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A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Um cão assim pode estar na praia? 14 Agosto 2019

Este sereno atacado de carraças nunca se sacode, porque será? O outro, antítese de serenidade, terá o mesmo a parasitá-lo? Ou serão pulgas? Mordem mais as pulgas ou as carraças?

Um cão assim pode estar na praia?

Cães na praia, na Praia e além. Agosto na praia do Tarrafal. Há cães por todo o lado. Um duo canino segue duas turistas. Alguém comenta que é sempre assim, um ou mais cães à espera de que caia um naco para trincar. Farejam mochilas com sandes de carne e ali vão as quatro patas, a solo ou em sociedade.

Há um outro duo, um branco, outro preto, que ocupam há horas o areal, de forma nómada. Percorreram a praia toda, deitaram-se em todo o lado, sempre com a mesma tática. Há um que se deita e enrosca-se, preguiçoso. Há outro que escava um buraco para nele se deitar. Entre uma e outra paragem, já vão na sétima às onze da manhã, há um que se coça imenso, sacode-se muito. Sacudirá a areia?

Observação continuada mostra que é pouco provável já que só se sacode quando está a caminhar, antes de se deitar.

Do mar observo que agora estão deitados perto de mim. Reduziram o meu território delimitado por duas toalhas, um à esquerda, outro à direita. Mau, maria!
Aproximo-me da minha toalha e aí ocorre-me que o cão que está sempre a sacudir-se fá-lo-á para se livrar das pulgas. Pulgas saltam, podem ter saltado para a minha toalha.

Um exame tranquiliza-me. Mas vou observar de perto o sima bo ma min de quatro-patas que nunca se sacode. Sobre o lombo muito branco, longe ainda quase um metro, vejo uma mancha negra a saltar. Olho mais de perto e vejo: uma carraça!

Este sereno atacado de carraças nunca se sacode, porque será? O outro, antítese de serenidade, terá o mesmo? Ou serão pulgas? Mordem mais as pulgas ou as carraças?

Os cães que acompanhei em várias gerações, quase todos em algum momento apanharam carraças e tiveram de ser tratados. Ter em casa um amigo fiel obrigava-nos a alguns sacrifícios porque as zoonoses espreitam e pedem veterinário, medicamentos para as doenças, shampoos para matar os parasitas.

Olho do dono

O fido da primeira geração era o meu cão com tónica ó! Reza a lenda familiar que o seu nome foi a primeira palavra que pronunciei ao lado do da prima favorita, também em tónica ó!, numa mesma rima. Mas para esse nunca houve veterinário, nem medicamentos para a doença final que o atingiu. O dono dele, meu pai, levou-o consigo um dia e nunca mais o vi.

Só quarenta anos depois soube o que lhe aconteceu: fora levado para morrer longe.

Perto de nós morreram os das gerações mais recentes: o Tarzan, o Johnny, a Tatiana, o Snoopy, o Benny. Quase todos em algum momento apanharam carraças e tiveram de ser tratados.

Mas os cães sem donos?!, Senhor, aqui até os lírios precisam de cuidados, senão morrem secos antes de poderem mostrar o esplendor das suas vestes maior que o do rei Salomão.

Posturas de município, indignação de munícipes

Os cães sem donos nas praias, Prainha, de Quebra-Canela (na língua mãe, Kebra-Kanela, não se confundam ortografias), de Baía Verde, de Mar de Baixo, de São Francisco…

Indignados amigos de cães lembram-nos que eles são entre nós indesejados nas praias. Alguém partilha a foto de cães salva-vidas na Croácia. Um dia talvez cheguemos lá, contraponho-lhe. Um croata esteve por cá a mandar durante três anos de 1818 a 1821 e tanto quanto reza a história não há nada sobre posturas para gáudio de futuros fundadores de partidos de defesa de animais.

Uma indignada conta esta semana de um caso na Praia de Quebra-Canela: o cão brincava na areia. Um polícia conversava com um amigo. Este atirou um punhado de areia ao cão para o afugentar.

A indignada perguntou ao polícia por que permitia isso. O polícia respondeu que a lei proíbe cães “na praia de mar”. A indignada retrucou que há pessoas a sujar a praia e se não há lei contra pessoas que fazem lixo na praia. Com a discussão a prosseguir, fui à minha vida.

Mas horas depois pensei no assunto. E vi que não é algo simples, que há todo um complexo de relações que têm de ser tratadas de modo adequado para que se respeite todos do nosso ecossistema.

Ter um cão é um compromisso, exige responsabilidade, não podemos tê-lo agora para logo o abandonarmos, assim que ele se tornar um empecilho. Porque suja, ou porque vamos de férias, ou porque está doente…

Um cão na praia tem de ter o dono consigo. Há o calor, há a areia, há a água do mar, tudo a exigir cuidados a dispensar ao seu cão. Como se cuida de uma criança na praia.

Tem de ter cartão de sanidade (vacinas em dia, desparasitação atempada…), já ouviram falar no bicho geográfico?

Tem de saber comportar-se: não andar a escavar, a atirar areia e atingir quem está ali a gozar a sua praia.

E se na outra ponta da trela, não houver a mão do dono, vamos exigir ao município que se responsabilize.

LS

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