indigna face a tão grave inversão de prioridades numa ilha que vive do turismo e da aviação civil, essencialmente.

R. Enquanto isso, os Hotéis vão entregando CARTAS DE DESPEDIMENTO a jovens e Chefes de família em pânico, a ilha vai assistindo ao adiamento da retoma económica e as perspectivas de regresso à normalidade a distanciarem no horizonte.
Bem, a telenovela, pensada numa noite de insónia pelo Sr. Presidente da CM do Sal, cujo primeiro capítulo foi exibido, em regime de urgência, num fim de tarde em Pedra de Lume, com desenvolvimentos nos parlamentos local e nacional, terminou assim: “Meus amigos, senhores aqui presentes, este é o acto de lançamento o Campo de Futebol da Pedra de Lume, mas como sabem ainda não podemos arrancar porque não temos projecto, nem financiamento e não estamos certos se o Protocolo vai ser assinado com o Investidor, e depois vamos ver se o IPC e o Governo concordam com a nossa ideia”. “Ok minha gente, o que acabaram de assistir foi apenas uma telenovela, inserida no meu Plano de Marketing de Campanha”, e obrigado pela vossa presença.
Para terminar, digo que estamos a conseguir enganar as pessoas. Obrigado”

E assim vamos…, consumindo alegremente telenovelas e curtas-metragens desse teor, silenciando-nos para que nos seja ‘concedido’ “aquele tracto de terreno ou aquela licença de construção e, quem sabe, umas verguinhas e uns sacos de cimento para deitar mais um piso e melhorar de vida, alargar o nosso pátio para dentro do terreno destinada nos planos a espaços verdes, ou fazer mais um puxadinho no terraço, sem ser chateado pelo Gabinete Técnico”, “ser agraciado com aquela vaga com subsidio para o meu filho estudar lá fora”, “obter a licença de táxi que sempre sonhei e, se me portar bem, talvez consiga também “uma ajudazinha para comprar o táxi“, “mais um ‘apoio’ para o meu projecto empresarial ou cultural”… Mas, para que tal seja possível, o silêncio, o encolher dos ombros, o “ka nada k’mim”, são de ouro, a não ser para dizer “Obrigada Sr. Presidente, não me esquecerei de ti no dia do Juízo Final”.

Djâ d’ Sal: Hora de exigir, indignar-se ...

Até quando Djâ d’ Sal? Para onde voou aquela nossa veia de cidadãos de corpo inteiro que tinha iniciativa, pegava e fazia, não se deixava subjugar e não baixava a cabeça perante poder constituído nenhum, apesar de respeitador das leis e cumpridor dos seus deveres? O momento reclama e clama por uma cidadania mais ativa, consciente, sintonizada com os grandes desafios do momento, assente na capacidade de realizar, colaborar, contribuir, solidarizar, mas também reivindicar, exigir, indignar-se …
Obrigado.

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