NOS KU NOS

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Toponímia capitalina — O galo da vizinha 25 Fevereiro 2018

Podia ser "Rua do Galo da Vizinha" essa rua sem nome dum bairro novo? As artérias do Plateau já tinham nome (às vezes mais que um, como a desta foto, chamada Praça Dr. Lereno, Praça Camões, Pracinha da Escola Grande e, por estes dias, até Praça Sofia), mas as ruas dos bairros nascentes não. Cogito que aqui não pegou a moda de cidades onde se davam números às ruas até que elas tivessem um nome – tributo a um herói ou simples denominação motivada por uma certa caraterística da geografia física e ou humana.

Por: Luiz Cunha

Toponímia capitalina — O galo da vizinha

Na minha infância no mundo rural, os galos cantavam para nos dizer que o dia estava a nascer.

E assim continuou até que a emigração do pai permitiu ir para a escola na vila, onde a luz elétrica já tinha chegado. Também aqui os galos continuavam a cantar para anunciar o dia – talvez porque as lâmpadas da rua alumiavam só até certas horas, que toda a gente sabia quais eram.

Depois vim estudar para a cidade grande. A eletricidade era contínua – quando não havia apagões. Dizia-se que era contínua, mas a regra virou exceção que virou regra, entrou na rotina.

Também os galos daqui me desnorteavam : o galo da vizinha marcava não só o nascer do dia, mas cantava todo o santo dia.

Quantas sestas interrompidas? Quantas erupções cutâneas não provocou esse canto fora de horas? A senhora do rés-do-chão certo dia não se conteve e em conversa com a do primeiro andar atirou, num português língua estrangeira aprendida na sua terra fria do Norte:

- Um dia desses vou pegar esse galo para fazer um churrasco!

Pensava ela!

- Quem ela pensa que é, para pôr a boca no meu galo? – abespinhou-se a dona da ave.

(Traduzo "para pôr a boca em", no sentido de comer. Mas o que a vizinha disse na língua primeira, materna, pode ser diferente. Será que ela quis dizer "para falar mal de"?)

A conversa nunca era bem uma conversa. A do rés-do-chão monologava com a do primeiro andar. A dona do galo, da casa térrea do outro lado da rua de trás, para onde davam quintais e marquises, tinha como ouvintes mudos todos nós. Ela falava alto! Seria o costume no seu cutelo – cogitava eu, enquanto resolvia um problema de álgebra ou de expressões, ou de sintagmas. A realidade viva a chamar-me, estudante vindo da minha parvónia com uma missão bem clara de nunca chumbar.

- Ponho a mão e tudo nesse galo que me aperreia.

(Este "aperrear" seria de alguma das "novelas" que as senhoras viam, em horas combinadas, em casa duma felizarda que as recebia. As vindas de Portugal cassetes gravadas.)

A guerra estava declarada. Todos os dias havia bate-boca. O galo cantava o dia todo, a moradora do rés-do-chão ameaçava, a dona defendia o galo.

Certo dia, o silêncio após mais um cantar de galo após o almoço. Nem me tinha dado conta que o rés-do-chão estava vago! Teria o galo vencido?

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade
Cap-vert
Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project