A humanidade não se teria desenvolvido sem a solidariedade nos dois sentidos: Do ut des/Dou/Ajudo-te hoje, na certeza de que amanhã retribuirás (a quem estiver na posição em que hoje estás).
A solidariedade leva a sentir como sua a dor do semelhante e a estender-lhe a mão e o braço, na ação de dar, abraçar.
A sua expressão moderna desenvolve-se no crowdfunding, pelo qual uma neessidade vital pode ser satisfeita com a boa-vontade coletiva, que ultrapassa fronteiras físicas e políticas.
A confiança é a base dessa nova maneira de estar em rede: o sucesso depende da confiança que se tem em como a doação irá servir uma boa casusa e depende em boa parte do capital de simpatia suscitada pela pessoa que sofre e ou que organizou o crowdfunding.
Mas basta um desvio — uma colocação fora do sítio, enfim a traição ... — para se pôr em perigo o todo solidário. Quanto mais confiança se depositou na causa e na pessoa que organizou o crowdfunding, mais intenso e extenso o sentimento da traição.
Tantos bons sentimentos perdidos, deturpados…
Tantas boas ações que foram traídas por quem delas beneficiou…
Porquê? Pela ganância, sobretudo. Veja-se os casos das australianas Hannah, Belle e Alyson.
Alyson levou familiares e amigos a oferecerem-lhe cem mil dólares para tratar "um cancro do fígado". Rumou aos Estados Unidos, onde iria ser curada numa clínica do Texas. Em vez disso, foi passear: afinal nunca esteve doente, como vieram a saber depois todos os familiares e amigos traídos.
Também traídos se sentiram os vizinhos e familiares que deram vinte mil dólares à adolescente Hannah que lhes disse precisar dessa quantia para ir fazer um tratamento no estrangeiro.
No caso da também australiana Belle Gibson (foto), ela conseguiu convencer a sua audiência de que tinha curado um cancro. Milhões de pessoas – só no Instagram tem 200 mil seguidores — acreditaram no que Belle dizia: que curara um cancro do cérebro com alimentação macrobiótica e terapias não-convencionais, durante quatro anos (2013-17).
A partir daí transformou-se numa guru da cura do cancro — com todos os lucros inerentes, que ascenderam a cerca do meio milhão de dólares (c.50 mil contos). E mais: prometeu doar os lucros dos livros que publicou a causas solidárias, o que também foi mais uma mentira.
Estudiosos do fenómeno apontam que ela — que sofrerá de desvios comportamentais — não teria chegado tão longe se diversas cadeias de televisão e outros media, além de empresas não tivessem tirado proveito da situação.
As narrativas acima, relatadas em órgãos The Sunday Telegraph, Daily Mail, Global News, têm o mesmo caráter que outras que atravessam o planeta global onde a solidariedade de uns é muitas vezes transformada em deturpação.
As histórias abundam, também entre nós, com as fraudes e burlas a tomarem as mais diversas formas. O funcionário que trai a sua instituição, talvez por deficiência de fiscalização. Os burladores que ora se aproveitam da credulidade, ora contam com a ganância do burlado, como acontece nas famosas ’nota preta, ’cartas da Nigéria’.
Histórias de empréstimos que nunca são devolvidos e se tornam empresta-dados. Fiadores que ficam a ver navios enquanto os afiançados se vão caminho da emigração afora ... E por quem rezamos para ganharem juízo e não nos envergonharem — porque se este planeta azul é a nossa casa, neste petit pays sentimo-nos todos perto demais.
Praia














