OPINIÃO

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Macron sob derrisão — ’Coletes amarelos" espantam e Trump, afins e outros troçam do vencido por insurrectos indignados 08 Dezembro 2018

O mundo espantou-se com o movimento que, em França, começou por bloquear estradas. Protegidos por coletes amarelos, essenciais na prevenção rodoviária, os franceses do meio – onde a virtude mora, mas que a economia capitalista deixou exsangue – tinham reagido contra o anúncio de mais impostos sobre os combustíveis.

Macron sob derrisão — ’Coletes amarelos

Por: A.Teresa Pires Paulo

Mais que as análises sociológicas pós-modernas, são as parábolas dos evangelistas e os provérbios de Salomão que vêm à memória. Ou então os provérbios populares sobre o leão caído.

O protesto, que surgiu quase grito munchiano, cresceu. As ondas da emoção propagaram-se e a vertigem tomou conta do país. Macron o presidente inovador que ensaiou os passos para lutar contra o populismo que ameaça o mundo democrático, caiu como um leão ferido.

A derrisão de Macron está aí nos tuìtes de Trump, que se rejubila com "os motins provocados nesta França socialista pelos impostos da extrema-direita". A hora da vingança a soar para Trump a quem Macron quis ensinar a democracia. Macron, a esperança da República, após o esgotamento de esquerda, centro e direita. O sonhado líder mundial campeão da democracia Macron, ridicularizado por Trump, o presidente inimaginável, só tornado real num mundo sem norte — que perdeu a bússola que ao centro equilibrava a clivagem esquerda-direita.

A derrisão de Macron está também nas ofertas vindas da Tunísia para ajudar a controlar a desordem, como reporta o "Le Point", em Tunes. Também editado na capital tunisina, o "The Economiste", filial de Tunes, traz uma apreciação do presidente da Federação Sindical dos agricultores, da Tunísia, que critica a desorganização do movimento dos "Coletes amarelos".

É o prato da vingança a ser saboreado, quase oito anos depois da primavera árabe, quando sob Sarkozy a ministra francesa dos Negócios Estrangeiros, Midhéle Alliot-Marie oferecia o savoir-faire gaulês ao presidente tunisino Zine el-Abidine Ben Ali, execrado pelos revoltosos como ditador.

"Paris está a arder"

A derrisão de Macron simboliza-se na força expressiva de "Paris está a arder", como no filme com Alain Delon e Jean-Paul Belmondo que ficcionaliza um eventual facto histórico: Hitler teria mandado incendiar a cidade-luz para evitar a sua ocupação pelos Aliados.

"Paris a arder", literal e figurativamente. Ou seja, ardeu, sim, embora não como pintaram as hipérboles. Viu-se, sim, muita fumaça a sair de prédios "da burguesia" a que atiraram archotes ou talvez bombas de fabrico artesanal. As câmaras, sobretudo as de videoamador, mostraram ao mundo as cinzas do que antes tinham sido viaturas estacionadas nas artérias conotadas com a alta burguesia.

Em França, "nunca estão satisfeitos"

"Macron escolheu, como bom liberal, a via da economia que privilegia os ricos". Daí que os “arruaceiros” estão "a aproveitar o seu próprio ’farniente’ para quebrar, incendiar, roubar e armar a confusão porque nem a França nem os pais conseguiram educá-los. A anarquia é uma velha tradição neste país. Nunca estão satisfeitos", escreve, no site "le360.ma”, o conhecido escritor marroquino Tahar Bem Jelloun.

No Senegal, é Macron que num vídeo trucado, em que o corta-e-cola resulta num pedido de ’demissão sob pressão popular’ do presidente francês.

Criado para ser humorístico, muitos pensaram que o vídeo era uma notícia.

Derrisão, um invento francês

O riso que demonstra zombaria, acompanha-se de comentário irónico, na melhor perspetiva. Na sua pior vertente, o seu alvo é atingido pelo desprezo, expresso pelo riso sarcástico, pela conduta ou procedimento estigmatizantes de outrem.
a pessoa que a, normalmente, através de ironia ou sarcasmo.

A renascida da matriz derisio, pré-clássica, a francesa dérision volta a afirmar-se como arma política, como no século da Revolução (de 1789).

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