DIÁSPORA

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

(Scripta saturnalia) Da diáspora em trânsito 14 Maio 2022

Nesse mesmo dia que evoco muitas décadas depois, neste sábado em que a tirania dos dias se cala, o ramo "que ficou em terra" — será? Afinal, é não!, como se iria revelar nessa metrópole de reencontros. Revelar é completar o quadro com os já vindos da "terra do cacau que bebe do sangue do contratado". No disco de vinil, essa ’sodad na kamin de Santomé’. No gira-discos, a nossa voz mais poderosa também clama certezas enquanto na divisão ao lado, com vista para o plátano substituto visual de tantos pés arborícolas, se deslindam raízes quadradas, refrações e outros homeworks, devoirs.

 (Scripta saturnalia) Da diáspora em trânsito

A nossa voz mais poderosa, intérprete do que é a genialidade desta nação diasporizada, também clama a certeza sobre a sua paternidade do filho de olho-azul. Seria nesse dia, em que a prima (em segundo-grau, mas que a merkana da diáspora dirá distant cousin) trouxe o filho de nome bíblico e olho-azul.

Neste sábado de evocação em que a tirania dos dias se cala, é a desgravação. Descodificação do que ficou entre um e outro problema dos deveres. Esse conteúdo oculto que mais tarde espontaneamente me surge na pena, ou muitos anos depois no teclado, sobre essa visita da prima.

A visita qual Isabel perante Maria dizia: "Kónde Zèk nasê i M oiá kel oie azul, M tive serteza ke el trazê marka de kel diabe". Referia-se por contraste à sua experiência de que muitos olhos no futuro bem escuros nascem claros, do azul ou cinza deslavado ao azul-esverdeado.

Essa prima seria a irmã-colaço ou seria a outra ambas vindas da periferia para visitar o centro da capital, placa giratória do extinto império. "M dze Lilin loge ke era kulpa de kel desgrasòde".

A sua narrativa a retomar a tradição, alguns dirão superstição e outros cultural concept, de que um ódio intenso pode levar a grávida a gerar um filho com a cara chapada do objeto do seu ódio.

"Kel mandronge da-m um bofatada ke inda M ta sintí. Nunka ningen tinha ptòde se mon na nha kara!"

Estou na divisão ao lado, com vista para o plátano, e ouço por entre problemas de raízes quadradas, refrações e outros homeworks, devoirs … relembro muitas décadas depois. Milhares de quilómetros percorridos que até me levaram a esse lugar do santo incrédulo.

Manhã de sábado, já tarde além, na diáspora, chega-me esta voz que fala das atualidades. — Imagina que o Topo Gigio voltou! Que bom, vou vê-lo com a minha codé/kodê! Voz da mãe de 30 anos que se voluntariou para a campanha autárquica à câmara da Amadora, na sua primeira ação de cidadania para apoiar o primeiro candidato cabo-verdiano à maior autarquia da diáspora. Mas desta vez a conversa é sobre um ratinho de estimação.

E com isso a conversa toca a esfera das memórias de infância do tempo do Topo Gigio. O ratinho que animava a hora de ir dormir nos anos 1970-80s, da Auxília transcrita Aussilia, do Antoine a transcrever António, etc., de cabo-verdiano-descendentes ou ainda dos representantes da "Terra Trazida" em criança.

O regresso do rato cuja "matéria era a esponja, a sua mensagem era o optimismo e o seu sucesso era retumbante". Criou-o em 1961 a italiana Maria Perego, e em seu tributo por ocasião do falecimento em 2019, lê-se no Corriere della Sera, milhares assinalaram a sua morte. Com a tristeza com que se acompanha a derradeira partida hora di bai dos que não sendo do círculo mais próximo todavia fazem parte da nossa infância.

O pesar que traz a morte dos que são parte da da infância — como tem acontecido muito nos últimos meses em que tanta gente conhecida morreu em várias cidades da nossa diáspora: Roterdão, Lisboa, Luanda, Paris, Roma, Brockton, Londres...

A vida continua — na saudosa memória dos que se foram. E até de muitos que até voltam.

Notas: 1. Quando o Zèk nasceu e lhe vi o olho azul, tive a certeza de que ele trouxe a marca daquele diabo. 2. Disse logo ao Lilin que era culpa daquele desgraçado". 3. Aquele português deu-me uma bofetada que ainda me dói. Nunca ninguém tinha estampado a sua mão na minha cara. Mandronge é expressão popular em São Vicente para o colono metroplitano, ora com sentido referencial ora com valor depreciativo. (10.abr.2021)

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project