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Segunda mais antiga povoação de Cabo Verde sonha com santuário mariano 01 Novembro 2020

Depois da classificação como Património Nacional cabo-verdiano e da reabilitação da igreja, um dos mais antigos templos católicos da África subsaariana, Alcatrazes, a segunda povoação edificada pelos portugueses em Cabo Verde, tem novo sonho: construir um santuário mariano.

Segunda mais antiga povoação de Cabo Verde sonha com santuário mariano

Localizada na parte oriental da ilha de Santiago, perto de uma baía hoje desolada, Alcatrazes terá sido, segundo os historiadores, a segunda povoação de Cabo Verde, desenvolvida em 1462, ao mesmo tempo que Ribeira Grande (hoje Cidade Velha, património da Humanidade), mas foi abandonada meio século depois devido à aridez do local.

“Havia uma senhora que dizia que se a Cidade Velha é o berço, aqui temos a criança. Ter um berço sem ter o filho não vale a pena”, começa por contar à Lusa Janilson Silva, o padre católico que lidera a comunidade da antiga povoação de Alcatrazes, hoje no município de São Domingos, e o sonho de ali ter o "grande" santuário de Cabo Verde.

Do período da descoberta da ilha pelos portugueses, chegaram aos dias de hoje a igreja católica, gótica, de Nossa Senhora da Luz. Datada de 1480, será a segunda mais antiga da África Subsaariana, depois da da Cidade Velha, e foi totalmente reabilitada este ano, bem como uma cruz em pedra, local de peregrinação, a poucas centenas de metros da baía.

Tudo o resto foi levado pelo tempo, não fosse Alcatrazes situada sobre uma achada árida e pedregosa, que começou a ver desaparecer as primeiras casas em 1516, com os habitantes a mudarem-se para a ‘irmã’ Cidade Velha, do outro lado da costa, e outros para uma nova povoação que estava a surgir: a Praia.

A história desta terra começa em 1460, quando as ilhas de Cabo Verde foram encontradas por António de Noli (genovês ao serviço da coroa portuguesa) e Diogo Gomes, navegador português (as ilhas do Barlavento - Santo Antão, São Vicente e São Nicolau foram encontradas depois).

O reino decidiu então povoar a maior ilha, Santiago, dividida em duas capitanias. António de Noli recebeu a Ribeira Grande (Cidade Velha), e Alcatrazes, atual Nossa Senhora da Luz, ficou com Diogo Afonso, que descobrira as ilhas do Barlavento.

António de Noli chegou à Ribeira Grande como capitão-donatário dois anos depois da descoberta, com família, amigos e trabalhadores contratados, estabelecendo aí o primeiro povoado.

Mas logo a seguir, provavelmente no mesmo ano de 1462, segundo os historiadores, Diogo Afonso começava a edificar Alcatrazes.

Com raízes profundas de uma evangelização que começou há mais de 500 anos, a reabilitação do templo e a classificação como Património Nacional - por decisão do Governo em setembro passado - do conjunto histórico e arqueológico de Alcatrazes, envolvendo uma área total de 2,7 quilómetros quadrados, deu mais força ao sonho de ali construir o grande santuário mariano de Cabo Verde.

“A reabilitação desta igreja já foi um pontapé para arrancarmos com o futuro santuário dos Alcatrazes / Baía de Nossa Senhora da Luz. Esta zona, há muitos anos, atrai milhares de fiéis, tem uma importância muito significativa, sobretudo para os que não vivem cá”, explicou à Lusa o padre Janilson Silva, de 30 anos.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é hoje local de peregrinação, principalmente, a de 08 de setembro, dia da padroeira, tendo a reabilitação do templo custado ao Estado cerca de 18 milhões de escudos (163 mil euros).

Na última peregrinação, em setembro, e apesar das limitações impostas pela covid-19, mais de 300 pessoas passaram pelo local, uma baía de onde ainda partem diariamente para a faina pescadores que vivem nos arredores da antiga povoação de Alcatrazes.

Há três meses à frente da paróquia de Nossa Senhora da Luz, a cerca de 30 quilómetros da Praia – quase metade dos quais fora das estradas principais -, o padre Janilson conta que a classificação do conjunto histórico e arqueológico de Alcatrazes teve um “novo impacto” na população local, que ainda recorda o tempo em que era em Alcatrazes que estava a Capitania do Norte da ilha de Santiago (e do Sul na Cidade Velha).

“De certeza que irá trazer gente de várias zonas e países e até promover o turismo religioso e cultural”, admite o pároco, que três vezes por semana celebra a eucaristia naquela igreja, algo que ali é praticamente interrupto há mais de 500 anos.

As restantes celebrações são feitas no centro de São Domingos, ainda afastado vários quilómetros da Baía de Alcatrazes, onde a igreja fica fechada.

“Com este santuário, de certeza, esta zona irá ganhar um novo sentido. Nós agora temos uma igreja ‘nova’ e não temos uma pessoa aqui para a deixar aberta. Muita gente vem e encontra a igreja fechada. Tendo a igreja aberta, tendo o santuário, tendo pessoas disponíveis para trabalhar, tudo iremos ganhar”, garante o padre Janilson, assumindo que este “sonho” da diocese conta com o apoio do Governo e da câmara local.

O apoio de outros países com santuários marianos para definir este projeto, “sobretudo de Portugal”, é considerado decisivo: “O objetivo com o santuário é dar às pessoas mais condições para estarem nas celebrações, para se sentirem bem”.

Hoje uma zona “um pouco esquecida”, em Alcatrazes espera-se pelo concretizar do sonho.

“Temos a diocese muito empolgada. Só espero que não fique somente no papel”, rematou o padre Janilson. A Semana com Lusa

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