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Vida incrível de Cesária Évora derrubou barreiras e preconceitos - realizadora 19 Outubro 2022

Cesária Évora reunia um conjunto de características que aparentemente eram barreiras ao sucesso, mas a sua “vida incrível” acabou por transformá-la numa diva que revelou Cabo Verde ao mundo, segundo a realizadora de um filme sobre a cantora.

Vida incrível de Cesária Évora derrubou barreiras e preconceitos - realizadora

Ana Sofia Fonseca tomou a decisão de fazer um documentário sobre a vida de Cize, como era conhecida, uns dias depois do seu funeral, em 2011, quando se deparou com a tristeza e a solidão que enchia o olhar das pessoas no seu Mindelo, ilha de São Vicente.

Apaixonada por Cabo Verde, a jornalista e contadora de histórias, que estreia no dia 27 de outubro o filme Cesária Évora nas salas de cinema portuguesas, disse à Lusa que Cize “tinha colada à sua pele um conjunto de preconceitos: mulher, negra, pobre, não é particularmente bonita, vive em África e tem mais de 50 anos quando alcança o sucesso. Isto não é a história habitual”.
Apesar disso, Cesária vence e, principalmente, “constrói pontes” e “traz Cabo Verde do meio do Atlântico para o mundo”.

A realizadora, que tem casa no Mindelo, afirma que “toda a gente em São Vicente tem uma história da Cesária Évora para contar”.

E reconhece: “Uma das coisas que me impressionou muito na Cesária foi o seu apego à liberdade – o quanto ela era livre”.

Apesar de não a ter conhecido pessoalmente, Ana Sofia Fonseca construiu alguns dos seus mais importantes passos através de documentos, imagens, mas sobretudo depoimentos, dos amigos de infância à família, dos vizinhos aos famosos com quem dividiu os palcos, mas sobretudo do amigo e produtor José (Djô) da Silva que a levou aos maiores palcos do mundo.

“Só depois do encontro com o José da silva e de começarem a fazer pequenos espetáculos em França e a Cesária Évora ter ido a um espetáculo no festival Músicas do Mundo é que ela alcança o sucesso”, disse.

Apaixonada pela voz de Cize, a realizadora debruçou-se essencialmente na pessoa. “Ela podia não ser assim, ela podia ter-se deslumbrado com a fama. É uma mulher excecional (também no sentido de exceção). Ela não se deslumbra com a fama, ela usa a fama para ajudar os outros, também a si, mas ela contentava-se com o que nós tendemos a achar pouca coisa e a julgar como adquirido”.

“Ela é feliz tendo uma casa, onde albergar a família, tendo um carro para andar, porque tem problemas nos pés, tendo comida e comida para dar aos outros”, adiantou.

E sublinha: “É preciso conhecer a mulher para perceber melhor a voz, que nos emociona, arrepia, tanto nos faz acreditar no amor como chorar. Eu quis ir além daquela ideia do veio do nada, conquistou o mundo, manteve-se igual a si própria e era feliz a ajudar os outros. Tudo isso é verdade, mas há muito mais do que isso”.

E deste relato também consta a doença bipolar que afetava a diva dos pés descalços, o que “ajuda melhor a perceber muitas das atitudes da Cesária”.

Para Ana Sofia Fonseca, “isto ajuda a perceber a Cesária, não a define, mas ajuda a perceber algumas coisas da Cesária”, como o isolamento.

“É importante falar destas questões até para elas deixarem de ser questões”, adiantou.

E sobre a história de vida de Cesária, a realizadora identifica “uma mensagem de esperança”.

“Não importa muito de onde se vem, mas o que se pode alcançar. Tudo é possível, a vida de qualquer um pode mudar a qualquer instante”, disse.

E também de uma enorme generosidade: “Na mesa da Cesária havia sempre espaço para todos e ninguém era mais que ninguém”.

O filme “Cesária Évora”, produzido pela Carrossel Produções, em associação com a Até ao fim do mundo, foi integrado na seleção oficial da edição de 2022 do Festival South by Southwest, que decorreu entre 11 a 20 de março, em Austin, nos Estados Unidos.

A Semana com Lusa

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