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Sobre a língua portuguesa na China 25 Novembro 2019

A ligação entre a China e Portugal remonta a época bem mais recuada, ao período das Descobertas, quando os portugueses enviaram frotas para o território chinês. No entanto, o desenvolvimento do ensino da Língua Portuguesa como língua estrangeira é mais recente do que o ensino de outras línguas estrangeiras como o Inglês, o Japonês, o Francês e o Russo, entre outras. Ao contrário da língua inglesa, que é a língua estrangeira mais enraizada na China desde o primeiro ciclo de estudo, a aprendizagem do Português concentra-se maioritariamente no nível universitário. Nos últimos anos há cada vez mais universidades na China que oferecem cursos de Língua Portuguesa registando-se um aumento notável no número dos alunos que aprendem esta língua.

Por: Adrião Simões Ferreira da Cunha*

Sobre a língua portuguesa na China

Com este Artigo pretendo dar a conhecer a importância que a China atribui à Língua Portuguesa enquanto língua oficial dos Países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

A presença da Língua Portuguesa na China remonta a centenas de anos, desde que Portugal iniciou a sua presença em Macau. O ensino da Língua Portuguesa nas universidades chinesas desenvolveu-se no século XX, início dos anos 60. Nos últimos 50 anos, foram formados milhares de profissionais do português. Os destinos principais dos graduados consistem nos ministérios centrais como Ministério das Relações Exteriores, Ministério do Comércio, Ministério da Cultura, Departamento de Ligação Internacional e Quartel General, bem como Agência de Notícias Tsinghua, Televisão Nacional, Rádio Internacional da China, agências de viagem, embaixadas estrangeiras na China, empresas nacionais e estrangeiras. O curso de Língua Portuguesa dura 4 anos. As disciplinas essenciais envolvem português básico, português avançado, conversação, leitura extensiva, escrita, gramática, interpretação português-chinês e chinês-português, história e literatura portuguesas e audição, etc.
Com o estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e a lusofonia e o retorno de Macau à China, surgiram cada vez mais contactos económicos e comerciais entre a China e os países de Língua Portuguesa. Contudo, a escassez de pessoal qualificado do português perante a crescente procura de pessoas com bom domínio desta língua incita uma boa situação de emprego dos graduados universitários do curso de Língua Portuguesa na China. A par do alargamento de intercâmbios na política, comércio, cultura e tecnologia entre a China e os países lusófonos os cursos do Português terão um futuro cada vez mais brilhante. Além do mais, as estratégias para acelerar a exploração no mercado africano torna a aprendizagem do Português cada vez mais útil.

Remonta à Dinastia Qing (1644-1912), o facto do povo chinês, inspirado pela frase “师夷长技以制夷” (aprender a tecnologia avançada ocidental a fim de resistir aos provocadores do Ocidente) do pensador Wei Yuan, ter começado a fazer contactos com outros povos e a usar línguas estrangeiras.

Em 1978, sob a política de Reforma e Abertura (execução da reforma interna e abertura ao exterior para acelerar o crescimento económico), desenvolveu-se substancialmente a aprendizagem de línguas estrangeiras.

Significado: “Por meio do estudo da tecnologia militar avançado do Ocidente a procurar a maneira de proteger o país”; posteriormente, com a decadência da Dinastia e a constante invasão das nações ocidentais, a frase refere-se a: “aprender a tecnologia avançada ocidental a fim de resistir os provocadores do Ocidente”.

Wei Yuan, pensador do iluminismo, político e escritor da Dinastia Qing, é um dos representantes do primeiro grupo de intelectuais que “abrem os olhos a ver o mundo” da China moderna. Ele apelou a aprender ciência e tecnologia avançadas ocidentais e motivou a nova tendência de conhecer o mundo e aprender do Ocidente, o que é um símbolo importante da mudança de tradicionalismo para modernidade do pensamento chinês.

A ligação entre a China e Portugal remonta a época bem mais recuada, ao período das Descobertas, quando os portugueses enviaram frotas para o território chinês. No entanto, o desenvolvimento do ensino da Língua Portuguesa como língua estrangeira é mais recente do que o ensino de outras línguas estrangeiras como o Inglês, o Japonês, o Francês e o Russo, entre outras. Ao contrário da língua inglesa, que é a língua estrangeira mais enraizada na China desde o primeiro ciclo de estudo, a aprendizagem do Português concentra-se maioritariamente no nível universitário. Nos últimos anos há cada vez mais universidades na China que oferecem cursos de Língua Portuguesa registando-se um aumento notável no número dos alunos que aprendem esta língua.

A ligação entre a Língua Portuguesa e a China está historicamente relacionada com Macau, o importante entreposto comercial entre a China e os países de Língua Portuguesa até ao momento.

Em1514, os portugueses mandaram frotas aportar em Tun Men (agora parte de Hong Kong). Em 1553, um grupo de navios portugueses requisitou a secagem dos “tributos molhados” em Hao Jing (hoje Macau),com o pretexto de ter sofrido uma tempestade no mar. As autoridades de Guang Dong aceitaram um pagamento de prata e permitiram o desembarque. A partir de então, desenvolveu-se uma relação secular em que os portugueses obtiveram o direito de permanecer e administrar Macau até ao século XX.

Em1557 as autoridades chinesas autorizaram que os portugueses se estabelecerem permanentemente em Macau, concedendo-lhes um considerável grau de auto governação. Em troca os portugueses foram obrigados a pagar aluguer anual e certos impostos.

Depois da Primeira Guerra do Ópio (entre 1840 e 1842), devido à corrupção do governo Qing, a China aumentou gradualmente a sua dependência em relação a alguns países ocidentais. Os residentes portugueses em Macau aproveitaram a ocasião para expandir e invadir os territórios em torno de Macau. Após a Segunda Guerra do Ópio, em 1887, os portugueses conseguiram que o governo Qing assinasse o “Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português”, segundo o qual a China concedeu aos portugueses o direito de administrar o território de Macau. A assinatura do tratado é o ponto de viragem histórico do destino de Macau, pois desde então até ao século XX Portugal ocupou Macau e transformou este território num espaço com características específicas de administração através dos instrumentos diplomáticos.
Em 20 de dezembro de 1999 a China voltou a assumir a soberania de Macau. Sendo o primeiro território a estar sob administração ode um país europeu no Leste Asiático, Macau testemunhou a história do intercâmbio da cultura chinesa com a ocidental durante mais de 400 anos. Em 2005, o centro histórico de Macau foi oficialmente incluído na “Lista do Património Mundial” pela UNESCO, cuja avaliação foi “a cidade testemunhou tanto o desenvolvimento da cultura religiosa na China e no Extremo Oriente como as origens históricas da propagação da religião folclórica chinesa para o Ocidente. O centro histórico de Macau constitui um património arquitetónico ocidental mais antigo na China, é uma incorporação abrangente da arte arquitetónica oriental e ocidental.”

“Um País, Dois Sistemas” refere-se à implementação do sistema socialista como corpo principal na China com a permissão da manutenção do sistema capitalista em Hong Kong, Macau e Taiwan, é uma política nacional proposta pelo Partido Comunista com a finalidade a resolver os problemas da reunificação pacífica entre Taiwan e a China e da retomada da soberania da China em Hong Kong e Macau.

Os portugueses deixaram em Macau não só a sua cultura, mas também a língua. O nome das ruas de Macau é indicado ao público em duas versões, uma em Chinês tradicional, outra em Português. Nos autocarros, a indicação da estação seguinte é feita em três línguas: Cantonês, Inglês e Português, porque as línguas oficiais da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) são Cantonês e Português. Além disso, muitos descendentes de portugueses que residiram em Macau durante o período da administração portuguesa aí permaneceram e criaram a sua própria comunidade, outros casaram-se com os habitantes locais, situações que se revelaram formas de dar continuidade à presença da Língua Portuguesa em Macau.

Depois do retorno à China, a política de “Um País, Dois Sistemas” permitiu a prossecução de um sistema económico próprio e de um alto grau de autonomia na RAEM. Hoje em dia, Macau constitui um porto livre internacional, uma das regiões mais densamente povoadas e uma das quatro maiores cidades de casinos do mundo. Além do mais, a famosa indústria ligeira, o turismo, a hotelaria e a indústria do jogo contribuem para que Macau se torne uma zona mais rica. A crescente influência e reputação internacional da RAEM promove de forma positiva o estatuto internacional da China e a vontade dos estrangeiros de conhecer mais a China. Reciprocamente, a China esforça-se para desenvolver um intercâmbio dinâmico com este território e intensificar uma relação de proximidade. Os contactos da China com a RAEM estão inevitavelmente relacionados também com a Língua Portuguesa, em especial, com o papel que as instituições de Macau têm assumido no desenvolvimento do ensino e na formação de professores de Língua Portuguesa.

Apesar de haver muitos acessos à aprendizagem do Português na China, os cursos em Português continuam a ser o meio principal onde se formam os conhecedores da língua de Camões.

Mesmo que diferentes universidades ofereçam diferentes disciplinas, o modo de ensino é semelhante, com destaque para o curso de Língua e Cultura Portuguesa da Universidade de Língua e Cultura de Pequim (ULCP).

A ULCP foi fundada em 1962 e é uma universidade jovem. Como o seu nome indica, é uma universidade que trata principalmente a língua e a cultura. Há vários cursos de língua estrangeira, com representação de línguas e culturas da maioria dos continentes. Cada ano, estudantes de diferentes nacionalidades vêm para a ULCP para estudar Mandarim; paralelamente, os alunos chineses que aprendem língua estrangeira têm também oportunidades de fazer intercâmbio nos países cuja língua oficial se identifica com a língua-alvo da sua aprendizagem. O multilinguismo e a multietnicidade concedem a este espaço a designação de “Pequenas Nações Unidas”.
Língua e Cultura Portuguesa é um curso novo na instituição que surgiu em 2011. Uma parte do curso é feita em Pequim, mas, no 2º e 3º ano de licenciatura todos os alunos têm oportunidade de sair da China para estudar no Instituto Politécnico de Macau e no Instituto Politécnico de Leiria com professores de Língua Portuguesa e em contexto de imersão, o que permite um contacto multicultural e aulas mais comunicativas.

Referência Bibliográfica: Tese elaborada e m 2017 pela Dra. Ye Xinlei para a obtenção do grau de Mestre em Língua e Cultura Portuguesa, orientada Prof.ª Catarina Isabel Sousa Gaspar da Universidade de Lisboa, Departamento de Estudos Clássicos.

Lisboa, 24 de Novembro de 2019

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*Estaticista Oficial Aposentado, Antigo Vice-Presidente do Instituto Nacional de Estatística de Portugal

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