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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Santa Cruz: O município não é pobre. Está numa fase de transformação acelerada com o aproveitamento das grandes potencialidades locais – Presidente da Câmara 29 Mar�o 2022

O presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz, Carlos Silva, destaca, em entrevista exclusiva ao Asemanaonline, que o seu município, em fase de transformação profunda, não é um concelho pobre, mas sim um município rico com grandes potencialidades e forte capacidade para andar com os seus próprios pés. Com foco numa nova visão promissora para o futuro do concelho, o Edil, que foi questionado por este primeiro diário caboverdiano em linha de referência sobre a celebração, nesta terça-feira, 29, do Dia do Município, fez questão de realçar que Santa Cruz é uma autarquia com ambição, onde é preciso dinamizar todo o potencial económico existente para que continue a dar os seus próprios passos, apostando fortemente na sua progressiva transformação económica, social e cultural. Para isso, ‘’Sueque’’, como é popularmente conhecido, garante que aposta num crescimento económico inteligente, sustentável e inclusivo, visto que, conforme adianta, esse município de Santiago Norte tem condições para dar um grande contributo para o desenvolvimento de Cabo Verde. Confira, a seguir, a grande entrevista que o autarca concedeu a este Especial do Asemanaonline sobre Santa Cruz - traz várias outras informações locais (Ver esta edição).

Entrevista conduzida por: Maria Cardoso/Redação

Santa Cruz: O município não é pobre. Está numa fase de transformação acelerada com o aproveitamento das grandes potencialidades locais – Presidente da Câmara

Projetos estruturantes realizados e em curso no concelho

A Semana - Que Santa Cruz temos hoje em termos de infra-estruturas estruturantes implementadas?

- Acredito que hoje Santa Cruz é um município melhor em todos os níveis. Embora durante todo esse percurso tenha tido ganhos, mas também teve perdas. Falando das infra-estruturas, do ponto de vista social, infelizmente o município tem uma única Escola Secundária para dar resposta a 27 mil habitantes. Reconhecemos, portanto, que este liceu é insignificante e não tem dado resposta à demanda local. Somos conscientes de que o município carece de várias infra-estruturas no domínio da educação. Precisamos de um pólo educativo do ensino secundário na região sul com sede em Achada Fazenda e um pólo secundário na região norte, com sede em Cancelo. Portanto, a nível de educação é esse o balanço que podemos fazer até agora a nível de infra-estruturas.

Já a nível da saúde, o município conta com um grande Centro de Saúde na cidade de Pedra Badejo. Precisamos apenas do seu apetrechamento com equipamentos novos. Consideramos que, em termos de infra-estruturas de saúde, Santa Cruz está muito bem servido neste momento. Recentemente foi também inaugurado um excelente posto de Saúde em Cancelo e tem todas as condições para ser transformado num Centro de Saúde, bastando dotá-lo de médicos. Também há várias Unidades Sanitárias de Base (USB) espalhadas por todo o concelho, embora algumas carecem de manutenção e reabilitação. Vamos trabalhar, na medida do possível, para melhorar essa situação.

Em relação ao setor do desporto tem havido uma grande aposta nos últimos 5 anos com intuito de construir placas desportivas em várias zonas do concelho. Temos o Centro Olímpico África que é o único centro em Cabo Verde e um dos poucos em África. Preocupamos sempre em equipar as placas desportivas com pisos externos mais modernos e acreditamos que o concelho de Santa Cruz é o único que teve a ousadia de fazer isso. Neste momento, estamos a construir uma placa desportiva em Achada Ponta e brevemente iremos inaugurar um dos melhores estádios municipais de futebol. Acreditamos que é um estádio que irá dar resposta a nível do desporto no município, porque é certificado pela FIFA e pode receber competições internacionais. Ou seja, dentro de dias estaremos a inaugurar esta que é uma das maiores infra-estruturas municipais na ilha de Santiago. Estamos a falar de uma obra que custa mais de 100 mil contos, sendo 80% deste financiamento suportado pela Câmara Municipal. A FIFA patrocinou a reposição do piso sintético.

A nível da cultura, neste momento já temos o Centro Cultural “Sema Lopi” pronto. Estamos a falar de um ex-Cine Teatro que foi transformado num centro cultural, que já está pronto e falta apenas ser equipado. Vai ser um espaço onde podem ser realizadas conferências, workshops, espetáculos, baile conjunto, trazendo assim mais dinâmica a nível da cultura no concelho.

No tocante a infra-estruturas económicas, temos em curso aquilo que consideramos ser a maior obra realizada em Cabo Verde nos últimos 5 anos. Estamos a falar da obra de construção da Ribeira dos Picos. É uma obra que vai ter um impacto económico muito grande no Município. Isto porque estamos a falar da maior ribeira agrícola do país que se encontrava totalmente encravada, onde as pessoas não tinham como fazer o escoamento dos seus produtos, sobretudo na época das chuvas em que a zona ficava totalmente interditada. Hoje estamos a contar com uma grande obra neste local, que já está na reta final e antes da época das chuvas ser inaugurada.

Em curso grande programa de requalificação urbana

Que projetos foram levados a cabo com vista à requalificação urbana e ambiental da cidade de Pedra Badejo e não só?

- A nível de requalificação urbana e ambiental, a Câmara, em parceria com o Governo da República, tem em curso um grande programa de requalificação urbana e ambiental. É basta ver que, de uns 3 anos para cá, Pedra Badejo mudou consideravelmente do ponto de vista urbanístico. É basta ver as ruas asfaltadas e calcetadas e neste momento estamos com obras de repavimentação do piso do centro histórico, colocando uma calceta mais artística. Brevemente iremos inaugurar a primeira fase do centro histórico, que contempla repavimentação, reabilitação das casas degradadas no centro histórico, construção e reabilitação de casas de banho das famílias que moram ali. E vamos continuar porque Pedra Badejo é uma cidade que está em crescimento. Para além da requalificação urbana e ambiental, já construímos e estamos a construir estradas em vários povoados do município.

Agricultura sem grandes ganhos no concelho

Que ganhos tiveram com a agricultura com a intervenção da Câmara Municipal?

- A agricultura, infelizmente da forma como está sendo feita em Cabo Verde, particularmente em Santa Cruz, não tem dado grandes ganhos. Temos a questão da água como um grande desafio. E não é por acaso que o município tem duas barragens. Mas já vimos que somente as barragens não chegam para resolver o problema, porque se não cai chuva a barragem não terá nenhum efeito. No entanto, consideramos que a construção das barragens trouxe um grande ganho para Santa Cruz. Mas infelizmente neste momento estão praticamente sem água, devido aos vários anos consecutivos de seca. A câmara tem trabalhado fortemente junto dos agricultores, implementando vários programas de empoderamento das famílias que vivem da agricultura. Conseguimos implementar um grande projeto de formação e capacitação dos nossos agricultores, sobretudo jovens e mulheres, com objetivo principal de trazer a experiência de cooperativa agrícola das outras paragens, nomeadamente da Itália para Cabo Verde e Santa Cruz, em particular. No entanto, estamos a falar de um setor em que a Câmara não tem competência - é um setor em que quem tem praticamente todo poder é o governo central. Mas mesmo assim, tendo em conta que o município no seu todo é agrícola, a câmara esteve e estará sempre sensível em querer ajudar no seu desenvolvimento.

Forte aposta no programa de empoderamento das famílias para terem rendimentos

Quais foram as principais conquistas alcançadas no plano social, com destaque para a habitação social e o apoio às famílias carenciadas do concelho?

- Do ponto de vista social, esta Câmara tem tido uma sensibilidade muito grande, implementados grandes programas de empoderamento das famílias, abrangendo setores como a saúde, a educação, atividades geradoras de rendimento, bem como a distribuição de cesta básica e habitação social. Acreditamos que a criação de rendimento para famílias carentes é fundamental. Por isso, temos vários programas de empoderamento das famílias, porque o que notamos aqui é que não vale a pena ter mil e uma soluções para mil e um problemas. Por exemplo, uma pessoa sem rendimento tem vários tipos de problemas. Mas basta garantir que tenha rendimento, ela conseguirá resolver os seus próprios problemas sem a ajuda da Câmara Municipal. No contexto da crise em que se vive atualmente, a prioridade da Câmara é sobretudo com a saúde. Recebemos várias solicitações de ajuda neste sentido e os pedidos são atendidos na hora.

A habitação social é um outro grande problema do nosso município, porque na verdade, em cada 10 pessoas que procuram a Câmara, 8 seguramente colocam problema da habitação. Temos muitos pedidos porque contamos com uma população jovem e as famílias, na sua maioria, não têm rendimento certo. A Câmara está a implementar uma política social voltada para a habitação, que consiste na atribuição de lotes de terrenos, em que cada pessoa paga anualmente um determinado valor e que não lhe impeça de construir a sua casa. A câmara apoia sempre essas pessoas na construção das suas moradias. Temos, portanto, um programa forte voltado para a questão habitacional. Antes da pandemia estávamos a andar num ritmo muito acelerado e um bocadinho ambicioso, reabilitando casas no seu todo com reboque, pintura e construção de casas de banho. Mas com a pandemia de covid-19, passamos a fazer o mínimo para garantir que uma família tenha uma moradia. O nosso foco tem sido mais na cobertura das casas, isto para podermos motivar as pessoas a darem os seus próprios passos na construção das suas casas.

Apoio aos jovens na formação profissional

Em relação à juventude e formação profissional, o que é que a Câmara tem feito?

- A formação profissional é a prioridade número um da nossa Câmara. Temos batalhado e esforçado na medida do possível para apoiar os jovens que querem fazer a formação profissional. Andamos a sensibilizar os jovens que não têm condições para realizar um curso superior a fazerem formação profissional. Isto está dentro da competência da Câmara Municipal, que tem que focar em garantir aos jovens o acesso ao primeiro emprego. Felizmente temos aqui um dos melhores centros de formação profissional. Os jovens andam a aderir em massa aos diferentes cursos ministrados, sobretudo nas áreas de hotelaria e turismo. E a Câmara tem apostado fortemente em apoiar esses jovens. Estamos a batalhar em todos os domínios para que a nossa juventude tenha oportunidade de ter um rendimento. Queremos também contar com um engajamento muito forte da juventude, porque, por mais que haja política de formação, se não haver uma juventude com ousadia e interessada e comprometida com o desenvolvimento do seu município, não iremos a lugar nenhum.

O que é que a Câmara fez ou pretende fazer em relação ao empreendedorismo para o relançamento económico e turístico no concelho?

- Dispomos de um Gabinete de Empreendedorismo e a Câmara tem apostado forte no empreendedorismo jovem e feminino em vários domínios, mas sobretudo nas áreas que têm a ver com o potencial econômico de Santa Cruz. Temos o agronegócio, que é fundamental, a pesca, o artesanato e pequenos comércios. A Câmara tem apostado agora na requalificação urbana, onde introduziu a praça de táxi - em breve passaremos de 10 para 25 taxistas. Também temos um outro fator, dizemos a brincar, que Pedra Badejo é a cidade capital de moto chinesa. Acreditamos que isto constitui uma oportunidade e está a servir como uma fonte geradora de rendimentos para muitas famílias - cerca de 30 a 40 estão a conseguir o seu rendimento diário e mensal através destas motos chinesas. A nível de potencialidades de sítios com interesses turísticos, Santa Cruz é um dos poucos municípios em Santiago que possui três zonas de desenvolvimento turístico integrado - ZDTI.Além disso, tem vários sítios de interesses turísticos.

Forte aposta na dinamização das potencialidades de Santa Cruz para que possa andar com seus próprios pés

Qual a sua nova visão para o futuro de Santa Cruz?

- Hoje, para além das potencialidades que Santa Cruz tem, é um município com ambição. Santa Cruz não é um município pobre. É um município que pode andar com os seus próprios pés. Só que é preciso se dinamizar todo o potencial económico local. Para que ande com seus próprios pés, é necessário que o município tenha grandes ambições e aposte forte na dinamização de todo potencial existente, visto que aqui temos praticamente de tudo um pouco. Hoje fala-se que o turismo é o motor da economia em Cabo Verde e estou de acordo. Santa Cruz tem agricultura, pecuária, pesca e tem turismo, porque podemos fazer agroturismo e turismo náutico. Acreditamos que o turismo é o motor da economia, mas não vamos abrir mão daquilo que é o nosso potencial: agricultura, pecuária e pesca. A nossa ambição é para que Santa Cruz seja a cidade capital do agronegócio. Não estamos a sonhar e nem a inventar. O que nós queremos é trazer aquilo que Santa Cruz tinha no passado recente: foi maior produtor e exportador de produtos agropecuários através do grande complexo agro-alimentar Justino Lopes, que foi extinto. Portanto, não estamos a exigir nada de outro mundo. Estamos sim a clamar para a retoma de tudo isso. Queremos apostar num crescimento económico inteligente, sustentável e inclusivo. Para isso, é necessária a definição das grandes prioridades. Queremos apostar na construção das estradas das ribeiras agrícolas e turísticas, fazendo ligação com outros municípios. Além disso, já está em curso, e brevemente será inaugurada, a obra da Ribeira dos Picos. Queremos dinamizar novamente todo o potencial do perímetro agrícola Justino Lopes e já temos negociações em curso neste sentido. Estamos a trabalhar para que Santa Cruz seja o maior polo de desenvolvimento da ilha. Para tal, temos já uma área definida para ser a zona industrial de Santa Cruz com aproximadamente 200 hectares de terreno para receber uma central de compras, que contempla um mercado abastecedor, um parque agro-industrial, um sistema fotovoltaico e um parque comercial. Queremos que Santa Cruz seja um dos grandes pólos de desenvolvimento de Cabo Verde e por isso estamos a trabalhar para a dinamização do seu potencial económico. Por tudo isso, dizemos que esse município tem condições para dar um grande contributo para o desenvolvimento de Cabo Verde.

Festa do município sem grandes atividades comemorativas

Como pretende assinalar o dia do município tendo em conta o contexto pandêmico e de crise em que se vive?

- Estamos num momento comemorativo, mas tendo em conta o contexto que estamos a viver não nos é permitido fazer muita coisa. Portanto, sem ser possível realizar grandes atividades, estamos a promover algumas ações desportivas e culturais. A celebração da festa vai culminar, no dia 29, com uma sessão solene, onde vai haver assinatura de protocolos entre a Câmara Municipal de Santa Cruz e a Escola de Formação Profissional para Agricultura e Desenvolvimento Rural do Município de Vagos. Haverá também a exibição da peça de teatro “Chiquinho” para poder simbolizar a passagem do Dia do Município.

Modelo de bom relacionamento entre a Câmara e o governo

A sua Câmara tem sido apontada como sendo um modelo de relacionamento institucional normal com o governo central. O que diz sobre isso e qual tem sido o resultado desse relacionamento?

- Primamos sempre pelo bom relacionamento com todos, primeiramente com os munícipes, independentemente da cor política ou religiosa de cada um. Andamos a fazer de tudo para estarmos bem com os santa-cruzenses e queremos fazer de tudo para que sejamos uma presidência do povo de Santa Cruz. Queremos nos relacionar com todos os parceiros, particularmente com o governo central que é um dos grandes parceiros da Câmara. Não vamos a lugar nenhum se não mantermos um bom relacionamento institucional com o governo central e estarmos alinhados e sintonizados em relação ao desenvolvimento do concelho. Na verdade, temos vindo a ter um bom relacionamento. Mas a nossa ambição é chegar a um nível muito bom, porque do ponto de vista institucional, pensamos que a Câmara e o governo têm de estar de mãos dadas, independentemente da cor política de cada um.

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