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Turquia: Erdogan 5 anos depois do golpe para o derrubar tem mais poder 16 Julho 2021

A tentativa de golpe de Estado de 15 de julho de 2016 foi uma oportunidade de ouro que Erdogan soube aproveitar como mostra o poder que detém cinco anos depois. Reorganizou a sua estrutura de poder, reforçou a sua autoridade e afastou os seus mais temidos adversários políticos. E se muitos apontam que Erdogan comandou a encenação, outros apostam, mão no fogo, que não..., não foi uma encenação da Presidência sob o nada diplomata a roçar a descortesia, o turco Erdogan de mão férrea.

Turquia:  Erdogan 5 anos depois do golpe para o derrubar tem mais poder

O poder que Erdogan tem vindo a acumular desde esse dia, há cinco anos, demonstrar-se-á com o mais recente lance, nem há três semanas, quando a União Europeia aprovou renovar o contrato de mais três mil milhões de euros à Turquia, guardiã das fronteiras com a Grécia para impedir a passagem de cerca de quatro milhões de refugiados sírios em solo turco (ver abaixo).

Nesse 15 de julho de há cinco anos, minutos depois de ter aterrado em Istambul, interrompendo as férias para lidar com o golpe de Estado, o Presidente Recep Erdogan fez uma comunicação televisiva ao país em que resumiu a sua leitura dos acontecimentos: "Foi uma dádiva dos céus".

Nos dias seguintes à tentativa frustrada, foram detidos mais de 50 mil oficiais militares, governadores e funcionários públicos (incluindo 2.700 juízes) e mais de 15.000 professores (incluindo todos os reitores de universidades do país), acusados de associação à intentona.

A reorganização militar começou pelo desmantelamento de quase metade do exército turco. Recep Erdogan teve assim espaço para solidificar as bases das Forças Armadas, para proteger a sua presidência contra qualquer futura tentativa de deposição.


De frágil a omnipotente

Se dantes a posição do presidente turco era frágil — porque a sua agenda conservadora e, em alguns casos, extremista, constituía uma brecha que a oposição usava para o acusar de ter abandonado a promessa de governar para todos os turcos e não apenas para a maioria islâmica —, doravante Erdogan ia aproveitar a tentativa de golpe de Estado para atirar culpas aos Estados Unidos, que além disso dera guarida a Fethullah Gulen, teólogo turco, empresário e académico que vive no estado da Pensilvânia e lidera um movimento de oposição ao regime de Erdogan, mesmo se Gulen sempre negou qualquer envolvimento com os acontecimentos de 2016 condenou publicamente a iniciativa.

O êxito de Erdogan foi imediato e o seu poder interno reforçou-se, ao apontar Washington como mentora das operações da facção militar que se autointitulou "Conselho de Paz em Casa" e cujos membros nunca foram identificados.

Nesse golpe falhado de 2016, mais de 300 pessoas morreram e mais de 1.200 ficaram feridas, depois de intensos bombardeamentos aéreos contra edifícios governamentais. Com a situação a descontrolar-se, os revoltosos acabaram isolados, sem apoio popular e até sob críticas dos partidos opositores do AKP e de Erdogan.

Nas primeiras horas da madrugada de 16 de julho de 2016, milhares de soldados envolvidos na ação começaram a entregar-se às forças policiais, que se mantiveram fiéis ao regime, e o primeiro-ministro adjunto, Numan Kurtulmus, apareceu na televisão pública e garantiu que o partido AKP de Erdogan controlava o país.

Encenação?

Vários meios de comunicação social ocidentais interpretaram o golpe de Estado como uma encenação do próprio Recep Erdogan, com dois objetivos principais. Um, melhorar a sua imagem. Outro, criar a circunstância ideal para — como vítima de um ’complot’ injusto e injustificado — obter o "salvo-conduto" que o libertaria de alguns dos mais incómodos adversários políticos.

As suspeitas adensaram-se quando se percebeu que nem um único funcionário do governo fora detido e que a resistência dos ’rebeldes’ foi rapidamente vencida, sem que existisse sequer uma tentativa séria de deter ou matar Erdogan, condições consideradas essenciais para o sucesso da operação.

No rescaldo da tentativa falhada, o Presidente viu a sua posição reforçada: milhares de turcos convergiram nas ruas das principais cidades a condenar o golpe e a exigir a instituição da pena de morte — que tinha sido abolida em 2004, para procurar responder a uma pré-condição de entrada da Turquia na União Europeia — para punir os seus responsáveis.


Liberdade para reprimir

Três semanas depois, em 20 de julho, o presidente declarou o estado de emergência de três meses (que seria prorrogado por mais três meses).

Com isso, a presidência de Erdogan — apesar de denunciada nos relatórios da Amnistia Internacional por atos de tortura a muitos dos detidos e por alegadamente impor um regime de terror — pôde suspender temporariamente os requisitos da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, incluindo o direito de manifestação de protesto.

Economia

Externamente, a Turquia ficou mais isolada, com a União Europeia e Estados Unidos a condenarem a repressão contra os revoltosos e a acusar Erdogan de não respeitar o Estado de Direito e de procurar eliminar a oposição democrática.

Este isolamento político levou a uma fragilização económica do país, com a divida soberana sob pressão das agências de ’rating’, forte desvalorização da sua moeda e um período de recessão que afetou toda a sociedade.

Nem por isso Erdogan abriu mão da sua abordagem autoritária no regime cada vez mais rígido e menos transparente. A revisão constitucional, em 2017, permitiu-lhe um substancial reforço dos poderes presidenciais e nada vai mudar esse cenário até 2024.

Jogo de cintura. Externamente, Erdogan, dizem vários estudos, vai manter a mesma estratégia. Vai continuar o jogo de cintura pelo qual conseguiu o quase impossível desafio de desafiar a Grécia na exploração de espaço marítimo no Mediterrâneo Oriental e manter aproximações com a União Europeia, ou sem abrir mão da aliança ao regime de Putin manter-se dentro da NATO e agradar aos Estados Unidos, enquanto se mostra aliado dos países árabes e tenta restabelecer relações com o Estado de Israel, então governado por Netanyahu e que deve manter na nova governação de Bennett-Lapid.

Cinco anos após a tentativa de golpe de Estado, Recep Erdogan tem a prerrogativa de, na política interna, responder à falta de pão com mão férrea. Um exemplo recente: sobre estudantes universitários que protestaram contra a escolha de um reitor fiel ao regime, Erdogan disse que eram terroristas e pôs na cadeia os cabecilhas do movimento.

Os jogos de cintura de Erdogan, na frente interna também, continuam, pois, em nome do seu futuro político pessoal — que esteve em risco há cinco anos.

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Fontes: Le Monde/Deutsche Welle/. Foto (AFP): Campo de refugiados na Turquia-tampão, para evitar corrida descontrolada rumo aos países da UE.

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