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Um olhar sobre as aldeias de Santo Antão: Vale da Ribeira de Duque (I) 20 Fevereiro 2022

Esta aldeia tem a forma serpenteada e é um vale muito profundo, ladeado de montanhas que parece bater no céu. Termia na nascente da ribeira, no sopé da zona conhecida por Roxo, do planalto de corda ou planalto de leste, e é um dos afluentes da Ribeira Grande onde desagua, que faz parte das vizinhas aldeias de zona do meio de tanque.

Por: Daniel Miranda Almeida Gomes

Um olhar sobre as aldeias de Santo Antão: Vale da Ribeira de Duque (I)

Vamos descobrir esta aldeia e seus encantos. O Vale da Ribeira de Duque ou Vale Verde é o nome atualmente usado carinhosamente pela nova geração, dado a sua vegetação exuberante. O vale dista 2,5 km da Cidade da Ribeira Grande e cerca de 8 km da sede do concelho, na Cidade da Ponta do Sol.

Esta aldeia tem a forma serpenteada e é um vale muito profundo, ladeado de montanhas que parece bater no céu. Termia na nascente da ribeira, no sopé da zona conhecida por Roxo, do planalto de corda ou planalto de leste, e é um dos afluentes da Ribeira Grande onde desagua, que faz parte das vizinhas aldeias de zona do meio de tanque.

Tem uma paisagem verdejante (ver fotos no rodapé deste artigo), e um declive muito acentuado devido à sua orografia.

O Vale da Ribeira de Duque possui três gargantas ou desfiladeiros: o de encontrim, ventoso e chifarada. É neste último desfiladeiro que possui as duas barragens de cerca de 200 metros, para retenção de águas no período das chuvas, para além de alguns diques e reservatórios ao longo do vale.

Recursos hídricos abundantes

A Aldeia é muita rica em recursos hídricos com riachos permanentes. Tem mais de cinco reservatórios de água, feitos de cimento, entre outros reservatórios de terra, ambos conhecidos por tanques. Os de cimento foram construídos pela antiga Brigada Técnica e Estudos de Trabalhos Hidráulica, nos anos de 1948 a 1951 pelos portugueses - Srs. Velasco e António Balão.

Os canais de rega, chamados levadas, construídas também nas datas já mencionadas, de cimento, e, as maiores são as de Maria de Lourdes, Ventoso, Barranco, Nova e Faxoca.

Os recursos hídricos são mal geridos. O sistema de rega é ainda de forma tradicional, por alagamento. Para modificar este paradigma, os agricultores carecem de apoios e formação para tirar a maior rentabilidade da produção agrícola e principalmente nos períodos de seca prolongada, em que os caudais se reduzem consideravelmente.

As nascentes de água servem não só para rega mas também para abastecer as populações desta aldeia, bem como para outras aldeias circundantes.

Nos anos 90, foi executado um furo na Barbinha, e construído um reservatório de água para abastecer a ligação aos domicílios, no âmbito do projeto de extensão rural, projeto esse que abrangia o concelho e a toda ilha, assim como o sistema de comunicação por telefone e eletrificação, tanto para habitação como também para a iluminação pública.

Este progresso se deve a iniciativa do então Edil da Camara Municipal da Ribeira Grande, nos anos 90, financiado pelo Grão-Ducado de Luxemburgo. Tudo para o bem-estar das populações rurais de Sto Antão.

Pecuária e agricultura diversificada

A agricultura é muita diversificada. As produções nas áreas irrigadas mais importantes são: a banana, o inhame, a batata-doce, a mandioca, a cana-de-açúcar, o café, a fruta-pão, a manga, a papaia. No sequeiro, temos o café, o feijão e o milho.

Nos anos sessenta, esta localidade produzia muita a banana, e no conjunto da ilha teve a participação no maior período de exportação para as outras ilhas e para a Europa. E com a interrupção dessa atividade e as secas persistente deu lugar a maior cultura de cana-de-açúcar. É deste produto que se extrai o suco conhecido por calda, para o fabrico de aguardente (grogue) e o mel. E com esses derivados de cana é que fazem os famosos ponches e licor, que são bebidas muito apreciadas por causa dos seus sabores.

A pecuária é de produção familiar. Predomina a criação de suíno e caprino, com pouca produção aviária e do gado bovino.

A população desta localidade, antigamente vivia exclusivamente da agricultura e da pecuária, dado as secas prolongadas o que levou nos anos 60 e seguintes a emigração intensiva para outras paragens da então metrópole (Portugal), bem como para o estrangeiro, principalmente para Holanda e outros países europeus, dando lugar a uma desertificação muita acentuada, estando as ruínas bem visíveis.
Porém, há já sinais de mudança, dado as melhores condições de fixação já referidas e, com o aumento da literacia e de possuir uma população jovem ativa muito escolarizada e de profissões várias, o que estimula a sua fixação no local, possibilitando assim as melhores condições de vida.

População empenhada

Atualmente Vale da Ribeira de Duque possui a maior concentração da população, formando já pequenos urbes que se situam na entrada desse afluente e ao longo das proximidades da estrada nos seus pendores, que termina no sítio de patchica.
Esta estrada é de terra batida, graças ao então administrador Minite Oliveira, que nos meados dos anos 60, a desencravou, e que até hoje, dado a persistência e resiliência dos habitantes, vem facilitando a mobilidade de pessoas e bens.

Tem uma população muito empenhada na procura do saber (conhecimento), tanto no concelho como fora dela, nomeadamente em outras ilhas ou no estrangeiro, onde tem fixado pessoas deste vale com muita qualificação superior - engenheiro, jurista, professor, economista e operários muitos qualificados tanto na construção civil, na construção de estradas, na agricultura, etc..Um fato que não acontecia até nos anos 50, em que poucos dos habitantes possuíam o ensino primário, principalmente a classe feminina que frequentava muito pouco o ensino escolar.

Contudo, a demonstração de resiliência não fica por aqui, é de verificar a luta dos antepassados que transformou esses pendores agreste, quase perpendicular, com lindos socalcos ou patamares – chamados regos ou plares, para atenuar os efeitos dos grandes declives das encostas, possibilitando assim as condições para agricultura.

Festas tradicionais e gastronomia rica

A aldeia também é conhecida pela sua boa gastronomia que é confecionada com tanto amor a que a torna muita deliciosa. O destaque vai para o famoso cozido de verdura, a feijoada, o guisado de «Manel Antone», a cachupa (o prato cabo-verdiano) e a «cachupa pobre» que antigamente se dizia «cachupa nu» (só com o milho, a água e sal) para as pessoas com dificuldades económicas. Mas os pratos eram muitos apreciados pelos forasteiros, nos convívios e nas noites de bailaricos, como por exemplo nas festas de batizados e de casamentos.

Contudo nestas festas, a presença de bolos eram poucos expressivos.
Nos períodos das três festas religiosas de romaria nos meses juninas, as de Santo António no Paul, São João no Porto Novo e a de São Pedro em chã da Igreja da Garça, muitas pessoas deslocavam todos os anos a essas localidades.

Estas festas, eram muitas apreciadas e em especial a de São João Baptista, quando “fugiam” às escondidas das famílias para o Porto Novo, que era uma caminhada apeada ou montada em cavalos ou mulas, porque até o início dos anos sessenta ainda não havia estrada que ligava Ribeira Grande ao Porto Novo. As viagens duravam 2 a 3 dias, ida e volta.

No regresso era uma festa rija, normalmente em casa do fugitivo, e, com a chegada, eram recebidos com o rufar dos tambores e depois era procedido de baile com diversos instrumentos de corda (violino, cavaquinho, viola de 12 cordas, violão, bandes, chocalho, pandeiro etc.), que se juntavam os familiares, vizinhos e amigos.
Todos se divertiam com muita alegria e desejavam que o outro ano seria melhor.

Colocar o Vale na rota turística

No entanto, a aldeia - Vale da Ribeira de Duque - carece de mais diques ou represas para retenção das águas das chuvas para fortalecimento das nascentes e reduzir os estragos provocadas pelas cheias periódicas.

É de referir os caminhos vicinais que precisam de requalificação, nomeadamente o da descida de selada de Arouca ou do portão até ao sopé de descida de Dona Benvinda, e o de chã de cima à Figueira de São João, em Figueiral, via essa muito usada pelas pessoas dessas duas localidades, transpondo ao lombo quinze reis, onde já causou, no passado, alguns perigos de segurança, ou seja, letal, entre outros constrangimentos. Isto tudo para facilitar a maior mobilidade de pessoas e bens no Vale da Ribeira de Duque e fazer o mesmo constar na rota do turismo rural de Santo Antão, que tanto reclamam os visitantes.

Abril de 2020

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