OPINIÃO

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São Nicolau Merece Mais e Melhor 08 Janeiro 2020

Apesar de ser considerada a região mais histórica do país, a ilha de São Nicolau também carrega consigo graves problemas socioeconómicos, quase todos vinculados ao que se chama desinvestimento público e desleixo dos partidos. Ninguém mais conhece e ouve falar dessa ilha montanhosa, por carência de ligações regulares dos transportes. Uma medida que prejudica as pessoas, os agricultores, pescadores, investidores e o turismo da região.

Por:Albino Sequeira*

São Nicolau Merece Mais e Melhor

A ilha de São Nicolau, geograficamente posiciona-se quase que inteiramente no centro do arquipélago de Cabo Verde, tem 343 km² e possui uma população à volta das 12 mil pessoas. Na verdade, esse número de população já foi um pouco maior.

A pacata região, que se situa a norte do País, que faz parte do grupo das ilhas do Barlavento, é colorida pela seca, consequência das poucas chuvas nessa ilha.

Os setores de atividade mais importantes são a agricultura e a pesca, que geram mais da metade da riqueza de São Nicolau, que se comprova pela existência de uma unidade de conservação e transformação do pescado, a fábrica Sucla. Do lado da agricultura, hoje, a aposta em máquinas modernas para aumentar a produtividade é cada vez maior na zona de Fajã.

As referências deste pequeno território são vastas e enormes, quer a nível da literatura, música, política, saúde, história, do património, da religião e de condições naturais.

Identificar as potencialidades da ilha da morna “Sodade”, convida-nos a elevar o posto e a importância que esta merece na classificação nacional.

Os fatos apontam que, o Seminário da cidade de Ribeira Brava servia para formação de pessoas, inclusive recebeu grandes figuras, como é o caso do pai de Amílcar Cabral, daí ser considerado o primeiro liceu de Cabo Verde. Ainda a história nos permite afirmar que o primeiro médico do país terá sido o Júlio Dias, natural de Ribeira Brava.

O baú da riqueza dessa ilha não pára por aqui. O livro mais conceituado e mais vendido na história do arquipélago é do Baltasar Lopes da Silva, a obra “Chiquinho”, traduzido em várias línguas, com destaque para o inglês. A música que levantou a bandeira de Cabo Verde bem alto a nível internacional é sem margem de dúvida, a morna “Sodade”, composta e cantada pelas gentes de Praia Branca, um canto, rocha bem exposta aos olhos do mundo com a voz de Armando Zeferino, que cantou “sodade” na partida para São Tomé e Príncipe, do mestre e sábio Paulino Vieira, que quis ser poeta para engrandecer o nome da rica ilha de São Nicolau.

Embora com todas essas valências e patrimónios na sua fonte, isso parece não jogar a favor e até hoje não renderam um escudo para o tesouro da ilha dos dragoeiros.

Conta apenas com trava-línguas dos sucessivos Governos e dos ilustres representantes que passaram e que ainda passam pelos bancos da Assembleia Nacional, na promessa de discutir e relevar os interesses dos São Nicolauenses e que ficam nos gaguejes atrás da língua.

Exigimos com direito e por respeito, que seja reposto o que se retirou de São Nicolau, a menosprezar a história, a cultura, o contributo de ouro que demos e damos ao País. Nada mais justo, a instalação de um polo da universidade pública naquela ilha, nada mais coerente que a biblioteca nacional fosse fixa em São Nicolau, ou pelo menos ter uma biblioteca regional em condições, com bibliografias que permitem uma investigação de classe, comemorar o dia da cultura nessa região e reconhecer a personalidade e o trabalho do Júlio Dias, ex-médico, que mandou construir o cais da Preguiça e a igreja de Praia Branca.

Já está na altura de termos um centro de saúde regional, que ofereça as melhores possibilidades para um tratamento digno dos pacientes.

Por muitos anos assiste-se de forma pacífica à indiferença da nossa querida terra em relação às outras ilhas, trata-se de um reflexo político vergonhoso e fútil, pois essa região carregou sobre si a maior parte dos investimentos e produções agrícolas, sobretudo na era da economia cafeeira, cana-de-açúcar, sendo também a primeira área do território nacional a industrializar-se.

Apesar de ser considerada a região mais histórica do país, a ilha de São Nicolau também carrega consigo graves problemas socioeconómicos, quase todos vinculados ao que se chama desinvestimento público e desleixo dos partidos. Ninguém mais conhece e ouve falar dessa ilha montanhosa, por carência de ligações regulares dos transportes. Uma medida que prejudica as pessoas, os agricultores, pescadores, investidores e o turismo da região.

As atividades económicas são maioritariamente familiares, com o fim apenas da sustentabilidade da família.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), revelam, que somos a terceira ilha mais pobre do arquipélago.

Do ponto de vista de desenvolvimento económico ainda há muito por fazer, impondo-se um diagnóstico preciso, entretanto, a resiliência aponta para uma recuperação rápida e gradativa, se algumas medidas políticas forem rapidamente tomadas.

Entretanto, antes de qualquer intervenção, deve uma equipa conduzir a elaboração de um Plano Estratégico de Desenvolvimento de São Nicolau, a realçar os impactos e os resultados num curto prazo.

A ilha de São Nicolau precisa do esforço e amor de cada um dos seus filhos, por outro lado, precisa de vozes que façam valer os seus direitos, de líderes, de bons representantes e de políticos que se ponham ao serviço dos seus cidadãos.

Estamos a necessitar de alguém que para além de dizer que São Nicolau merece mais e melhor dê uma contribuição efetiva para que isso se torne uma realidade.

E neste contexto além da competência técnica as Elites Caboverdianas têm de cumprir diariamente com deveres que abarcam valores e padrões de comportamento, ou seja, trata-se de ética, e o sucesso delas na vida académica, nas profissões liberais, na área financeira, económica, social e de gestão, tem de ancorar aqui, partir daqui e retornar sempre aqui.

Na verdade os São Nicolauenses não podem deixar de pensar que os concidadãos que constituem as Elites Caboverdianas são os que podem desempenhar um "serviço cívico" em nome da responsabilidade da cidadania no sentido mais profundo de solidariedade nacional, pelo que se deveriam dispor a participar ativamente nas reformas necessárias para o desenvolvimento de São Nicolau visando a promoção do desenvolvimento no combate efetivo de redução da pobreza.

*Economista e escritor

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