OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Tributo de Pedro Pires a Luis Cabral 01 Junho 2009

Foi com profunda mágoa que tomamos conhecimento do falecimento, ontem, em Lisboa, do combatente da Liberdade, Luís Almeida Cabral.
Um destino desejado e assumido ligou-nos para sempre: a luta de libertação da Guiné e Cabo Verde. Assim nascia a nossa amizade pessoal. Por: Pedro Pires*

Luís Cabral foi um dos fundadores do PAIGC, naqueles tempos de revolta, de sonho, de incertezas, de sacrifícios e de disponibilidade íntima em apostar e servir a causa da libertação da África e dos nossos países, então, oprimidos e humilhados.

Arriscando-se, desprezou confortos pessoais e abandonou um certo desafogo material para se entregar, de corpo e alma, à luta emancipadora da Guiné e Cabo Verde.

Pessoa de convicção, acreditava obstinadamente na vitória da nossa causa. Optimista de natureza, confiava nas nossas capacidades em ultrapassar as enormes dificuldades e vencer desafios com que se confrontava numa luta como a que conduzíamos contra o colonialismo, o que finalmente aconteceu.

Depois de exercer altas funções de direcção no PAIGC, durante a luta de libertação, foi eleito Presidente da República da Guiné-Bissau, por ocasião da proclamação unilateral da independência, em 1973.
Com elevado espírito de patriótico, interiorizou a ideia de fazer da Guiné-Bissau um Estado viável e desenvolvido. E, curiosamente, o seu projecto mais ambicionado poderá ver-se concretizado nos tempos próximos, cerca de trinta anos depois da sua concepção.

Terá sido traído pelo seu desejo crédulo de querer avançar depressa demais, subestimando as resistências sociológicas da sociedade guineense? Aqui, cabe aos historiadores a tarefa de análise e esclarecimento desse período fértil da história guineense, carregado de sonhos, mas também, de convulsões e retaliações.

Após o golpe de Estado de Novembro de 1980, Luís Cabral foi forçado a viver fora do país, por que sonhou, lutou e serviu. Este facto terá sido a face mais dramática e dolorosa da sua existência. Pois, é aquilo que nunca devia acontecer: forçar um combatente da independência a viver no exílio. São erros ou fatalidades que os dirigentes políticos devem ter a lucidez e generosidade para os corrigir a tempo e hora. Assim, ontem, 30 de Maio, Luís Cabral terminou os seus dias em Lisboa.

Conhecendo o estado frágil da sua saúde, mantive nos últimos meses contactos regulares e frequentes com Luís Cabral. Desabafou comigo o seu desconforto e repúdio pelas últimas e arrepiantes violências que se verificaram a 2 de Março, em Bissau. Era esta a sua forma generosa de estar.

Nesta ocasião de pesar, é a este Combatente da Liberdade, ao Amigo e Companheiro de Luta, que presto uma merecida homenagem, também, em nome dos cabo-verdianos no geral.

À sua viúva, Josefina, aos seus Filhos, Patrick, Djamila, Kítana, Fernando, Amílcar, Marilena e Aníbal, manifesto o meu profundo pesar e expresso os sentimentos de solidariedade, meus, da minha Família e dos cabo-verdianos.

Bem-haja a memória de Luís Almeida Cabral!

* Presidente da República de Cabo Verde

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