REGISTOS

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Um dos mais antigos templos da África subsaariana volta a receber arqueólogos 01 Novembro 2022

Uma equipa de arqueólogos da Universidade de Cambridge inicia hoje, dez anos depois da primeira operação, a segunda fase das escavações em Alcatrazes, Cabo Verde, um dos mais antigos templos católicos da África subsaariana.

Um dos mais antigos templos da África subsaariana volta a receber arqueólogos

Com esta prospeção, que teve sua primeira fase em 2012, pretende-se aprofundar o conhecimento sobre a história daquele sítio, classificado como património nacional, que fora em tempos a Capitania do Norte, no mesmo período que a Cidade Velha”, explicou fonte do Instituto do Património Cultural (IPC) cabo-verdiano.

No terreno, os trabalhos na área da Igreja de Nossa Senhora da Luz, com mais de 500 anos, serão conduzidos pelos arqueólogos Cristopher Evans e Marie Louise, com o apoio, ainda, da Câmara Municipal de São Domingos, ilha de Santiago.

De acordo com o IPC, esta nova fase da prospeção tem uma componente como local de “fundação portuguesa”, para estabelecer a “extensão e gravidade dos danos causados recentemente”, encontrar as partes em melhor estado de conservação, “escavar com sonda para recuperar mais material para datação e exibição futuras”, e ainda “coleta de história oral” e para “iniciar a avaliação do potencial turístico local”.

Enquanto local “luso-africano”, os trabalhos adicionais visam estabelecer a extensão do local e avaliar as necessidades de conservação, entre outros.

Localizada na parte oriental da ilha de Santiago, perto de uma baía hoje desolada, Alcatrazes terá sido, segundo os historiadores, a segunda povoação de Cabo Verde, desenvolvida em 1462, ao mesmo tempo que Ribeira Grande (hoje Cidade Velha, património da Humanidade), mas foi abandonada meio século depois devido à aridez do local.

Havia uma senhora que dizia que se a Cidade Velha é o berço, aqui temos a criança. Ter um berço sem ter o filho não vale a pena”, contou em 2020, à Lusa Janilson Silva, o padre católico que lidera a comunidade da antiga povoação de Alcatrazes, hoje no município de São Domingos.

Do período da descoberta da ilha pelos portugueses, chegaram aos dias de hoje a igreja católica, gótica, de Nossa Senhora da Luz. Datada de 1480, será a segunda mais antiga da África Subsaariana, depois da da Cidade Velha, e foi totalmente reabilitada em 2020, bem como uma cruz em pedra, local de peregrinação, a poucas centenas de metros da baía.

Tudo o resto foi levado pelo tempo, não fosse Alcatrazes situada sobre uma achada árida e pedregosa, que começou a ver desaparecer as primeiras casas em 1516, com os habitantes a mudarem-se para a ‘irmã’ Cidade Velha, do outro lado da costa, e outros para uma nova povoação que estava a surgir: a Praia.

A história desta terra começa em 1460, quando as ilhas de Cabo Verde foram encontradas por António de Noli (genovês ao serviço da coroa portuguesa) e Diogo Gomes, navegador português (as ilhas do Barlavento - Santo Antão, São Vicente e São Nicolau foram encontradas depois).

O reino decidiu então povoar a maior ilha, Santiago, dividida em duas capitanias. António de Noli recebeu a Ribeira Grande (Cidade Velha), e Alcatrazes, atual Nossa Senhora da Luz, ficou com Diogo Afonso, que descobrira as ilhas do Barlavento.

António de Noli chegou à Ribeira Grande como capitão-donatário dois anos depois da descoberta, com família, amigos e trabalhadores contratados, estabelecendo aí o primeiro povoado.

Mas logo a seguir, provavelmente no mesmo ano de 1462, segundo os historiadores, Diogo Afonso começava a edificar Alcatrazes.

Com raízes profundas de uma evangelização que começou há mais de 500 anos, a reabilitação do templo e a classificação como Património Nacional - por decisão do Governo em setembro de 2020 - do conjunto histórico e arqueológico de Alcatrazes, envolvendo uma área total de 2,7 quilómetros quadrados, deu mais força ao sonho de ali construir o grande santuário mariano de Cabo Verde.

A reabilitação desta igreja já foi um pontapé para arrancarmos com o futuro santuário dos Alcatrazes / Baía de Nossa Senhora da Luz. Esta zona, há muitos anos, atrai milhares de fiéis, tem uma importância muito significativa, sobretudo para os que não vivem cá”, explicou o padre Janilson Silva.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é local de peregrinação, principalmente, a de 08 de setembro, dia da padroeira, tendo a reabilitação do templo custado ao Estado cerca de 18 milhões de escudos (163 mil euros).

A cerca de 30 quilómetros da Praia – quase metade dos quais fora das estradas principais -, a classificação do conjunto histórico e arqueológico de Alcatrazes teve um “novo impacto” na população local, que ainda recorda o tempo em que era em Alcatrazes que estava a Capitania do Norte da ilha de Santiago (e do Sul na Cidade Velha), contou o padre.

De certeza que irá trazer gente de várias zonas e países e até promover o turismo religioso e cultural”, admitiu o pároco, que três vezes por semana celebra a eucaristia naquela igreja, algo que ali é praticamente interrupto há mais de 500 anos. A Semana com Lusa

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade


  • Mediateca
    Cap-vert

    Uhau

    Uhau

    blogs

    publicidade

    Newsletter

    Copyright 2018 ASemana Online | Crédito: AK-Project