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Única sobrevivente, 12 anos, caiu e aguentou 10 H no mar — Rara testemunha pós-catástrofe aérea 10 Abril 2019

Bahia Bakari ’a menina milagre’ só se lembra de ter estado, entre dores lancinantes, agarrada mais de nove horas a um destroço do avião. E quando o realizador Spielberg lhe propôs um filme ela disse não, com medo de reviver tudo de novo.

Única sobrevivente, 12 anos, caiu e aguentou 10 H no mar  — Rara testemunha pós-catástrofe aérea

’A menina milagre’ foi, no entanto, obrigada a lembrar — de cada vez que nos anos subsequentes os média a procuravam. Para completar o que dissera nos primeiros testemunhos do que viveu, ela aceitou sentar-se com uma jornalista para escrever um livro, publicado em 2010.

Esta primavera em Paris, mais uma vez convidada dum programa de televisão, Bahia Bakari revive tudo quase dez anos depois. Aos doze anos, a sua primeira viagem de avião, de Paris a Comores, a terra dos antepassados no Oceano Índico. Ela e a mãe estavam a bordo do Airbus A310 da ‘Yemenia Airways’, depois da escala em Aden, Iémen, ao fim de longas horas no voo da Air France.

Tinham feito mais de 8000 km desde Paris e agora aproximavam-se de Moroni. A capital comorense, na Grande Comore e que dista 300 km da Beira, Moçambique, estava a minutos de distância.

E de repente Bahia sente uma violenta turbulência, ouve o barulho dos motores no máximo, olha e vê as assistentes de bordo aterrorizadas. E não se lembra de mais nada.

Ao acordar na escuridão em pleno mar, agarrada a uma boia, como contou a única sobrevivente, mais uma vez convidada para falar da sua experiência traumática, quase dez anos depois, Bahia avistou uma mancha branca e nadou nessa direção, por entre dores lancinantes. Só muito mais tarde se deu conta de que era um pedaço do avião destroçado.

Agarrada a essa nova boia de salvação, Bahia pensava que a mãe lhe ia "ralhar por não ter colocado o colete salva-vidas", quando se encontrassem, "ali adiante na Grande Comore". Sede da capital, e de nome antigo Ngazidja, é a maior ilha do arquipélago das Comores.

“Eu não queria compreender essa realidade” que era a queda do avião. “O que me fez aguentar foi que me agarrei à ideia de que ia ter com a minha mãe que estava já nas Comores”.

Extenuada adormece sobre o destroço branco do avião na noite de breu. A luz do dia acorda-a e ela vê ao longe as montanhas, relembra. Ela acredita que a corrente vai atirá-la para a praia, que falta pouco para pisar terra firme. Mas as horas passam e ela continua longe da costa. As equipas de socorro comoronesas, na sua maioria pescadores que procuram recuperar os corpos das 153 pessoas a bordo do avião que caiu no mar, ainda estão longe.

«No momento em que pensava ’Ninguém me vai encontrar’, ouvi uma voz: ’Vem cá’». Olhou e era um bote. Tentou nadar mas o mar estava demasiado agitado. Foi então que um dos pescadores foi buscá-la.

Milagre!, gritaram os socorristas quando Bahia, que pensavam ser mais um corpo morto num destroço de avião, levantou a cabeça.

Bahia Bakari é a partir daí a ‘menina milagre’ do voo 626 da ‘Yemenia Airways’. É no hospital que ela recebe a notícia – que já circulou pelo globo – de que é a única sobrevivente dentre as 153 pessoas a bordo do avião. “Foi duro tomar consciência de que fui a única que sobreviveu ao acidente. E depois, é a tristeza, porque perdi a minha mãe”.

O que acontece no pós-catástrofe aérea

Bahia a ’menina milagre’ — a única sobrevivente dentre as 153 pessoas, na sua maioria da comunidade comoriana residente em Paris — é, além disso, uma rara testemunha do que acontece após um desastre de avião.

As horas de desânimo: não via o avião que a viria salvar e tinha de lutar contra o sono, com “o gosto de petróleo na boca” que se “mistura com o sal e queima-me a garganta, os pulmões, o estômago”. “Sofri de verdade”. Deixa de sentir o corpo, nem sabe que está ferida, com queimaduras no rosto, nos membros.

«No momento em que pensava ’Ninguém me vai encontrar’, ouvi uma voz: ’Vem cá’».

Ela conta ainda da ’realidade brutal’ que é saber-se a única sobrevivente mas também a insensibilidade de quem lhe deu a notícia de que a mãe morreu.

A ’realidade brutal’ aumenta também com o "desprezo da companhia aérea", a "perseguição dos média", "a vaidade dos políticos" que a visitam no hospital. Como o presidente Sarkozy, que lhe disse: "Tu vais ao Palácio com toda a tua família". Uma visita ao Eliseu, prometida à criança — que esperou em vão.

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Fontes: France24/Europe 1/... Fotos: (Getty Images): Bahia Bakari, em 1 de julho de 2009, tinha sido hospitalizada em estado de hipotermia, com a nuca fraturada e queimaduras no rosto e extremidades (braços e pés). Sobreviveu, diz, para cuidar dos irmãos mais novos órfãos da mãe, vítima do acidente.

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