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Reportagem São Vicente/Sal: Condutores de táxis e hiaces lançam SOS e relatam dificuldades enfrentadas por causa da pandemia covid-19 22 Fevereiro 2021

O SOS está lançado. A intervenção precisa-se face ao impato devastador da pandemia de Covid-19 na economia nacional, especialmente em São Vicente e no Sal. Tal como em outros setores de atividade, a situação se tornou mais complicada para os condutores de taxis e hiaces dessas duas ilhas da região norte de Cabo Verde. Com a redução da atividade empresarial, com destaque para a área do turismo, o rendimento baixou drasticamente com a escassez de passageiros, causando grandes prejuízos para esses profissionais. Para os homens de volante, a situação agrava-se com a ameaça dos proprietários dos transportes coletivos de passageiros de os despedir do trabalho por falta de movimento.

Reportagem São Vicente/Sal: Condutores de táxis e hiaces lançam SOS e relatam dificuldades enfrentadas por causa da pandemia covid-19

Conforme apurou a reportagem do Asemanonline, em São Vicente os tempos já foram outros no tocante ao transporte de passageiros. Taxistas ouvidos por este jornal (ver fotos nesta peça) revelam que enfrentam, neste momento, uma quebra considerável nas receitas. Muitos declaram que estão a aguentar, até onde é possível suportar, com um mínimo rendimento possível. Denunciam que alguns proprietários, já sem alternativas, recorrem agora a despedimento de condutores, alegando falta de movimento e receitas.

Situação de desespero em São Vicente

Em conversa ao Asemanaonline, alguns taxistas disponibilizam-se para falar daquilo que lhes aflige. Mas não escondem que a atual «situação é desesperadora», mas que mesmo assim vem ganhando mais força para a contornar no dia-a-dia.

Segundo as mesmas fontes, o tráfego de táxis diminuiu muito, porque as pessoas estão a circular cada vez menos e praticamente não há turistas. Muitas vezes ao invés de perder um cliente preferem negociar preços, pois é a única forma de ganhar dinheiro mesmo que seja pouco.

É uma situação complicada, assim definida por Fredilson Delgado, que há vários anos exerce esta profissão. O mesmo conta que, entrar as 7h da manhã e entregar o carro as 17h, requer também entregar ao proprietário do carro, no mínimo, 3 mil escudos. Valor esse que nem sempre se consegue obter até, por exemplo, âs 15h. Adianta ainda que, muitos colegas já foram despedidos porque “não estão a atingir pelo menos 3 mil escudos”. “Anteriormente erámos dois taxistas neste veículo, mas com está situação meu colega foi despedido e eu fiquei. É de lamentar”, conta Fredilson, com uma certa tristeza.

Delgado fundamenta que tem família e precisa trabalhar. Acrescenta que, nas épocas altas, o sentimento era outro. “No natal, fim de ano, carnaval, nos festivais estávamos mais satisfeitos porque levávamos sempre algo mais para casa”, acrescenta. A juntar-se aos impostos e ao combustível, está a situação das estradas da ilha que para o jovem taxista “têm causado algum prejuízo, e precisam ser tratadas porque é mais uma despesa”.

Enumera que a ausência de turistas é também um dos fatores a ditar a situação desses profissionais. O taxista salienta que, anteriormente, os hotéis, residenciais, entre outras empresas, requisitavam sempre o serviço de táxi e isso era “alguns tostões a mais nos bolsos” e agora o telefone não toca mais.

Na ótica de Fredilson, o governo deveria dar mais abertura ao turismo em Cabo Verde para fazer movimentar mais a economia, que segundo ele, é um setor muito importante para o país.

A reportagem do Asemanonline também falou com Alexon Inocêncio, que já está 5 anos a trabalhar como taxista no carro do pai. Uma atividade que, conforme nos avançou, não era para ser, mas com a falta de emprego não teve outra escolha. Alexon aponta que a pouca adesão de pessoas ao serviço de táxi tem vindo a diminuir e que a pandemia veio a piorar a situação. Admite ainda que nem sempre foi uma maravilha, mas é “o sustento de muitas famílias”.

O jovem confessa que muitos patrões recorreram a despedimentos porque, para muitos deles, adiantava estar a lucrar em várias horas somente, por exemplo, 1000 escudos, quando se tem muitas despesas. “Descer dos 5mil para mil escudos ou menos, é preocupante”, admite.

Na Praça Dom Luís de Mindelo, sentados à espera que alguém requisite o serviço de taxi, estavam Ildo Gomes e Telmo Silva, colocando a conversa em dia. Admitem que é desanimador o que a pandemia tem vindo a provocar não só nos taxistas como em várias outras profissões. Os mesmos acreditam que com o tempo a situação pode melhorar, e o mais importante é “não desistir e ir à luta”.

Sal: Sem turistas e rendimentos

Já os taxistas e os condutores de hiaces no Sal reportam ao Asemanaonline que houve uma redução significativa no número de passageiros desde o início da pandemia. Revelam que sem turistas e com muitos trabalhadores em regime Lay off e sem emprego, a situação ficou “complicada”.

O condutor de hiace, Sandro Sousa, fundamenta que é através deste trabalho que sustenta a família. “A dificuldade é grande! Nós trabalhamos, mas o lucro não é suficiente para cobrir todas as despesas”, expressou.

Na paragem, nos Espargos, onde o movimento costumava ser mais frenético, encontram-se os condutores sentados à espera que chegue a vez de apanhar um cliente. A calmaria é tanta que os motoristas não conseguem encontrar passageiros para o percurso de volta -Santa Maria/Espargos. Por isso, muitos acabam por voltar praticamente vazios.

Segundo Sandro Sousa, sobrevivem neste período com uma média de 1.400$00 por dia, sem contar com as despesas para combustível.

Já o condutor Crisante Fonseca, disse, entretanto, à reportagem do A Semana, que a situação está difícil. Por isso, a solução encontrada para conseguir um pouco mais de lucro é, segundo ele, trabalhar em táxi e hiace em simultâneo, já que possui dois táxis e um hiace. “Coloco o hiace na fila, e enquanto não chega a minha vez de sair, procuro passageiro para o meu taxi. Tive que reduzir os meus funcionários e trabalhar em um dos taxis ”, avançou.

Na Rodoviária, os condutores costumam formar uma fila grande e quem está no final dela leva muitas horas para chegar na frente e por isso acabam por sair prejudicados já que "há muitos condutores que não respeitam as regras", garantiu Crisante Fonseca.

Assim como eles, mais adiante estão os taxistas em fila à espreita de um passageiro. Estes também tiveram o número de passageiros reduzidos. Ivaldo Rodrigues, taxista, salientou, por sua vez, que viu o seu salário a reduzir. “O meu salário diminui pela metade. Antes eu tinha um salário fixo, agora trabalho com o ajuste - recebo um salário calculado com base na receita que conseguido arrecadar durante o dia.

Dirigindo-se às autoridades, Vanderley Neves apela, por seu turno, para a intervenção do Governo. "O Governo tem de intervir, porque se não o fizer, será o “carrasco” da destruição de um sector importante para o país", expressou este taxista do Sal.

Arménia Chantre/ Luciana Cruz/Redação

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