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Trump ’perdoa’ sufragista condenada há 148 anos — Curadora está contra 29 Dezembro 2020

A curadora do Memorial de Susan B. Anthony (1820-1914) indignou-se com o perdão anunciado em agosto, mas o presidente concedeu-o neste seu último Natal na Casa Branca. Controverso como o "chocante" perdão que Trump concedeu a Charles Kushner e outros seus aliados no "conluio com a Rússia", é este ato de clemência à sufragista detida em 1872 por ter votado — ilegalmente, já que as americanas não tinham direito ao voto.

Trump ’perdoa’ sufragista condenada há 148 anos — Curadora está contra

A reformista social Susan B. Anthony começou por se destacar ainda adolescente como abolicionista. Ao distribuir panfletos "pela liberdade aos escravos" dizia-se inspirada por Harriet Tubman (n. escrava em 1822) e Frederick Douglass (n. escravo em 1818). Aos dezassete anos participou na primeira convenção pela abolição da escravatura, em 1837, com o apoio do pai e dois irmãos.

Em nome da liberdade da pessoa humana, o combate pelos direitos dos escravos confundiu-se com o dos direitos das mulheres. Os ativistas de um e outro combate começaram a andar de mãos dadas.

Abolida a escravatura, Susan continuou a luta pelos direitos das mulheres e liderou a proposta que levou Victoria Woodhull a tornar-se, em 1872, a primeira mulher a candidatar-se à presidência da República. Uma proeza à luz do facto atual que é, cento e quarenta anos depois, a primeira democracia moderna ainda não ter conseguido eleger a sua primeira presidente.

Em novembro de 1872, Victoria é uma candidata em quem podem votar as sufragistas, que concertadamente começam a reclamar o direito de voto. Como previsto, é-lhes recusado o direito e elas dão entrada de dezenas de pedidos ao Supremo tribunal para reverter a decisão.

Victoria e Susan viriam, como previsto, a ser detidas nessa luta pelo direito de ser eleita e de votar. Levada a julgamento três meses depois, em 1873, a Susan sufragista após ser sentenciada a cumprir uma pena de dois anos de prisão e a pagar a astronómica multa de cem dólares (mais de 100 mil contos em dinheiro atual), fez um discurso em tribunal que entrou na história dos direitos humanos.

"Meritíssimo", disse ao juiz Hunt, "o senhor pisou todos os princípios da República que nos governa desde 1776 [ano da independência]. Ignorou os meus direitos naturais, direitos civis, direitos políticos. Vossa Excelência roubou-me o privilégio fundamental da cidadania, degradou-me do estatuto de cidadã para o de objeto; e não só me atingiu como indivíduo mas também atingiu todas as mulheres, com este veredicto — com que pretende manter-nos debaixo do domínio político desta dita forma de governo".


Sufragistas

Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton, por um lado, e Lucy Stone e Frances Ellen Watkins Harper são os rostos mais visíveis das duas principais organizações que lutavam pelos direitos das mulheres, desde os anos de 1840.

Só em 1890, as três principais organizações competidoras viriam a federar-se numa única organização, a NAWSA-National American Woman Suffrage Association /Associação Nacional pelo Sufrágio das Mulheres da América.

O "sufrágio" entrou na designação (em acrónimo) em prol do projeto sufragista, embora a designação para as suas ativistas só tenha surgido mais de meio século depois do surgimento do movimento que rompeu com o statu quo.

Esse movimento pela igualdade de direitos tinha raízes mais fundas, porém, que se estendiam ao Iluminismo francês. Chegaram à Inglaterra, aos salões literários de fins do século XVIII, com os fugidos da Revolução Francesa. Depois evoluiu como movimento anti-escravatura e foi levado para os Estados Unidos.

Apropriações e ... um imbróglio jurídico financeiro?

Há a apropriação positiva: a das mulheres organizadas em defesa do sufrágio universal que passaram, a partir de 1903, a ser conhecidas por sufragistas, continuadoras duma luta iniciada à volta de 1840, pelos direitos iguais, que tinham virado o bico ao prego, apropriando-se do pejorativo com que a imprensa as apoda.

Há outra apropriação, que como escreveu a curadora do Memorial a Susan B. Anthony pode ser um imbróglio jurídico financeiro. Isso estará por trás da recusa do perdão presidencial — tido como de apropriação oportunística.

"A presidente do National Susan B. Anthony Museum and House", lê-se no site da organização, escreveu a "declinar" a oferta dum perdão 148 anos depois. A justificação é que aceitá-lo serviria para "validar" todo o processo legal, incluindo a pena pecuniária.

Quatro meses depois, porém, Trump cumpre o benefício indesejado que anunciou no ato solene que celebrava, em agosto próximo passado, o centenário da 17ª Emenda. Esta alteração foi introduzida em 1920 na Constituição para incluir o direito de voto das mulheres.

Fontes: Washington Post/...

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